quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Prefácio

Sim...a si mesmo

A “famosa quem” chamada Patricia Limeres, como ela mesma diz, decidiu escrever um resumo de sua história de vida até esta edição, não para ser publicado. Era apenas uma reflexão sobre fases de sua vida, mas ela decidiu não ser egoísta e usou de uma de suas virtudes – a fraternidade – para compartilhar suas experiências com outros. Afinal, sempre tem algo que alguém aprende com a vivência de outras pessoas.
Mesmo sem ter sido sua intenção, ela quis mostrar que, de fato, não é preciso ser um best seller para expor memórias e sentimentos, dores e prazeres, para encantar com a força da simplicidade e ajudar outros a compreender e enfrentar desafios.
O fato de Patricia contar as voltas que deu na vida, ou que a vida deu nela, como diz, ganha uma autenticidade excepcional não só porque não seria publicado, mas porque traz a linguagem da alma, temperada com as conexões da razão e do bom senso.

É um livro que ensina sobre a vida, que pode (e deve) ser lido por pessoas de qualquer idade, mas que provavelmente ganhe um peso maior se for absorvido pelos mais jovens, sobretudo, os adolescentes e os que vêm um pouquinho depois dessa fase, tão, tão, tão fantástica no aspecto da transformação do ser.
Embora pareça separar a arte do jornalismo, em alguns momentos do texto, ela acaba por mostrar que ambas caminham juntas e, de certa forma, tudo pode ser arte, principalmente a vida, que nos é dada para moldarmos a nós mesmos como desejarmos, juntando a esse querer o sentir, buscando equilibrar razão, emoção, intuição...
Sua história de vida demonstra uma força desde quando era pequena, o que a torna um exemplo, mesmo quando ela pensa que pulou fases. Que nada! Ela é que pensa isso. Sua alma de guerreira guardou para agora a fase da criança que nunca deixa de ter brilho nos olhos e esperança na postura e atitudes, mesmo quando ela dá uma de pessimista, como se quisesse provocar a si mesma para dar mais voltas por cima. Como se dissesse não, só para motivar a busca do sim e lutar.
E ela disse tanto sim construtivo que, além de plantar uma árvore e escrever um livro, como no provérbio árabe, teve filhos sem engravidar, já que, como voluntária de projetos sociais, plantou sementes de sonhos de vida em crianças que tinham poucas oportunidades para perceber horizontes.

No movimento da dança do corpo e das letras, sua magia acabou provando que na vida não existe sucesso ou fracasso, mas situações que nos agradam e outras que não nos agradam, porque não atendem às nossas expectativas ou desejos. Uma coisa, porém, é certa: sendo gostoso ou não se sentir, tudo ensina, como ensina Patricia, que soube ter coragem de dizer sim a si mesma e que, agora, abre seu coração, para que você não se acomode no não.



Luiz Carlos Bezerra
Jornalista e professor universitário

Agradecimentos


            Nem sei direito por onde começar, ou melhor, por quem começar. Foram tantas, são tantas as pessoas que, direta ou indiretamente, contribuíram para que este livro fosse primeiramente escrito e, depois,  publicado. Além disso, existem os que participaram de parte ou do todo contido nessas páginas e que, portanto, acompanharam e colaboraram para a construção da minha história e da pessoa que sou hoje.
É muito difícil agradecer nominalmente, pois sempre corremos o risco de deixar de mencionar alguém imprescindível e, desde já, quero desculpar-me se eu cometer essa falha.
Não sei se dedico o meu primeiro agradecimento a Deus ou à minha mãe. Afinal, antes de mais nada foi Deus quem permitiu que eu viesse ao mundo e, sobretudo, pelo ventre de uma mulher tão digna e guerreira como a minha mãe. Levando isso em conta, eu deveria agradecer primeiramente a Ele, mas Lhe peço a devida licença para fazer diferente. Quero agradecer primeiro à minha mãe, pois ela é a maior responsável por tudo o que fui, pelo o que me tornei e será também a responsável pelo o que virei a ser. Mãe, receba o meu eterno agradecimento e, sobretudo, o meu sincero reconhecimento por tudo o que fez por mim e pelas minhas irmãs. Você foi e é a melhor mãe e pai (pãe) que poderia ser.
Quero agradecer às minhas irmãs, tão amadas, não só pelos apoios moral, psicológico e material. Agradeço pelo simples fato de serem minhas irmãs de sangue, de coração e de alma. Somos fãs umas das outras e o nosso amor e união nos dá forças para suavizar a vida nos momentos difíceis.
Não posso deixar de estender meus agradecimentos às minhas tias Nena e Vera, ao meu tio Miguel, aos meus primos(as) Rita, Rosane, Tito e Maria Rita por terem depositado em mim a confiança da qual eu necessitava para seguir com os meus estudos. Dedico a vocês o meu título de jornalista, o meu certificado e a minha experiência acadêmica e profissional.
Agradeço a Sra. Jurema, que hoje já não está entre nós, pela oportunidade de trabalho que me foi dada por ela numa época tão difícil da minha vida e, principalmente, pela possibilidade de estender o prazo de vigência da minha maior realização.
Agradeço também aos meus amigos(as), que sempre me incentivaram. Agradeço especialmente à Mirella – a primeira pessoa que teve acesso aos esboços dos textos deste livro. À medida em que eu ia escrevendo, lhe mandava capítulo por capítulo, por e-mail, para que ela me desse a sua opinião. Sempre acreditei na sensibilidade e intuição dela e não teria pessoa melhor para me falar sobre impressões e sensações a respeito do que escrevi e que me era tão pessoal.  Obrigada Mi, por ter aceitado, de pronto, ler e comentar, pela paciência, pelo cuidado e delicadeza ao me transmitir algumas críticas construtivas em relação ao conteúdo.
E, por fim, quero agradecer ao Luiz Carlos Bezerra, meu ex-chefe, que deu-me a primeira oportunidade como profissional de Comunicação e que sempre acreditou no meu potencial. Obrigada por ter lido o livro antes de sua publicação e por ter escrito um comentário tão delicado sobre a minha história.

Dedicatória


Dedico este “filho” às minhas primeiras professoras de dança, Luciana Herédia, Carolina Sales e Natali Camolez. Dedico também e, principalmente, à Gláucia Lacerda Serra, que foi muito mais do que professora e coreógrafa, foi o exemplo e o espelho que escolhi para seguir. Gláucia, fui, sou e continuarei sempre sua fã.
À Sandra Cabral também dedico parte desse conteúdo, por ter me apresentado uma nova linguagem corporal e por ter me dado a oportunidade de vivenciá-la com prazer.
A dedicatória especial desse relato sobre a minha história vai para as minhas eternas alunas. Espero que cada uma delas tenha oportunidade de folhear essas páginas um dia, para terem dimensão da importância da passagem delas pela minha vida.

Capítulo 1 - Famosa "quem"?

            Por que ou para que ler um livro autobiográfico sobre a experiência de uma “famosa quem”*? Se essa pergunta passou pela sua cabeça, não se preocupe. Passou primeiro pela minha.
A ideia de escrever um livro não é recente, confesso. Mas ser a personagem central não estava nos meus planos. Aliás, relatar em primeira pessoa uma parte da minha própria história estava totalmente fora de cogitação. Sempre considerei a minha vida comum demais para isso.
A intenção de escrever um dia era certa, mas o tema ainda era indefinido. Até que a minha própria vida foi se revelando uma ótima história para ser contada e compartilhada. Uma história de altos e baixos. Uma história de sucesso e fracasso; de persistência e desistência; de perdas e ganhos; de sonho e realidade; e, sobretudo, de SIM e de NÃO.
O despertar dessa ideia foi ganhando corpo e pronto. De repente e sem querer eu estava diante da temática do meu livro. Mas antes de decidir expor fragmentos da minha vida eu me questionei muito sobre a real utilidade e importância que a história de uma pessoa comum e desconhecida poderia ter para os leitores ou até que ponto a minha experiência poderia contribuir, interferir ou transformar a história desses mesmos leitores. 
Depois de tentar responder a todas essas questões cheguei a algumas conclusões. Uma delas e, talvez a mais curiosa, é que não faço a menor ideia do impacto que o conteúdo de “Diante do Não, Disse Sim” poderá causar nas pessoas que, por uma razão ou por outra, decidirem lê-lo até o fim. Isso vai depender de cada leitor e do momento pelo qual está passando.
 “Diante do Não, Disse Sim” nada mais é do que o reflexo fiel do que vivi, do que sou e, principalmente, para onde as escolhas que fiz ao longo da minha vida me levaram e o que elas me possibilitaram ser. O livro em si é fruto de uma necessidade primeira, pessoal e talvez até egoísta, de registrar as voltas que a vida deu em minha vida.
Em princípio, não tinha a pretensão de torná-lo um produto de prateleira. Pensei que pudesse, no máximo, ocupar uma gaveta. Mais precisamente uma das minhas gavetas. Portanto, trata-se apenas da tentativa de manter sempre viva e fresca a memória do meu tempo, em qualquer tempo e, sobretudo, compartilhar a minha história e o valor intangível dos sonhos e ideais com os meus amigos, familiares e até mesmo comigo.
Como não tinha a pretensão de publicá-lo, fiquei muito à vontade para escrever com liberdade, simplicidade e transparência. A partir desse contexto, foi fácil ou, quase fácil, selecionar partes da minha vida e transformá-las em capítulos, sem nenhuma pretensão literária.
A temática principal das páginas que se seguem é a relação forte, intensa e presente da dança e da arte em minha vida. Por mais que a vida me conduzisse para caminhos opostos à área cultural, em determinados momentos, algo sempre me trazia de volta. Como se um fio invisível e condutor estivesse preso a mim e puxasse-me à medida em que distanciava-me demais de minha real vocação ou quem sabe destino.   
As inúmeras páginas que, inicialmente, tinham o propósito único de ocupar o fundo da minha gaveta possuem um conteúdo com potencial para atingir não apenas pessoas ligadas ao mundo da dança e da arte. Ao contrário, nelas eu traço paralelos do cotidiano de qualquer pessoa, propondo uma reflexão bem mais ampla à cerca das escolhas que competem a nós mesmos, todos os dias, e que podem mudar totalmente o rumo das coisas.
E, agora, enquanto escrevo, percebo que acabo de me contradizer no que diz respeito à afirmação feita no início do capítulo, quando confessei não ter menor idéia da importância e do impacto que ele pode causar nas pessoas que o lerem. Sinceramente não me incomoda a ideia de ter entrado em contradição e fiz questão de mantê-la no livro porque é preciso admitir que a contradição existe, faz parte do nosso dia a  dia e, por vezes, se faz necessária.
Somos uma somatória das experiências adquiridas ao longo de nossas vidas e, por essa razão, passamos parte da nossa existência convivendo e superando conflitos internos e administrando os externos. Tudo isso, porque somos regidos por um sistema que nos impõe que cada pergunta tenha duas possíveis respostas: a certa e a errada. Em contrapartida, esse mesmo sistema também nos diz que o ideal é buscarmos o caminho do meio: o equilíbrio. Está aí, mais uma contradição e tanto!
Em síntese, afirmo que, na realidade, o conteúdo desse livro é importante, sim. É importante para mim. Afinal, trata-se de parte da minha vida registrada em papel, mas certamente ele também terá a sua importância e valor para os que se identificarem, de alguma forma, com essa minha vida que é única, mas com enredo não exclusivo. Aos que resolverem ler além das palavras, garanto uma leitura, no mínimo, interessante. Sim, porque o livro tem esse poder. Ele permite que ultrapassemos as fronteiras do concreto.
Aos leitores que, mesmo com essas sinceras declarações, optarem por dar continuidade à leitura, na esperança de encontrar respostas, agradeço o voto de confiança e faço um pedido: se as encontrarem compartilhem comigo, através do e-mail plimeres@gmail.com. Irei responder pessoalmente todas as mensagens que receber.
A partir de agora, convido você para ingressar nos próximos capítulos, nos quais irei abordar a influência que essas contradições e conflitos têm sobre as escolhas humanas, tomando o meu exemplo como referencial. Espero que você tire o melhor proveito possível do turbilhão de momentos, ideias, sensações, impressões e sentimentos contidos neles.
Te encontro nas próximas páginas?
  
* Famosa “quem” - Termo que uso freqüentemente quando quero me referir a pessoas que ninguém sabe quem são. Há também os casos em que uso essa expressão para falar de pessoas que pensam que são importantes, quando na verdade não são. Nesse caso específico eu questiono: “Ele (a) é o famoso (a) quem mesmo”?

Capítulo 2 - Como a dança entrou em minha vida

            Pode parecer estranho, mas penso que a dança entrou em minha vida quando ainda estava no ventre de minha mãe ou até antes disso. Quem sabe? Esse pensamento dá margem à ideia de que ela ou alguém da minha família também tem a dança como paixão e vocação e que, portanto, digo isso por acreditar numa possível influência, mas não é o caso. É bem verdade que ela também não colocava música clássica durante a gestação para que eu escutasse e nem tampouco desejou que eu fosse bailarina um dia. Ainda assim, sinto e tenho a forte impressão de que antes mesmo de nascer esse amor já estava instalado em meu coração e marcado em minha alma, pois até aonde a minha memória me permite recordar, o meu desejo de dançar já estava lá, forte, intenso e persistente, dentro de mim.
Persistente porque foram inúmeras as dificuldades com as quais  deparei-me até conseguir ingressar no mundo da dança e, principalmente, manter-me nele. A maior delas, sem sombra de dúvida, era a falta de dinheiro. Grande novidade! Certamente, não fui a primeira nem a última a viver e conviver com essa realidade.
Sem entrar muito em detalhes e somente para contextualizar, meus pais se separaram no meu sétimo ano de vida. A decisão partiu de minha mãe após 14 anos de casamento e o meu pai não aceitou com muita naturalidade a decisão dela. Então, munida apenas de coragem e determinação, ela saiu de casa com três filhas (sou a caçula), abrindo mão da pensão alimentícia e de quase todo o resto.
Muita gente não entende direito o motivo que levou minha mãe a abrir mão da pensão, uma vez que é uma das únicas, senão a única lei que ainda funciona de verdade neste país. As razões que a levaram a tomar essa decisão são bem simples: primeiro, porque ele não encarou a separação numa boa e levantar questões de direitos e deveres não facilitaria em nada no processo de separação; segundo, porque, naquela ocasião, meu pai mal conseguiria dar conta de si próprio, que dirá, de pagar a pensão de três filhas.
A razão da separação? Reservo-me o direito de preservar meus pais, sobretudo, minha mãe, dizendo apenas que ela decidiu pagar o preço necessário, naquela circunstância, para nos dar uma boa educação e formação, baseadas no exemplo do trabalho, dignidade, força, amor e união. E esse preço, ela pagou praticamente sozinha.
Não é nada fácil expor essa parte da minha vida, até porque não é só minha, mas também da minha família. Foram tempos difíceis aqueles. Com a responsabilidade de criar e educar três filhas, sozinha, minha mãe começou do zero em uma época em que a separação e principalmente as mulheres separadas ainda eram vistas com maus olhos pela sociedade.
Moramos um tempo na casa dos meus avós maternos. Um tempo bem curto, inclusive. Com a ajuda da família, mudamos para um apartamento antigo, pequeno, escuro e alugado.
Minhas irmãs começaram a trabalhar no início da adolescência para ajudarem nas despesas da casa, pois a renda do trabalho de minha mãe não era suficiente. Dessa forma, minhas irmãs trabalhavam de dia e estudavam à noite e minha mãe, que trabalhava no comércio, trabalhava o dia inteiro, todos os dias, inclusive aos sábados, e dependendo da época do ano até aos domingos.
Eu, fora do horário escolar, ficava em casa sozinha. Assim, assumi responsabilidades e preocupações que uma criança normalmente não tem. Tornei-me adolescente quando na verdade ainda era uma criança. E foi assim sempre. Na adolescência, já era praticamente adulta e, agora, que sou adulta, sinceramente não gostaria de voltar a ser criança.
Tudo o que vivi foi válido e guardo as doces lembranças. As amargas também. Hoje, adulta, quero apenas viver em meu tempo e, finalmente, ser adulta enquanto adulta. E que venham as próximas fases, se vierem.
Voltando ao passado...enquanto minha mãe e minhas irmãs trabalhavam, eu, na minha ingenuidade de menina, porque no fundo era apenas uma menina, ficava a sonhar que me tornaria uma bailarina. Sonhava de olhos bem abertos e ouvidos bem atentos à música. Esses sonhos duravam bem pouco tempo. A realidade sempre batia forte à porta, fazendo-me despertar e adiar mais um pouco a realização desse sonho.
Além da questão financeira que, sem dúvida, era o fator condicionante para que não pudesse concretizar o meu maior desejo, minha mãe também não levava a sério a minha vontade e vocação. Sempre achou que era apenas um capricho de criança e que cedo ou tarde ia passar. Ela dizia, repetidas vezes, que dança não era coisa para nós, ou melhor, para mim. Dizia também que não dá futuro, enfim.
O tempo foi passando e continuei alimentando, em silêncio, o sonho e o desejo de dançar. Afinal, para sonhar não era preciso pagar quantia alguma e nem pedir autorização.
Aos 15 anos de idade, recebi a minha primeira proposta de emprego. Que orgulho! O salário era bem pequeno, mas como trabalharia apenas meio período, dando aula de datilografia e digitação, aceitei.
No dia em que recebi o primeiro salário, não tive dúvida. Sem falar nada a ninguém, nem mesmo à minha mãe, fui até uma academia de dança e fiz a minha matrícula para fazer aulas de jazz. Naquela data,  tomei a decisão de finalmente tornar realidade o meu sonho, até então, inatingível. Sou capaz de lembrar-me como se fosse hoje. Aquele foi um dos dias mais felizes de minha vida.
Para os padrões do mundo da dança, comecei tarde, bem tarde, mas comecei.
     

Capítulo 3 - Dançando com os olhos

 
Embora tenha começado as aulas consideravelmente tarde, aprendera a dançar por meio dos olhos desde a infância. Já que não podia frequentar escolas de dança, assistia aos filmes e apresentações pela TV, observando cada detalhe, cada movimento, gesto e expressão. Claro que vários movimentos passavam sem que eu pudesse registrar, mas conseguia reproduzir, ao meu modo, praticamente toda a sequência coreográfica e agregava as minhas criações nas partes que não conseguia lembrar. Era divertido!
Além de registrar as coreografias só de olhar, eu também as ensaiava, pois sempre que recebíamos visitas em casa, afastava o sofá, colocava uma música e dançava inúmeras vezes. Aquele espaço improvisado era o meu palco. O cenário era composto pelos móveis da sala e o público era formado pelas minhas irmãs, minha mãe e a visita. Era mágico!
Nessa época, eu já ouvia as frequentes críticas da minha mãe. Ela não me impedia, mas fazia questão de manifestar a opinião de que a minha vontade de dançar era por pura influência das minhas primas, que dançavam desde pequeninas.
Na realidade, ela não entendia ou não queria entender que era algo mais forte do que eu. No fundo, sempre desconfiei que ela usava essa desculpa porque sabia que não teria condições de pagar minhas aulas de dança. Então, era mais fácil acreditar que eu só queria dançar porque elas dançavam e que, com o tempo, a vontade passaria. Mas não passou.
Diante da impossibilidade de materializar o que era só sonho,  eu acompanhava cada apresentação das minhas primas. Nos finais de semana, assistia aos seus ensaios e realmente me projetava na imagem delas. Elas representavam a referência do que eu queria ser. Emocionava-me ao vê-las dançando e sempre pensava: um dia ainda viverei essa experiência. 
O que a minha mãe não sabia era que não me inspirava apenas nas minhas primas. Elas não eram as únicas bailarinas do mundo. Tá certo que elas faziam de um tudo. Era Ginástica Rítmica Desportiva (GRD), sapateado, ginástica e estilo livre. Mas, além delas, havia outra vitrine para saciar a minha vontade de dançar, já que me contentava com tão pouco.
Por incrível que possa parecer, o pátio da escola pública onde estudava ficava de frente para uma academia de dança - aquela mesma academia na qual me matriculei mais tarde – e nos intervalos das aulas, passava praticamente o tempo todo a contemplar as bailarinas, seus movimentos, giros e saltos. Era como se, naqueles breves momentos, o mundo inteiro mudasse de preto e branco para colorido ou vice-versa.
            Não posso dizer que era tão simples assim. Contentava-me com esse pouco porque não havia outro jeito. Afinal, aquela era a minha realidade de vida. Mas aceitar as coisas como eram, não significava que não questionasse algumas situações como, por exemplo, por que as minhas primas, com quem eu convivia com tanta proximidade, podiam fazer o que gostavam e ter boa parte do que desejavam e eu e minhas irmãs não? Embora não sentisse revolta ou inveja delas, no sentido negativo que essa palavra e sentimento denotam, era difícil entender o que as diferenciavam de mim. Sinceramente, encaro essa dificuldade de entendimento e até mesmo os questionamentos da época como algo natural, pois eu era apenas uma criança.
E assim foi. Ao longo de toda a minha infância e início de adolescência, enquanto naquele mundo distante as bailarinas dançavam com os pés, eu, no meu mundo real, dançava com os olhos.

Capítulo 4 - O sonho tornado realidade


            Terça-feira, 9 de julho de 1993. Este foi o tão sonhado e esperado dia: o primeiro dia de aula. Os dias que antecederam esta data foram intermináveis. Eu parecia uma criança de cinco anos que pergunta a todo instante aos pais quantos dias faltam para um determinado dia. A única diferença é que eu não perguntava a ninguém, contava os dias comigo mesma. Era angustiante, pois o bendito dia parecia nunca se aproximar.
            Hoje, até consigo entender um pouco o meu comportamento da época. Levei tanto tempo para concretizar o meu sonho que, mesmo de posse dos recibos da matrícula e mensalidade, custava-me acreditar que já não havia “NÃO” que pudesse me segurar.
            Os dias passaram e era chegada a hora. A minha hora. E, ao contrário do que temia, ela não me foi tirada. O tempo entre o momento da matrícula e o primeiro dia de aula foi o período em que mantive em segredo absoluto o fato de que iria fazer aulas de dança.
Omiti essa informação, que era sinônimo de realização, por vários motivos. Primeiro, porque enquanto não vivesse a experiência de verdade, não acreditaria. Segundo, porque tinha receio de como a minha mãe reagiria à notícia e o que eu menos precisava naquele momento de pura satisfação e elevada autoestima era ouvir críticas ou levar um banho de água fria. Não queria esconder, mas foi a única forma que encontrei de evitar conflitos e, principalmente, de colocar em risco a oportunidade de realizar o meu ideal e, ao mesmo tempo, mostrar para minha mãe que não se tratava de um simples capricho. Era bem mais que isso.
Ao contrário de calar-me, queria compartilhar. Queria gritar para que o mundo inteiro pudesse ouvir que eu quis, sonhei, acreditei, busquei e consegui. Quando desejamos algo com muita intensidade e esse desejo pauta a nossa vida, não importa o tempo que levamos para conquistar. O importante é insistir. Consegui porque sabia onde estava e, sobretudo, onde queria chegar. No íntimo, sentia que era só uma questão de paciência, de esperar um pouco até que pudesse buscar. Foi exatamente o que fiz. 
O dia em que tudo se tornaria real foi repleto de ansiedade, medo e insegurança. Essa afirmação beira à loucura, eu sei, mas senti medo sim e a insegurança rondou-me o tempo todo. Não era medo de realizar o que tanto esperava, não isso, era o medo do famoso desconhecido, do fracasso, da remota, mas possível decepção. Não sabia o que me esperava e não estava certa de que o mundo da dança que fantasiara por tanto tempo existia na prática, mas não era o momento mais adequado para ter dúvidas de nada, era hora de encarar o “novo”, que por sensação e intuição era “velho” conhecido.
No vestiário, durante os minutos que antecederam a minha primeira aula de jazz, observava todas as meninas conversando intimamente. Elas apresentaram-se e até foram simpáticas, mas a minha impressão foi a de que eu havia chegado atrasada e, principalmente, de que era uma estranha no ninho. E realmente era. Lembro-me nitidamente das mãos contorcidas e do estalar frenético dos dedos. Era o nervoso dominando-me por inteiro. Hoje, tenho certeza de que todas elas notaram e até se divertiram com isso, embora na época eu tenha jurado a mim mesma que elas nem haviam percebido.
Ainda no vestiário, de repente, elas levantaram-se e dirigiram-se à porta de saída. De imediato, olhei para o relógio e os ponteiros marcavam exatamente 18 horas. Horário da aula. Respirei fundo, soltei o ar violentamente e segui a turma pensando: seja o que Deus quiser!
Ao entrar na sala, meus olhos percorreram rapidamente todo o ambiente encantados principalmente com os espelhos e as barras, elementos que nunca tive na sala da minha casa, lugar que eu transformava em academia de dança a partir da minha fértil imaginação. Quando dei por mim, meus olhos estavam marejados de lágrimas e a emoção quase extravasou.
Não levou muito tempo para que o encantamento se transformasse em constrangimento. Quando olhei para o chão, não porque quisesse olhar para ele, mas por uma certa timidez inicial, percebi que era a única aluna que usava no lugar das sapatilhas, meias. É que, como mencionei anteriormente, o meu salário não era um salário, era praticamente uma ajuda de custo, e além da matrícula e da mensalidade que já havia pagado, também passei a contribuir em casa com um valor simbólico e, portanto, não havia sobrado dinheiro suficiente para comprar as sapatilhas. A professora, Luciana Herédia,  percebeu o meu mal-estar e logo tratou de quebrar o gelo. Foi um verdadeiro alívio e não demorou praticamente nada até que eu me desligasse daquele detalhe tão pouco significativo diante do sonho que  estava vivendo, na prática.
A primeira aula, assim como as que se seguiram, vieram confirmar tudo o que eu já sabia: realmente nasci amando dançar, sem nunca ter dançado tecnicamente falando. Depois da aula, fui direto para a escola, que como já falei ficava em frente à academia, e o assunto não era outro senão a minha primeira aula de dança. As minhas amigas da época (Priscila, Andréa, Fabiana, Bianca, Renata e Duda), algumas são minhas amigas até os dias de hoje, se alegraram com a minha felicidade e não demonstravam cansaço algum enquanto ouviam, durante horas, o relato detalhado da minha nova experiência. Isso que eu chamo de amizade!   
O momento mais esperado depois da aula em si, é claro, foi o da minha chegada em casa. Digo isso, pois já havia planejado contar tudo a minha família a partir da primeira aula. Fiz isso. Aproveitei para falar quando minha mãe e minhas irmãs estivessem reunidas na sala, assim, só precisaria contar uma única vez. A surpresa foi geral. Num primeiro momento, nenhuma delas acreditou, mas quando mostrei os recibos da mensalidade e matrícula e as roupas que eu havia usado na aula elas perceberam que estava dizendo a verdade. O contentamento das minhas irmãs foi imediato. Minha mãe não foi contrária, mas também não manifestou grande entusiasmo.
A partir daquele dia iniciou-se um processo gradativo de convencimento natural, junto a minha mãe, de que eu tinha uma opinião formada e sabia há tempos o que queria.
O ritmo das aulas era intenso e até isso era ótimo. É certo que nem sempre conseguia acompanhar a turma de pronto, uma vez que as demais alunas estavam adiantadas em relação a mim, mas essas dificuldades me motivavam ainda mais e, ao longo das aulas e somente na prática, pude perceber o quanto realmente havia aprendido a dançar com os olhos e, principalmente, o quanto isso contribuiu no processo de aprendizado técnico.
O mais engraçado de tudo era que, mesmo depois de começar as aulas, ainda flagrava-me no pátio da escola, no intervalo das aulas, olhando para os bailarinos do grupo mais avançado, quase profissional, que faziam aula à noite. Era a mesma academia, a mesma sala de aula e os mesmos bailarinos de antes, mas haviam duas diferenças: eu já sabia quem eram aqueles bailarinos e sabia também como era estar lá.
Tudo estava mudado, ou melhor, quase tudo. A única coisa que permanecera inalterada era o fato de que mesmo aprendendo a dançar com o corpo, eu não deixara de dançar com os olhos.