Como diriam os artistas, o show não pode parar. E, diga-se de passagem, não pode mesmo. E a vida segue, apesar das pedras e tropeços do caminho. Comigo não foi diferente. Me senti cair do alto, sem nem ao menos ter chegado ao fim da escalada. Se doeu? Doeu muito e por dentro. Se sofri? Sofri e não sei mensurar o quanto. Contudo, percebi que a dor e o sofrimento têm um limite e esse limite é estabelecido por nós mesmos. A decisão de neutralizar o sofrimento é nossa e está apenas e tão somente em nossas mãos.
É claro que não estou falando de dor física, estou me referindo às dores mais íntimas e profundas. Àquelas que provocam feridas, cujo processo de cicatrização é difícil, demorado e sofrido. Depois de tudo, as marcas ficam, mas só quem se machucou pode vê-las.
Após obter o resultado da segunda audição, vivi um sofrimento gerado pela frustração de não atingir uma meta e, principalmente, por ter consciência de que trabalhara duro para conquistá-la e, no entanto, meu desempenho ainda assim ficara à margem do necessário.
Sofrer por um sonho não realizado é natural. O que não é natural é transformar a falta de preparo, disfarçada de incapacidade, em penitência. É certo que não passar no teste me machucou, mas é certo também que eu potencializei o machucado, permitindo que ele provocasse uma dor ainda maior. É difícil reconhecer, mas a verdade é que eu dei mais importância ao machucado do que à dor propriamente dita.
Para perceber tudo isso, levei um tempo razoável. Antes, precisei chorar todas as lágrimas, sofrer todo o sofrimento, esgotar todas as formas de punição psicológica e destruir toda e qualquer autoestima que ainda pudesse existir. Tudo isso tomava uma proporção ainda maior, quando dava-me conta de que estava sozinha com os meus sentimentos, afinal, somente eu sabia o significado daquele teste. Dessa forma, a minha dor não era compartilhada. Em minha casa, quando o assunto era dança, eu nem era levada a sério. Assim, tomei a decisão de sofrer sozinha e em silêncio, mais uma vez. Parecia menos doloroso, embora estranho.
O tempo foi passando e o coração foi se acalmando. Não havia outro jeito, a não ser, seguir em frente. Aliás, nada parou. A rotina das pessoas permanecera exatamente como antes. Então, juntei os pedaços, levantei-me e retomei as rédeas da minha vida. Pensei em desistir algumas vezes, confesso. Inclusive, a caminho da primeira aula após a notícia bombástica que me destruíra por dentro, ainda não sabia ao certo se continuaria, ou não.
Tive a resposta para tal questionamento assim que ultrapassei a porta da sala de aula. Ali, eu sentia-me em casa, segura, feliz e realizada. Não era justo abrir mão de tudo o que conquistara até aquele momento só porque a vida me reservara mais um NÃO. Quantas outras negativas não vieram antes? E com quantas delas foi construída a minha fortaleza?
Naquele instante, um filme passou pela minha memória, em alta velocidade, com a seleção das imagens que conduziram-me até ali. Esperara 15 anos para sentir o gosto doce da realização e certamente não seria o tempo que eu ainda precisaria esperar para conseguir pisar o próximo degrau, o fator que me faria desistir de tudo o que já havia galgado.
O mais curioso é que na mesma sala onde eu fui avaliada por duas vezes – lugar onde senti o maior índice de medo, nervosismo, insegurança e dúvida – foi também onde recebi a mais importante resposta, obtive a mais importante certeza e tomei a mais importante decisão. A decisão de continuar com a certeza de que estaria pronta para a próxima etapa no momento certo. A repetição de palavras aqui, leitor, é proposital.
Os dias se arrastaram e a Vanessa – colega que também não passou nos testes - não comparecia às aulas. Até o dia em que ela apareceu apenas para comunicar que estava deixando a academia. Tentamos demovê-la da ideia, mas não conseguimos. Ela desistiu.
A sua desistência fez-me refletir sobre os limites de cada ser humano. Certamente ela não desistiu porque não era importante para ela, mas porque ela já havia chegado ao limite das suas forças, ao limite de espera determinado por ela. Comigo também foi um pouco assim. Senti que estava prestes a alcançar o meu limite, mas ainda consegui resgatar as imagens do que eu projetara para o meu futuro e dessas cenas imaginárias consegui extrair o restante da força necessária para continuar.
Só quem vive algo assim sabe o quanto isso tudo machuca, mas também ensina. Ensina que os sonhos têm, sim, um valor intangível e mesmo assim costumamos pagar um preço bastante alto por eles. Ensina também que é preciso estarmos prontos para ouvirmos que não estamos prontos. A aceitação natural da limitação pessoal exige uma maturidade muito mais ligada ao nível de percepção e discernimento, do que propriamente à idade.
A vida seguiu e não tive mais notícias de Vanessa. Não sei que rumo tomou e talvez não venha a descobrir se um dia se arrependeu. O que posso garantir é que eu insisti. Permaneci na academia, fazendo aulas no grupo Jazz III, que depois de um tempo foi extinto, pois era composto por bailarinas que passaram para o Amador I, as que migraram do Jazz II para o Jazz III, pelas alunas do Jazz III que não passaram para o Amador I e por mim, que era do Jazz I e não ingressei no Amador I. Tratava-se de um número pequeno, sendo que boa parte desse número só estava fazendo aulas para aprimoramento no Amador I. Por essa razão, o grupo Jazz III se juntou ao Jazz II.
O fato de não ter passado nas audições não diminuiu a minha sede de aprendizado e aperfeiçoamento. Eu queria mais. Foi a partir dessa fase que pude constatar que as dificuldades da vida, no caso da minha vida, me auxiliaram a buscar força e determinação nas adversidades da trajetória.
O ano de 1994 foi o que denominei de ano preparatório. E assim foi. As minhas professoras nessa segunda fase, Carolina de Sales e Natali Camolez, decidiram, assim como eu, que aquele ano seria realmente preparatório. Portanto, elas exigiam cada vez mais de mim nas aulas e, em contrapartida, eu não deixava por menos e retribuía a dedicação e a confiança depositadas em mim. Era bom demais saber que já não estava sozinha na busca incessante do que eu mais desejava. Foi puxado, é verdade, mas principalmente produtivo.
Ao longo do ano, fui superando dificuldades e limitações. O período de montagem de coreografia nova chegou, confirmando que o tempo passa mesmo e as dores também, principalmente quando o foco está direcionado para a solução e não para o problema.
Junto com o final do ano, veio também mais uma apresentação. Os ensaios, o cansaço, o desgaste físico. Tudo recomeçava e com todo o gás. Tudo era igual, porém totalmente diferente. Cada apresentação é uma apresentação. Cada movimento é um movimento. E os ensaios que o digam.
Um dia em que o ensaio foi exaustivo, recordo-me bem, no intervalo, fiquei pensando em como tudo pode ter dois lados. A repetição, por exemplo, gera aprimoramento, mas também resulta no retrocesso. Deixe-me explicar melhor...o excesso de repetição faz com que façamos melhor, é evidente, mas também nos torna confiantes do que estamos fazendo. Então, automaticamente passamos a fazer com menos cuidado e precisão e, com isso, praticamente voltamos à estaca zero. Não adianta negar. É isso mesmo que ocorre. E é assim em tudo na vida e em qualquer área de atuação. A repetição, em excesso, nos faz cansar, acomodar e executar de qualquer jeito ou, se soar melhor, com menos perfeição. É certo que existem altos e baixos, mas é assim que funciona, genericamente falando.
A audição de 1994 foi postergada para o primeiro trimestre de 1995. Aproveitei para concentrar-me na coreografia e nas apresentações de fim de ano sem deixar a ansiedade tomar conta, como permitira no ano anterior.
Chegou o dia da apresentação. Tudo estava sob controle, quer dizer, tudo estaria sob controle não fosse o teatro lotado, a família mais uma vez presente, incluindo minha mãe, coração batendo a mais de mil por hora, frio na barriga e a tremedeira habitual de todas as apresentações. No final, tudo correu bem. Estava terminado e registrado, nas páginas da minha memória e de minha vida, mais um momento de realização plena.
O ano de 1995 começou e a expectativa de que seria o ano em que o grito de alegria contido na garganta seria emitido em alto e bom som voltou a me rondar. Não que eu pensasse que a audição já estava no papo. Nada disso. O desafio continuava e com as mesmas dificuldades. Apenas as limitações já não eram as mesmas, pelo menos não na mesma escala.
Logo que retomarmos às aulas após as férias de fim de ano, recebi a notificação de que a audição seria realizada em breve. Nos dias subsequentes à informação que tanto esperava, tive um susto. A dona da escola de datilografia e digitação onde eu trabalhava convocou-me para uma reunião para dizer que queria que eu trabalhasse o período integral na escola e o meu salário aumentaria simbolicamente. Isso significava ter de abandonar as aulas de dança. Ouvi tudo o que ela tinha a dizer, mas não dei nenhuma resposta. Pedi um tempo para pensar na proposta.
Fui para a academia naquele dia muito preocupada, nem consegui concentrar-me na aula, nos exercícios, em nada. Eu precisava trabalhar. Isso era fato. E o que me preocupava ainda mais é que, além de precisar do trabalho e, sobretudo, do salário, não teria o apoio da minha mãe, no sentido de incentivar-me a procurar outro emprego de meio expediente. Todos esses pensamentos foram deixando-me apavorada. A única coisa que me vinha à mente era que o destino me tiraria das mãos, mais uma vez, o meu bem mais precioso: o sonho. E faria isso justamente no momento em que sentia-me pronta para vivenciá-lo.
No caminho da escola até a minha casa, que não era curto, fui caminhando e pensando no discurso que faria para convencer a minha mãe de que não era justo comigo. No fundo, imaginava que não adiantaria nada, mas era preciso tentar. Não podia desistir assim tão fácil depois de tudo o que passara.
Decidida a tentar, abri a porta de casa e fui direto à minha mãe. Com firmeza a chamei para conversar e expliquei tudo. Claro que toda a fortaleza se desmanchou assim que terminei de falar e as lágrimas vieram com toda força.
Ao contrário do que pensei, minha mãe conseguiu entender a minha dor e, para minha surpresa, disse: “Nada disso. Você não vai trabalhar o dia todo, para ganhar essa miséria (e era uma miséria mesmo) e, além de tudo, ter de sair da dança”. Ainda sou capaz de lembrar o tom da voz dela e a expressão do rosto ao dizer isso. E não contente completou, com tom de leoa que protege a cria: “Diga à ela que você não ficará nessas condições e que se do jeito que está não atende às necessidades do negócio dela, que lhe demita. A gente procura outro emprego de meio período para você. Fique tranqüila”.
É com muita emoção que tiro essa lembrança do baú da minha memória. Sei bem o que significou essa declaração de minha mãe, sabendo que ela ficou tão ou mais preocupada do que eu. Afinal de contas, eu era uma adolescente com um certo nível de maturidade, que queria dar continuidade ao sonho adiado na infância e início da juventude. Ela, era a mãe e o pai e carregava consigo todas as angústias e preocupações desses dois títulos. O meu salário era pequeno, mas bem ou mal ajudava nas despesas.
No dia seguinte, fiz tudo conforme ela me orientara e a demissão foi oficializada. Fiquei aliviada por saber que não precisaria abandonar a dança, não de imediato, mas também me senti egoísta. Diante de todas essas sensações, resolvi deixar as coisas acontecerem a seu tempo. De qualquer forma, eu procuraria outro emprego e, na pior das hipóteses, se não encontrasse teria de entender e aceitar o que era prioridade.
Semanas mais tarde, a minha irmã mais velha, Alessandra, chegou do trabalho com a notícia de que marcara uma entrevista para o dia seguinte com a dona de uma loja de biquinis e roupas de ginástica que estava precisando de vendedora, meio expediente. A esperança voltou à tona.
Na manhã seguinte, fui para a entrevista cheia de fé. E essa mesma fé provou-me que é capaz de mover montanhas. Eu consegui a vaga na loja, para trabalhar das 9 às 15 horas. Assim, não seria necessário sair da dança. Tudo indicava que aquele era o ano da concretização do meu maior objetivo.
O susto, seguido da mudança de emprego, fez-me esforçar ainda mais para a audição. Era preciso tomar consciência de que era chegada a hora e, principalmente, de que eu estava pronta. Renovada de energias e também de esperanças, no dia da audição, caminhei até a sala de avaliação com segurança. Não vou dizer que não senti medo ou que não fiquei nervosa. Estaria enganando você, leitor, e mais ainda a mim. O nervoso nessas situações é natural, mas o preparo tende a superá-lo. Fiz a audição da melhor forma que eu poderia ter feito. Saí da sala com a sensação de missão cumprida. A partir dali, só restava esperar.
O susto, seguido da mudança de emprego, fez-me esforçar ainda mais para a audição. Era preciso tomar consciência de que era chegada a hora e, principalmente, de que eu estava pronta. Renovada de energias e também de esperanças, no dia da audição, caminhei até a sala de avaliação com segurança. Não vou dizer que não senti medo ou que não fiquei nervosa. Estaria enganando você, leitor, e mais ainda a mim. O nervoso nessas situações é natural, mas o preparo tende a superá-lo. Fiz a audição da melhor forma que eu poderia ter feito. Saí da sala com a sensação de missão cumprida. A partir dali, só restava esperar.
A audição foi realizada no sábado, 25 de março de 1995. Na segunda-feira, cheguei com tranquilidade na academia, fui para o vestiário, aprontei-me para a aula e fui para a recepção conversar com a vó Vilma (como carinhosamente costumávamos chamá-la). Em meio à conversa fiada, percebi que ela estava estranha. Então, perguntei se ela estava bem. Ao que ela prontamente respondeu: “você já viu o resultado?”. Na mesma hora eu travei. Fiquei sem reação por alguns segundos até que consegui esboçar um n ã o praticamente soletrado. Ela apontou para o lado de fora, dizendo que todas as colocações estavam fixadas na parede do corredor. Fiquei absolutamente sem ar. Não sabia se ia até lá ou se preferia ficar ali mesmo.
O meu futuro na dança já estava definido e fixado em uma parede e me faltava coragem para ir conhecê-lo. A vó Vilma percebeu o meu estado de choque e sugeriu que eu fosse ver logo o resultado. Diante do quadro, coloquei meu dedo indicador no primeiro nome e fui descendo até chegar na letra “p”, de Patrícia, e lá estava o meu nome, a única Patrícia aprovada para o grupo Amador I. Não sei descrever em palavras o que senti naquela hora. Não consegui gritar, nem falar, só consegui colocar as mãos sobre os lábios e dar risada. Fiquei um tempo considerável em transe absoluto.
Depois da aula de dança mais leve que já fizera, passei na escola para dar a notícia às minhas amigas, que tanto torciam por mim e, de lá, corri para minha casa para dividir com a minha família. No caminho, decidi que faria expressão de tristeza e decepção quando entrasse em casa, mas logo em seguida percebi que talvez não conseguisse esboçar tristeza, pois não estava cabendo em mim de tanta felicidade. Então, decidi que contaria logo de cara.
Cheguei em casa praticamente demolindo a porta. Minhas irmãs não estavam, mas eu não poderia esperar mais. Corri até onde minha mãe estava, peguei nas mãos dela e sem parar de balançá-las, gritei: “Mãe, você não vai acreditar. Eu consegui! Eu passei no teste! Eu passei!”. Minha mãe, mais orgulhosa do que contente, com os olhos cheios de lágrimas disfarçadas, olhou-me e disse: eu sabia que você ia passar, filha. Eu não te disse que não precisava se preocupar tanto?”.
Aquele resultado eu não devia somente a mim. Eu devia à ela também.
Aquele resultado eu não devia somente a mim. Eu devia à ela também.
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