Posso dizer que, em 2003 e 2004, respirei dança praticamente em tempo integral e em plenos pulmões. Quando me deitava para dormir, boa parte dos sonhos também eram sobre dança. Era assim, a mente não parava nem durante o sono. A atividade foi realmente intensa. Eu continuava dividindo o meu tempo entre o trabalho, a dança como aluna e também como professora. Com isso, o tempo com os amigos, com a família e comigo mesma foi ficando cada vez mais escasso e o cansaço cada vez mais visível. E não era só o cansaço físico, mas também psicológico.
Em meados de 2004, diante desse quadro, resolvi escolher entre dançar ou ensinar. Foi uma escolha bastante difícil. Estava diante de um impasse e tanto. Afinal, esperara muito tempo para retornar a uma sala de aula como aluna e, sobretudo, ao palco. Aquilo alimentava o meu espírito e me mantinha plenamente viva. Ao mesmo tempo, presenciar o desenvolvimento daquelas crianças que chegaram à primeira aula sem noção alguma era algo que me fazia crescer não só como bailarina, mas principalmente como ser humano.
Entre a minha dança e a dança delas, escolhi a delas. Hoje, pensando bem, não consigo relembrar essa fase sem dar muita risada, pois escolhi a atividade que mais desgaste me causava. Fazer dança moderna significava apenas ir duas vezes ao Sesc, fazer as aulas e participar dos ensaios. Enquanto dar aulas significava prepará-las, selecionar as músicas, corrigir, repetir, orientar, explicar, gritar, ser firme, montar coreografias, pensar no tema e figurino, entre outras mil coisas.
Por isso, mesmo abrindo mão de dançar para diminuir uma atividade, o tempo continuou apertado. Aquele ano foi praticamente tomado pela atividade profissional. Não tinha hora para entrar ou sair do escritório. Além disso, haviam os eventos e reuniões externos. O meu trabalho era a minha prioridade. Afinal, era o exercício da minha profissão que me possibilitava realizar as demais atividades.
Nesse ritmo frenético de trabalho tomei mais uma decisão importante na minha vida. A decisão de que também finalizaria o trabalho com as minhas alunas no final daquele ano. Não poderia pausar o trabalho pela metade. Não seria justo comigo, que já estava desenvolvendo um processo para a apresentação de final de ano, e nem com elas que estavam absolutamente envolvidas com a proposta.
Para compensar os dias da semana que não conseguia dar aula, por conta de compromissos profissionais assumidos, estabeleci os horários mais loucos para as aulas e ensaios. A partir daí, nem eu, nem tampouco elas tínhamos finais de semana de descanso. Eram sábados, domingos e até feriados fazendo aulas e ensaiando.
Foi um ano puxado. Elas não sabiam sobre a minha decisão e nem poderiam saber sem o devido cuidado. Todo rompimento é muito difícil. Convivíamos há três anos, praticamente todos os dias. E ao longo desse tempo, a minha paixão incondicional pela dança as contaminou.
Embora o desgaste fosse muito grande, elas não faltavam aos ensaios. Muitas vezes ensaiávamos o dia inteiro de sábado ou domingo e elas resistiam sem reclamações. Elas se entregavam. Tá certo que era ao modo delas, mas se entregavam.
Como eu já sabia que seria a última apresentação da turma, pelos menos sob a minha direção, resolvi dividir o palco com elas mais uma vez. Seria a nossa despedida. A minha despedida delas, da dança - mais uma vez -, das aulas, dos ensaios e do palco. Também era a despedida delas, embora ainda não soubessem disso. Não contei pois não queria estragar aquele momento. Tinha que ser alegre, especial, único, como sempre é. Eu não tinha o direito de estragar e acabar com a magia que é estar no palco. A despedida consciente delas ficaria para um outro momento.
Montei duas coreografias muito especiais e o resultado do trabalho realizou-me profundamente. Foi prazeroso estar no palco com minhas pequenas alunas que me ensinaram tanto. Eu ensinei a elas sobre dança e elas me ensinaram sobre todo o resto.
Quando a música terminou e os aplausos tomaram conta do auditório apenas eu sabia o que aquele momento significava para todas nós. Era o final de uma trajetória cheia de dificuldades, mas acima de tudo, linda. Pela primeira vez na minha vida não me despedi da dança com tristeza. O sentimento que imperava era o de satisfação, orgulho e realização. Veio à tona aquela sensação de missão cumprida. Interrompida, talvez. Mas senti que desempenhei o meu papel da melhor forma que pude, dentro do período em que me disponibilizei por inteiro para aquelas crianças e adolescentes nas quais eu acreditei e apostei. Foi intenso. Foi verdadeiro. Foi eterno. É eterno.
Com essa apresentação, que demonstrou todo o amadurecimento e crescimento técnico da turma, fechamos o ano com cheiro, cor e sabor de dança no ar. As férias vieram na sequência e deixei para comunicar o meu afastamento apenas no início das aulas, no ano seguinte.
Nem sei dizer o quanto foi difícil manter essa decisão. Era uma luta que travava todos os dias comigo mesma. As aulas começaram e todos que me conheciam e já sabiam da minha decisão perguntavam se eu realmente iria parar. Ninguém acreditava que levaria essa decisão adiante. Acho que nem eu mesma acreditei por muitas vezes. A minha decisão oscilava entre a necessidade e o querer. Eu precisava parar pelo meu bem físico e queria continuar pelo meu bem espiritual.
Mantive-me forte, mas não muito. Parei de dar aulas, mas não tive coragem de comunicá-las disso pessoalmente. Seria muito difícil olhar nos olhinhos delas. Sabia que seria incapaz de conseguir sair de lá incólume. Por essa razão, pedi à direção da escola que comunicasse sobre o meu afastamento, alegando a falta de tempo em decorrência dos compromissos profissionais.
Os primeiros meses foram muito dolorosos tanto para elas quanto para mim. Como continuava tendo contato com a escola por conta de outros projetos que a empresa desenvolvia lá, sempre tinha notícias delas e sempre era questionada sobre quando retomaria as aulas. A resposta a esses questionamentos era sempre de forma evasiva. Não era possível responder essa pergunta com convicção. Não sabia se voltaria a dar aula algum dia ou não. E ainda não sei.
A única coisa que tinha certeza até aquele momento era que a vida mais uma vez estava me colocando à prova. Até agora me ative em relatar o desfecho da minha experiência como aluna de dança moderna e, principalmente, sobre a minha vivência na área do voluntariado voltado à dança, mas não expliquei a razão maior de ter interrompido essa vivência. Pois agora é chegada a hora de esclarecer essa parte.
Precisei parar de dar aulas porque realmente elas tomavam muito tempo da minha vida pessoal. Mas até aí, tudo bem, pois desde o princípio foi assim. Eu dava aulas fora do meu horário de trabalho. A questão é que o meu trabalho passou a também consumir um espaço muito grande do meu tempo pessoal. Portanto, o tempo pessoal que eu tinha disponível para dar aulas passou a ser dividido com o trabalho e isso foi se tornando desgastante e inviável.
O mais curioso de tudo não foi o aumento da demanda de trabalho, mas sim a razão do aumento do volume de trabalho. A vida trazia-me mais uma surpresa. Vou explicar. Desde a privatização da siderúrgica na qual eu atuo, em 1993, a empresa viveu uma história de prejuízos, pois foi necessário um investimento muito grande em tecnologia, meio ambiente, segurança e saúde, entre outras áreas.
Passados dez anos, a empresa começou a colher os frutos desse investimento. Pela primeira vez, em 2003, a empresa teve lucro. Diante desse resultado positivo, a diretoria da empresa resolveu dividir o seu resultado com a comunidade, investindo os 4% do seu Imposto de Renda, permitidos pela Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura), em Cultura.
Entre vários profissionais de comunicação da empresa fui escolhida para trabalhar nessa área. Para explicar de forma objetiva eu era responsável por receber os projetos culturais, cadastrá-los, levá-los para análise do comitê, fazer os contatos com os produtores, acompanhar o desenvolvimento dos projetos patrocinados pela empresa e fazer assessoria de imprensa e comunicação interna dos projetos.
A partir dessa breve apresentação dos fatos, eu transfiro aos leitores a pergunta que me fiz inúmeras vezes desde então: qual é a possibilidade de uma pessoa formada em jornalismo, que atua em uma empresa siderúrgica (que produz aço), trabalhar com a área cultural dentro dessa mesma empresa? Eu mesma vou responder para você, leitor. A real possibilidade disso acontecer é praticamente nenhuma ou, na melhor das hipóteses, remota. Mas aconteceu comigo. Acredite!
É incrível, mas pela segunda vez o meu trabalho colocou-me em contato direto com a arte. Na primeira oportunidade, como voluntária na área de dança. Na segunda, tendo contato frequente com produtores culturais e artistas, conhecendo um pouco mais dos bastidores, acompanhando o desenvolvimento dos projetos e contribuindo indiretamente para que desenvolvam suas criações e possibilitem o acesso das pessoas à cultura.
Resgatando toda a minha história e trajetória, é curiosa a forma com que a vida deu suas voltas e me guiou sempre para o caminho da arte. Várias dificuldades se apresentaram nesse caminho. Várias renúncias foram aparentemente necessárias. As dores resultantes dessas dificuldades e renúncias muitas vezes se tornaram indefiníveis. Depois de tudo quanto abri mão, de tudo o que conquistei a partir disso, de tudo o que aprendi e também ensinei, vem a vida me mostrar o sentido da lei da compensação. Desta última vez, desliguei-me da dança apenas na prática e fiz isso com o reconhecimento de que a vida, mais uma vez, me tirava uma coisa para conceder-me outra.
Prova disso foi o primeiro projeto que acompanhei e que, de certa forma, até produzi. Por ironia do destino, foi o da Companhia de Dança Palácio das Artes, de Minas Gerais. Parece até ficção, mas não é. Eles trouxeram dois espetáculos de dança para a Baixada Santista e realizaram algumas oficinas de dança-teatro para a comunidade de Cubatão. Foi um dos projetos que me falou mais alto ao coração, pois além de ter relação com algo que está muito dentro de mim, foi um projeto com o qual eu pude me envolver de verdade. Tive contato direto com bailarinos da Cia., com a produção deles, com a diretora, que, inclusive, foi de uma generosidade sem tamanho, convidando-me para fazer um workshop com eles em Belo Horinzonte.
E não foi só isso. Teve mais. No espetáculo “Sonho de Uma Noite de Verão”, baseado no texto de William Shakespeare, a diretora, Cristina Machado, precisava de uma menina entre 7 e 8 anos para fazer uma pequena participação especial no início do espetáculo e como soube que eu dava aulas de dança para crianças, perguntou-me se alguma delas gostaria de participar.
É claro que não poderia desperdiçar essa oportunidade. Selecionei uma das meninas dentro dessa faixa etária, pedi autorização ao seu pai e, com a permissão dele, Carolina Leite dividiu o palco do Teatro do Sesc, em Santos, com nada mais, nada menos, que a Cia. de Dança Palácio das Artes. Era o meu sonho de vida realizado através da minha aluna, na época. Eu não cabia em mim de tanto orgulho, emoção e alegria.
Muitos outros projetos vieram. Projetos voltados às artes visuais, literatura, patrimônio histórico, teatro, audiovisual, entre outros. Atualmente, posso dizer que sou muito feliz atuando nessa área que atrela a minha formação acadêmica com a minha paixão pela arte como um todo, e em especial pela dança.
Posso dizer também que quando cortei novamente os vínculos com a dança, deixando de fazer aulas de dança moderna e, posteriormente, afastando-me das aulas voluntárias de dança para crianças, não tratava-se da primeira ou segunda vez que isso acontecia. Já passara por situações similares antes. A diferença era apenas o sentimento. Desta última vez não foi com dor, tristeza e frustração que me despedi, mas sim com contentamento e agradecimento pela oportunidade de viver tais experiências.
Já passaram-se mais de dois anos desde que parei de dançar e também de dar aulas. Ainda mantenho contato com a maior parte das minhas ex-alunas. Sempre que nos encontramos sou abordada com muito carinho e alegria.
Recentemente, algumas delas me encontraram no orkut, me adicionaram e sempre deixam recadinhos carinhosos. Em muitos deles elas expressam a saudade daqueles tempos. Dizem que sentem muita falta da disciplina, dos passos, das músicas, das aulas, das coreografias, do palco, das broncas, do espírito de união e cooperação que eu exigia entre elas. Muitas ainda me chamam de professora e afirmam que serão sempre minhas alunas. Quando me deparo com essas manifestações, percebo o quanto valeu a pena. Percebo também que nem sempre o melhor reconhecimento é o que vem do público. Eu não precisei ser uma bailarina profissional e conhecida para ser reconhecida e sentir-me realizada.
Confesso que dançar e dar aula são coisas que me fazem muita falta. O espaço vazio permanece lá, mas já não provoca dor. Apenas saudade. Quem sabe um dia eu volte. Sinceramente, não encaro como impossível essa possibilidade. Não considero que com 29 anos seja tarde para dançar. Só depende da perspectiva que se tem. Se um dia eu voltar a dançar certamente não será com a ilusão de ser uma exímia bailarina, mas com o intuito único de inundar a minha alma de prazer.
Por tudo o que relatei, às vezes, tenho a nítida impressão de que não fui em quem escolheu a arte, pois a vida vem me mostrando de diversas formas que foi a arte que me escolheu.
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