É assustadora a sensação de chegar a essa etapa do livro. Um livro que, em princípio, não escrevi com o propósito de publicar. Um livro que começou a ganhar vida a partir de fragmentos de lembranças e sentimentos guardados a sete chaves dentro de mim durante anos.
É bem verdade que sempre desejei escrever um livro, dentro daquele pensamento de que um ser humano para ser completo precisa plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro, mas não fazia ideia e tampouco tinha a pretensão de que esse livro fosse tratar de um assunto tão meu.
A grande razão de não ter vislumbrado a possibilidade de torná-lo público, mesmo à medida que ele ia ganhando forma e corpo, foi por não conseguir encontrar em seu conteúdo, ou seja, nos meus fragmentos de vida, algo que pudesse interessar a alguém além de mim ou, no máximo, minha família.
Não previ também que, para escrever cada palavra impressa nele, precisaria, ainda que inconscientemente, mergulhar para dentro da minha mente e do meu coração, sem restrições. O mergulho foi inevitável e dele resultou um encontro comigo mesma. Um encontro que me permitiu tornar visível coisas que nem eu mesma imaginava. Encontrei nas lembranças mais profundas o entendimento. Encontrei também a compreensão e a aceitação dos fatos. Encontrei equilíbrio. Além disso, encontrei respostas para as questões que me fazia em silêncio.
Mesmo diante de todas essas descobertas eu ainda não conseguia perceber o que tudo isso poderia acrescentar na vida de outras pessoas. Que tipo de mudança a minha experiência poderia provocar no outro? Será que o que eu tenho a dizer é importante ou faz sentido para alguém? Sempre ouvi dizer que a ausência de uma resposta concreta para essas perguntas é a grande angústia dos escritores, sejam eles consagrados, conhecidos ou anônimos. Não posso falar em nome dos outros, mas em meu nome certamente foi e continua sendo essa a minha grande angústia.
Como a decisão de escrever um livro sobre essa temática não previa que ele viesse a tornar-se público, não me deixei influenciar negativamente por esses questionamentos de “ser ou não ser” e dei continuidade à escrita.
O processo de criação e desenvolvimento, desde a ideia inicial até o atual parágrafo foi demorado e doloroso. Não é nada fácil escrever sobre nossas dores, mágoas, revoltas, fraquezas, decepções, desilusões e derrotas. Vou além disso. Não é nada fácil percebê-las. Aceitá-las. Superá-las e, sobretudo, colocá-las para fora. Exorcizá-las. Embarcar nessa viagem com destino ao meu interior fez-me abrir feridas, mas também ajudou-me a encontrar algumas fórmulas para a cicatrização delas.
Quando iniciei o registro das primeiras palavras que iriam compor o tão esperado livro, ainda não tinha o seu começo definido, muito menos o fim. Me deixei guiar e conduzir pelas lembranças. Depois, fui dividindo-as em períodos relacionando-as ao tempo e, na sequência, vieram os capítulos que dividiriam essa história real. Inúmeros capítulos idealizados no começo foram sendo derrubados ao longo do processo de criação, enquanto outros tantos iam surgindo.
Em determinadas passagens do livro não consegui suportar a dor ou a saudade e as lágrimas rolaram insistentes, lavando a face, acompanhadas de soluços incontroláveis. Nas fases em que a dor das lembranças me dilacerava mais, refugiava-me em pausas que muitas vezes se estendiam por meses. Nesses períodos isolava-me literalmente do texto, não lia o que já havia escrito e nem escrevia uma nova linha sequer. Não era bloqueio. Era a inútil tentativa de esquecer ou apagar. Então, hoje, pergunto-me: esquecer o que, se na verdade a razão do livro era lembrar e registrar? Chega a ter graça.
O objetivo do livro realmente era esse. Eu só não havia atentado para o fato de que para resgatar o mel eu também precisaria recordar o fel. Era um pacote só. Quando me deparei com esse cenário, percebi que tinha duas opções: seguir em frente e suportar as conseqüências de remexer o passado ou desistir dele o enterrando de vez sem ao menos desvendá-lo. Diante do impasse, decidi adiar a decisão. Esses afastamentos nada mais eram do que o adiamento do meu encontro com os meus sentimentos mais íntimos e temidos.
A partir dessas percepções passei a enxergar este livro como uma espécie de divisor de águas, pois ele fecha um ciclo da minha vida e dá margem para o início de outro.
A conclusão de “Diante do Não, Disse Sim” simboliza mais do que um objeto ou produto. Na verdade, só agora enquanto escrevo, leio e releio o que escrevi percebo que o livro em si é apenas o resultado da imersão de autoconhecimento a qual me submeti sem perceber.
Essa imersão foi imprescindível para que eu despertasse para o momento presente e, principalmente, libertasse o passado sem o peso da frustração que carregava comigo. Escrever o livro sobre a minha história, aquela que eu desconfiava não interessar a mais ninguém, fez-me ver a vida sob outra perspectiva e trouxe-me de volta a valorização e o agradecimento por tudo o que me foi permitido viver.
Mais importante do que qualquer outra descoberta que eu possa ter feito a partir dessa experiência foi conseguir entender que o fato de ter parado de dançar, seja na época da adolescência ou mais recentemente, não importa. O que me distancia da dança é apenas físico, pois sou ligada à ela espiritualmente. O amor que tenho por esta arte que mexe com todos os meus sentidos, transcende ao tempo e pode sempre recomeçar, ainda que de outra forma. Aliás, já recomeçou. Atualmente, faço aulas de dança de salão. O objetivo também não é me profissionalizar nisso, mas apenas estar em contato com algo que me faz sentir viva.
Hoje, como já disse, no lugar da dor e da frustração, existe apenas saudade. Uma saudade gostosa de sentir, pois a saudade é e deve ser sempre apenas uma grande vontade de viver de novo o que foi bom.
E, para minha própria surpresa, essa história pode sim despertar o interesse de outras pessoas. Aliás, de muitas pessoas. Por que não? A identificação pode não se dar em relação ao cenário, aos personagens, ao tempo cronológico ou até ao sonho e objetivo, mas sim nas entrelinhas. Todos têm sonhos, metas e objetivos. Todos passam por altos e baixos. Todos perdem e ganham. Essa história pode não ser só minha. Essa história pode, não digo na íntegra, mas em parte, ser a sua também.
Penso que todo mundo pode fazer uma imersão e nem é preciso escrever um livro para isso. Trata-se apenas de um mergulho que envolve descoberta, perdão, sentimento e libertação.
Tenho plena convicção de que a minha história não pode mudar a história ou a vida de outras pessoas, mas pode servir, não como exemplo ou espelho, mas como trampolim para novas escolhas e oportunidades. E lembre-se: as suas escolhas podem mudar o rumo da sua vida a todo momento, sempre.
Em muitos momentos da minha vida “diante do não, eu disse sim” e, se você analisar essa expressão a fundo, perceberá que é bem mais complexa do que pode parecer.
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