O gosto da conquista é, sem dúvida, um dos melhores sabores que o paladar humano pode degustar. E foi com esse gostinho doce e agradável que passei os dias subsequentes ao resultado.
Mal conseguira assimilar direito o que aconteceria dali para frente quando as aulas com o grupo Amador I começaram. A única coisa de que estava certa era que, finalmente, eu seria aluna da Gláucia. E isso, por si só, já era assustador. Não que ela fosse ruim. Era apenas exigente e rígida, mas dentro dos padrões de respeito. O receio era originário do excesso de admiração que nutria pelo seu trabalho como bailarina e coreógrafa, assim como pela sua postura e profissionalismo.
Passados alguns meses de permanência no grupo, ela iniciou o processo de criação e montagem da coreografia que seria trabalhada naquele ano. Tudo era mágico, desde a música escolhida, a concepção da coreografia, o figurino, até os movimentos que pareciam ter cores.
O processo de montagem da Gláucia era um pouco diferente das professoras anteriores. Ela criava a sequência de passos para determinada faixa da música e passava para todas as integrantes do grupo. Depois que todas já estavam dominando a sequência, ela selecionava as que fariam aquela parte específica, de acordo com o que ela esperava e havia idealizado. E era esse o procedimento adotado para cada parte coreografada por ela.
Lembro-me que adorávamos esse método, pois a oportunidade era dada para todas. Além disso, sempre existiam as sequências com as quais nos identificávamos mais. Então, ficávamos motivadas a executá-las com bastante expressão e com o máximo de perfeição técnica. É certo que isso acontecia com mais ênfase nas sequências que gostaríamos de fazer oficialmente. Nem sempre essa tática dava certo, mas em geral funcionava bem.
Em paralelo ao período de montagem da coreografia, tiramos as medidas com a costureira para a confecção do figurino, pois já estava prevista a nossa participação num festival de dança em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Como já mencionei anteriormente, a fase da confecção do figurino era bem bacana, exceto quando chegava o momento do pagamento, que em via de regra, sempre ficava uma fortuna. Inclusive, para facilitar e possibilitar que todas pudessem participar, os figurinos eram parcelados em suaves prestações.
Em meados de junho, época em que tudo já estava bem encaminhado para a participação no festival, que seria realizado em agosto, recebi a notícia de que a loja na qual eu trabalhava iria fechar. Quando a ficha caiu e eu percebi o que aquilo significava, entrei em verdadeiro desespero. A minha ida para o Rio e, por consequência, a minha participação no festival estava seriamente comprometida. Embora eu já tivesse pagado a inscrição e parte do figurino, ainda faltava pagar o transporte de ida e volta para o Rio e o resto do figurino. Além disso, também teria de levar um valor em dinheiro para alimentação. Resumindo, sem o emprego não teria de onde tirar o dinheiro.
Mais uma vez me senti na corda bamba. Naquele período eu conheci a verdadeira sensação advinda da expressão entre a cruz e a espada. Eu firmara um compromisso de participar do festival e, no entanto, a situação que se apresentara imprevisivelmente não dava-me outra alternativa a não ser voltar atrás. E recuar, naquele caso, não era tão simples assim.
Tratava-se de uma competição em grupo e cada integrante de um grupo funciona como uma peça. Sendo assim, a turma dependia da minha participação. Não porque a minha presença no palco fosse imprescindível para o desempenho do grupo, mas porque se eu não fosse, ficaria um buraco no palco. O desenho da coreografia é estabelecido a partir das posições de cada bailarino no palco. A minha desistência, em cima da hora, certamente afetaria a coreografia e automaticamente todo o grupo. É evidente que, por se tratar de uma coreógrafa muito experiente, ela conseguiria ajustar boa parte dos posicionamentos, mas com base no risco.
Passei dias levantando todas as possibilidades para não precisar desistir de ir para o Rio, mas a verdade é que eu não tinha opção. E o pior de tudo é que eu não conseguia dizer isso a Gláucia.
Diante daquele cenário, encontrei-me novamente reunindo força e coragem para conversar com a minha mãe sobre o assunto. Até então, só havíamos conversado sobre o fechamento da loja. Finalizada a explanação da situação, ela ficou em silêncio por um momento e pediu-me que não culpasse-me por algo que estava além da minha vontade. E nesse ponto, ela tinha razão. Essas coisas a gente sempre sabe que pode acontecer a qualquer momento, mas não prevê exatamente quando. Portanto, eu não tinha culpa. Ninguém mais do que eu desejara competir naquele festival. Afinal, além de se tratar da minha primeira competição, era também a minha estreia oficial no grupo Amador I.
Saber que eu não era culpada não bastava para aliviar a sensação de impotência que me dominava o íntimo. Era difícil entender o que eu havia feito de tão errado para ser castigada daquela forma. Nada do que eu conquistara na vida, embora fosse bem pouco, fora de forma simples. Sempre envolvera sacrifício. E, na realidade, eu não me queixava disso, justamente por pensar que não há mérito na vitória que não exige uma boa e justa batalha. Nunca negara fogo à luta, mas diante de tantas dificuldades começava a perder as forças.
A minha falta de energia para lidar com mais essa prova acabou transparecendo e minha mãe cortou logo esse clima, dizendo para eu esperar um pouco e parar de sofrer por antecipação.
Em julho, a loja fechou. Para piorar ainda mais a situação, eu não era registrada em carteira e, portanto, não tinha direito a nada além do salário referente ao mês trabalhado e foi exatamente isso que recebi.
Dez dias depois, quando já me encontrava no ápice da preocupação, recebi mais um sinal de que realmente nunca estamos sós e de que Deus, melhor do que ninguém, sabe das nossas dificuldades e nos dá, a Seu tempo, de acordo com o nosso merecimento. Como ia dizendo, dez dias depois do fechamento da loja, recebi a informação de que a minha ex-chefe, Jurema, iria pagar todos os direitos como se eu fosse registrada em carteira.
O montante que recebi possibilitou-me pagar o que faltava do figurino, as passagens de ida e volta, adiantar a mensalidade do mês seguinte, separar uma pequena quantia para levar na viagem e o restante entreguei nas mãos de minha mãe, como de costume, para as despesas da casa.
Alguns anos mais tarde Jurema faleceu. Recebi a notícia com muita tristeza, pois mais uma pessoa de bem partira. Lamentei ainda mais por não ter tido, ou melhor, por não ter criado uma oportunidade para agradecê-la, ainda em vida, por ter colaborado para que o meu sonho permanecesse vivo por mais tempo. Não fiz isso enquanto ela estava entre nós, mas estou certa de que esteja em que esfera estiver ela sabe e sente o meu agradecimento sincero. Assim mesmo, necessito registrar aqui, nessas linhas que são o registro da minha vida, o meu eterno agradecimento.
Os dias que antecederam à viagem foram vibrantes. Era um tal de experimentar o figurino, arrumar aqui, ajustar ali, comprar meia calça, engraxar a botinha que íamos dançar, ensaiar, enfim.
O percurso de São Vicente (SP) até Nova Iguaçu (RJ) foi marcado por muita diversão. No ônibus, as panelinhas logo se formaram. A gente se dava muito bem, em geral, mas é natural que haja uma afinidade mais apurada entre determinadas pessoas. Eu, por exemplo, sentei-me em par com a Gisele porque nos tornamos amigas inseparáveis no ambiente da academia.
O dia começava a apontar no horizonte quando o ônibus estacionou em frente ao Sesc de Nova Iguaçu. Por essa razão, tivemos que ficar esperando no ônibus até que a secretaria do clube abrisse para retirarmos as nossas credenciais e o endereço da escola onde ficaríamos alojados. Demorou bastante tempo para que toda a parte burocrática fosse resolvida, mas no final deu tudo certo e seguimos para o alojamento.
O Sesc não era muito bem localizado. A nossa sorte foi que a escola ficava a apenas duas quadras do clube, o que facilitou bastante a nossa vida. O sufoco começou de verdade quando notamos o estado em que a escola se encontrava. O chão repleto de areia, o teto cheio de teias de aranha, as paredes sujas e o cheiro forte de mofo indicavam que escola estava desativada há tempos.
Desativada ou não, abandonada ou não, estávamos ali e iríamos ficar exatamente naquele lugar nos próximos três dias. Portanto, arregaçamos as mangas e entramos na dança. Desta vez, na dança da faxina pesada. Ninguém escapou. Todos, inclusive as meninas do grupo Infantil, colocaram a mão na massa.
Foi um mutirão literalmente integrado. Assim que terminamos a faxina, iniciamos a organização das malas e colchonetes. Para facilitar a divisão de pessoal, cada grupo de dança ficou alojado em um quarto, ou melhor, em uma sala de aula.
Terminado o momento da limpeza, estávamos todos, sem exceção, suados, sujos e cansados. A Glaucia, percebendo a oportunidade de emendar as atividades sem intervalo, não perdeu tempo e nos convocou para o ensaio no palco do teatro. Como tudo ali era motivo de festa, lá fomos nós sem reclamar.
O ensaio transcorreu durante o resto da manhã até o início da tarde. Nunca ouvi tantas vezes a contagem 1, 2, 3 e 4, 5, 6, 7 e 8 (faça a contagem com ritmo), ou o famoso “e 7 e 8”, que antecede o início da marcação. Após o ensaio, uma funcionária do Sesc nos apresentou as demais instalações do clube, que era enorme. A cada trecho percorrido, identificávamos bailarinos de tudo quanto era lugar. No nosso alojamento também estavam grupos de Paulínea (SP) e de Santos (SP).
Outro detalhe importante é que tínhamos que tomar banho no Sesc, pois na escola não tinha chuveiro e mesmo que tivesse as condições sanitárias não permitiriam. Mas o problema nem era tomar banho no vestiário do Sesc. O problema era que os chuveiros de lá não esquentavam e os banhos eram gelados e, portanto, bem rápidos.
A nossa participação foi já na primeira noite do festival, ou seja, no mesmo dia da chegada praticamente de madrugada, da faxina e do ensaio. Depois do banho gelado, voltamos ao alojamento para iniciarmos o processo de preparação para o espetáculo. Foi uma verdadeira loucura. Eram mais de 30 rostos para maquear e praticamente esse mesmo número de cabelos para pentear. O penteado do meu grupo, em especial, dava muito trabalho. Era um coque em formato de rosa no centro da cabeça, com trancinhas na região da nuca.
Para agilizarmos a produção e não corrermos o risco de não ficarmos prontas a tempo da apresentação, fizemos uma fila indiana, na qual uma ia fazendo trancinhas na outra. Isso, sim, pode-se chamar de espírito de coletividade.
Uma vez penteados e maquiados, fomos para o camarim do Sesc para terminarmos de nos aprontar. Todo o ritual de aquecimento e concentração coletiva e individual se cumpriu e nada de chegar a nossa hora de ocupar o palco.
A ansiedade começou a tomar conta e sem que a Gláucia percebesse, eu e mais duas garotas do grupo fomos espiar o teatro através da coxia. Sinceramente, até hoje não entendi porque fiz essa bobagem. O teatro estava abarrotado de gente e entramos em estado de pânico.
Finalmente, depois de uma longa espera chegou a nossa vez de dançar. Foi difícil controlar o turbilhão de sensações e pensamentos. Era a primeira vez que dançava pelo Amador I, era a primeira vez que competia, era a primeira vez que viajava para dançar e, ao mesmo tempo, eu sabia que poderia ser a última.
Nos posicionamos no palco ainda ao som dos burburinhos da plateia. Em questão de segundos veio o silêncio, anunciando a expectativa daqueles que estavam sentados de frente para o palco. As luzes foram acesas e bem mais que iluminar, elas aqueceram o palco. Então, imediatamente a emoção roubou-me o ar. A música inundou cada centímetro daquele ambiente, dando início ao espetáculo e à magia de estar sobre o palco.
Não sabíamos exatamente onde, mas as meninas do grupo infantil estavam nos assistindo e fazendo torcida. Em cena, no primeiro contato visual que tive com o público, quase me desconcentrei. Do palco, eu conseguia ver nitidamente as pessoas da plateia e suas expressões e não estava habituada com isso. Nos palcos da Baixada Santista não conseguia ver o público, pois a área destinada à plateia fica absolutamente escura.
Impressionada, levei algum tempo para acostumar com a ideia. A emoção tomou uma proporção ainda maior quando percebi o quanto era bom poder olhar para pessoas e conseguir enxergar a reação delas enquanto dançava.
O melhor de tudo ainda estava por ser notado. Como o palco era baixo e o teatro estava lotado, muita gente sentou no chão e apoiou os braços na borda do palco. Isso mesmo! As pessoas assistiam aos espetáculos praticamente aos nossos pés. Esse contato tão próximo com o público também era novo pra mim.
A coreografia terminou e a minha vontade era continuar ali, sentindo aquela energia. Posso garantir que aquela foi a minha melhor apresentação, em todos os sentidos. Nunca, nem antes nem depois, senti algo similar ao que sentira naquele lugar. Eu percebera o real contraste entre a força e a leveza. Era como se os dedos das minhas mãos formassem desenhos no ar, à medida que eu executava os movimentos, ou como rabiscasse no chão, a cada deslizamento, linhas e imagens indefinidas com a ponta dos dedos dos pés. Era entrega. De fato, enquanto dançava, eu entregava o meu corpo a serviço dos movimentos.
Com o término dos aplausos, demos a volta no teatro, correndo, para assistirmos ao grupo Amador II, que se apresentou depois de nós. Do mesmo jeito que saímos de cena entramos na platéea, com figurino, maquiagem, penteado e bota. Foi uma correria só, mas conseguimos chegar em tempo de ver o início da apresentação e torcer. A diretora da academia e nossa coreógrafa, Gláucia, também dançava no Amador II. A apresentação deles foi um verdadeiro show.
No dia seguinte, tiramos o dia para curtir o clube. O famoso descanso dos justos. Substituímos as sapatilhas por chinelos e o colant por biquini. Muito sol, piscina, fotos e boas risadas. Ao longo do dia, conhecemos várias pessoas de outros grupos que se aproximavam para nos cumprimentar pela apresentação da noite anterior.
No final da tarde, tomamos banho no Sesc e fomos para o alojamento descansar um pouco antes de voltarmos ao clube para acompanharmos as apresentações daquela noite. Embora estivéssemos todos cansados, ninguém queria saber de deitar ou dormir. A farra era geral. Ocupamos o corredor do andar em que estávamos “hospedados”, ligamos o som e formamos um círculo. Não demorou muito e lá estávamos nós, dançando. Cada um com o seu jeito, temperamento, personalidade e classe social, mas todos unidos por uma paixão em comum: a dança.
Assim que despertamos, na manhã seguinte, demos um pulo no Sesc apenas para passear e ficamos por lá até o horário de almoço. Lanchamos e quando já estávamos nos dirigindo à saída do clube, sem querer, vimos o resultado do festival fixado num mural. Infelizmente, nenhum dos nossos grupos pegou as três primeiras colocações, mas ganhamos o prêmio de grupo revelação do festival. Ficamos contentes, mas não sabíamos direito o que representava esse título. De qualquer forma, no caminho de volta ao alojamento, o clima entre nós era de pura euforia.
Esse clima foi quebrado assim que chegamos na escola, pois por lá o clima não era dos melhores. Ninguém conversou sobre o assunto e até hoje eu não sei bem o que houve, mas a impressão que ficou foi a de que o grupo Amador II ficou desapontado com o resultado, pois os bailarinos tinham feito uma belíssima apresentação e tinham tudo para pegar uma boa colocação.
Como recebemos o prêmio de Grupo Revelação, iríamos nos apresentar novamente no último dia do festival. Sem maiores detalhamentos, recebemos a recomendação de que deveríamos nos aprontar para nossa reapresentação, logo mais à noite.
Encerrada a apresentação, voltamos todos para a escola para reunirmos toda a bagagem, entrarmos no ônibus e regressarmos para São Vicente/SP. O clima continuava pesado. Ninguém falava nada além do necessário.
Por conta deste clima estranho, no retorno às aulas, algumas integrantes do Amador I comunicaram que estavam saindo da academia e do grupo. Foi muito triste presenciar sonhos se desfazendo por um insignificante conflito de egos. Muita coisa mudou a partir da nossa volta do Rio. Nada voltou a ser como antes.
Ao contrário das meninas que decidiram sair, eu continuei na academia e no grupo. Batalhara demais para chegar até ali e não abriria mão daquilo se não fosse por uma razão bem maior do que querer ser primeiro, segundo ou terceiro lugares. Eu já detectara que, para mim, o importante era dançar.
A razão que me fez permanecer era também a necessidade de aproveitar os últimos momentos que me restavam. Afinal, eu sabia que a minha saída do grupo era apenas uma questão de tempo e o que eu mais queria era prolongar esse tempo o máximo possível.
A montagem das coreografias para o final do ano veio pouco tempo depois do nosso regresso. Além da coreografia que apresentamos em Nova Iguaçu, o grupo Amador I também participaria de uma apresentação de balé clássico.
Sem desmerecer as demais coreografias, o momento mais esperado por mim e por parte das demais bailarinas do grupo, principalmente as novas como eu, era o da coreografia que unia os grupos Amador I e II. Imaginar-me dividindo o palco com as minhas antigas professoras e também com a diretora dos grupos, era algo que transcendia à realidade.
Cada dia terminado sem que eu tivesse que sair da academia já era uma verdadeira vitória, pois eu já percebera que financeiramente eu não conseguiria permanecer por muito mais tempo. As coisas já estavam apertadas em casa e a dança me trazia alguns custos mensais fixos, além dos adicionais de final de ano.
No início de novembro, recebi uma proposta de emprego, para ser vendedora em uma loja de bolsas e acessórios. Esta seria uma ótima notícia se o expediente não fosse de período integral, incluindo sábados. A reação de alívio da minha mãe quando recebeu a notícia já me indicou que não teria jeito. Era chegada a hora de abrir mão de tudo o que me fazia mais feliz e realizada.
As dificuldades financeiras em casa não me deixaram outra alternativa que não fosse aceitar o proposta de emprego, embora me fizesse morrer um pouco. Comecei a trabalhar de imediato, das 10 às 19 horas, com duas horas de almoço, de segunda a sexta-feira, e das 10 às 22 horas, aos sábados e, quando necessário, domingo também. Com esses horários, era impossível continuar dançando.
Passara uma semana desde que começara a trabalhar e eu nem conseguira ir até a academia avisar que não poderia mais frequentar as aulas, pois saía direto do trabalho para a escola. Além da falta de tempo, faltava também a coragem para assumir pra mim e para a Gláucia que eu estava largando e renunciando a tudo aquilo que havia alcançado com tanto esforço, empenho e determinação.
Mesmo sem imaginar como seria a reação dela, criei coragem para encarar a situação de frente e fui até a academia com o objetivo de conversar com a bailarina na qual eu me espelhava todos os dias, a pessoa que soube me dizer SIM e NÃO nas horas certas, a profissional que acreditou no meu potencial e me preparou para o lugar que eu havia conquistado: a Gláucia. Eu mal conseguia falar. Eu chorava. Ela chorou. Ela não conseguia acreditar que eu estava largando tudo depois de tanta entrega e dedicação, mas eu não tinha escolha. Aquele dia entrou na lista dos dias mais tristes e difíceis da minha vida.
Precisei dizer adeus sem querer partir. Antes de deixar a academia, fui até o vestiário, passei pela recepção, entrei nas salas de aula, encostei nas barras em posição, me olhei no espelho, fui até a janela e de lá avistei o pátio da escola na qual eu estudava e de onde eu ficava olhando para as bailarinas e sonhando em um dia ser como elas. Ali, debruçada na janela, eu me dei conta de que não havia chegado a ser como elas, havia apenas sido uma delas.
Só me restava voltar àquele ponto do sonho em que eu ficava no pátio da escola, nos intervalos das aulas, dançando com os olhos. Mas não seria mais o mesmo sonho.
Nunca fora tão difícil trabalhar. Eu sempre gostara de sentir-me útil e de aprender, mas os empregos anteriores haviam me proporcionado conquistas. Já aquele não. Ao contrário, me tirara o que de mais precioso eu tinha. É até pecado dizer algo assim, afinal, um trabalho digno é o que todos pedem, mas eu estava amargurada demais para perceber e agradecer.
Nessas fases de dificuldade e de sacrifício, eu sempre me perguntava onde estava o meu pai, pois boa parte dessas dificuldades era resultado da falta de responsabilidade dele como pai. A grande verdade é que ele não era presente nem nas horas boas e muito menos nas ruins. Ele simplesmente nunca estava próximo de nós.
Saber que eu não voltaria a pisar num palco me torturava a alma. Eu sofria minuto a minuto a ausência da dança e o vazio resultante dessa ausência. Chorar passou a ser algo bastante frequente. Chorava escondido, em silêncio, e quando as lágrimas secaram, passei a chorar por dentro.
Uma semana depois de comunicar à Gláucia a minha saída, ela me ligou pedindo que eu me apresentasse no final de novembro com o grupo pela última vez, até para não deixá-la na mão. Aquele convite inundou meu coração de alegria e esperança, mas logo a realidade veio à tona. Como iria dançar se os meus horários não permitiam isso?
Não era possível, eu sabia. Não havia completado nem um mês no novo emprego. Como poderia pedir para sair mais cedo no dia da apresentação? Fiquei fazendo-me essa pergunta o dia inteiro. E mais forte do que o senso de responsabilidade, foi a necessidade de me despedir da dança e do palco.
Aproveitei que o movimento estava fraco na loja e durante uma conversa informal com a minha chefe na época, Thereza, contei a minha história e falei sobre a possibilidade de dançar pela última vez. Imediatamente, ela perguntou quando seria e me autorizou a sair um pouco mais cedo na data.
O dia da apresentação chegou. Eu não ensaiava a coreografia desde que começara a trabalhar, mas assim mesmo encarei o desafio. Cheguei no Sesc/Santos pouco tempo antes da apresentação, com tempo suficiente para me aprontar apenas. Logo que fiquei pronta, as meninas do grupo começaram a me passar algumas mudanças na coreografia e isso deixou-me apavorada. Havia mudanças.
Subi ao palco com a responsabilidade única de me realizar plenamente. Decidira que iria dançar apenas para mim, pois naquele dia, naquele palco, com aquela coreografia, eu iria me despedir da dança, do palco e da bailarina que me tornara.
Com as mudanças na coreografia foi inevitável que o erro viesse. E ele veio. Já era difícil lidar com os erros nas aulas, nos ensaios, nas apresentações, imagine aceitá-lo naquela que seria a minha última vez. Saí do palco arrasada, frustrada e chorando. Não podia errar, não naquele dia.
De volta ao camarim, juntei minhas coisas, tirei a maquiagem, desmontei o cabelo, troquei de roupa e registrei cada detalhe daquele lugar mágico. Ainda chorando e com o coração em pedaços, abracei e beijei todos e segui em direção à saída sem olhar para trás.
Daquele momento em diante, não houve uma única noite em que eu adormecesse ou uma sequer manhã em que eu despertasse sem pedir forças e entendimento para encarar essa renúncia sem revolta ou amargura.
Saí de cena desejando voltar...um dia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário