A vida é realmente curiosa e imprevisível. Às vezes, um simples desvio de rota, opcional ou por imposição, nos conduz a caminhos inimagináveis. Caminhos positivos ou negativos, de êxito ou fracasso, curtos ou longos, retos ou repletos de curvas e declínios, tranquilos ou perigosos, desejados ou inesperados.
No dia em que abandonei a dança, por força maior, pensei que nada mais teria graça em minha vida. É estranho, mas eu não conseguia enxergar a situação sob a perspectiva de que eu havia vivido o meu sonho, ainda que por tempo determinado.
Existem milhares de pessoas em todo o mundo que vivem uma vida inteira apenas sonhando, esperando e tentando. Ao contrário de perceber isso, eu não conseguia definir se realizar o meu maior desejo por um curto espaço de tempo era melhor do que nunca chegar a saber o que era ser uma bailarina. Foi uma fase cruel, pois a sensação era a de que haviam tirado o doce da minha boca depois de já ter provado do gosto.
Com a seqüência dos dias e meses, fui me conformando com a realidade e percebendo que a vida nos apresenta várias possibilidades, mesmo quando tudo nos faz acreditar que só há um caminho a seguir. Dia após dia, temos a nossa disposição uma infinidade de caminhos para escolher e cada um deles nos leva a milhares de outros caminhos. Pode parecer mentira, mas há casos em que todos eles, independente da trajetória, levam a um único destino.
Mesmo na ocasião em que abri mão do meu objetivo, quando não vi outra opção a não ser recuar, na verdade existia outra opção. Ela estava lá. Só que era a mais egoísta, pois eu teria de enfrentar a minha família e, além disso, submeter a minha mãe e minhas irmãs ao sacrifício e dificuldades financeiras por conta do meu sonho, que era só meu. E foi por todas essas razões que eu escolhi o caminho mais coerente e menos prejudicial a todos.
Trabalhei naquele mesmo emprego, que trouxe um pouco de alívio nas finanças e total desespero ao meu coração, por praticamente dois anos. Saí de lá porque recebi uma proposta para trabalhar num escritório de uma rede de lojas de calçados. Passei a trabalhar em horário comercial, de segunda a sexta-feira, e aos sábados, das 9 às 13 horas.
Nessa época, eu estava terminando o 4º ano do Magistério (antigo colegial e atual Ensino Médio). O curso técnico em Magistério formava professores de 1ª a 4º série. Quando estava próxima a conclusão do colegial, uma de minhas tias, Vera, incentivou-me a prestar vestibular, mas como eu sabia que não teria condições de assumir os custos de um curso universitário, nem levei a sério.
Ela, por sua vez, não se deu por vencida e insistiu para que eu prestasse. Com isso, logo tratei de inventar inúmeros motivos para nem tentar. Eu não queria e nem precisava de mais uma frustração. Um dos motivos que destaquei foi o fato de ter estudado a vida inteira em escola pública estadual, cuja qualidade de ensino era e, inclusive, continua sendo insuficiente. Esse argumento também não foi o bastante para convencê-la de que eu não deveria arriscar.
Ela pagou a minha inscrição no vestibular. Eu só precisei destinar um pouco de tempo para definir qual era a área de meu interesse e preencher a ficha de inscrição. Como não tinha faculdade de dança em Santos e a outra coisa que eu gostava muito de fazer era ler e escrever, optei pelo Jornalismo.
Fiz a prova e, como já era esperado, não passei na primeira chamada. Fiquei na fila de espera e consegui entrar na segunda chamada, mas conseguir entrar não adiantava nada se faltava o dinheiro para pagar. Então, essa minha tia e minha irmã mais velha, Alessandra, mobilizaram parte da família para que eu pudesse estudar. Todas as pessoas acionadas aderiram: tia Vera, tia Nena, Rita, Rosane, Maria Rita e a Alessandra. Cada uma delas, todos os meses durante quatro anos, dava uma quantia para completar o valor integral da mensalidade. O depósito era feito diretamente na minha conta nas vésperas do vencimento da parcela.
As contribuições não pararam por aí. Para que eu pudesse fazer as pesquisas e trabalhos da faculdade, minha mãe me presenteou com um computador, que ela precisou comprar em inúmeras prestações, pois naquela época o valor de um computador era absurdo.
Além de todas essas pessoas que me ajudaram financeiramente, outras tantas me apoiaram de outras formas. Serei eternamente grata a todos aqueles que me ajudaram, direta ou indiretamente, durante essa jornada em direção à minha formação acadêmica.
É incrível como o mundo realmente é redondo. No primeiro dia de aula na faculdade, reencontrei uma das minhas colegas da academia, a Daniela. Ela também ingressara no curso de Jornalismo e estava na minha turma. O nosso reencontro foi regado à lembranças daquela fase de encantamento. Ela contou-me que pouco tempo depois que saí do grupo ela também saiu, assim como outras integrantes.
A lacuna que existia em nossas vidas, causada pela ausência da dança, nos aproximava cada vez mais a cada dia. As disciplinas do curso de jornalismo, assim como determinados trabalhos, nos permitiam usar a criatividade, dentro dos temas propostos, é claro. Eu e a Daniela, sempre que possível, encaixávamos a dança nos trabalhos. Chegamos a nos apresentar algumas vezes na própria sala de aula. Era a nossa forma de matar um pouco a saudade.
Eu era persistente e insistente. Era não, continuo sendo até os dias atuais. Para se ter iidea, no último ano da faculdade, eu consegui convencer a minha parceira do jornal “Entrevista” (jornal laboratorial elaborado pelos alunos do 4º ano de Jornalismo), a Thaís, a fazer a matéria da nossa página do jornal sobre dança. Eu tanto insisti que ela acabou comprando a idea. Os textos e as fotos ficaram super bacanas e nós ganhamos a primeira página do Caderno 2 do jornal – página com fotos coloridas.
Na universidade, eu descobri que era capaz de encontrar outras atividades com as quais eu me identificava. Só me dei conta disso, quando o Jornalismo passou a fazer parte das coisas pelas quais eu tenho paixão. Ao contrário do que eu pensara no passado, eu podia ter várias paixões, mas ainda assim, em uma coisa eu estava certa. Nenhuma paixão é capaz de substituir ou preencher o espaço de outra. Cada qual tem o seu valor dentro de nós.
Ainda no derradeiro ano da faculdade, surgiu a oportunidade de estagiar na área de Comunicação Social de uma empresa siderúrgica, situada em Cubatão (SP). Naquela ocasião, eu já estava trabalhando na área de Recursos Humanos dessa siderúrgica, mas numa empresa contratada. Para estagiar na empresa, eu tinha que me desligar da contratada. O único dilema era que como eu já estava cursando o último ano da faculdade o estágio seria de apenas seis meses e sem garantia de contratação. Se eu aceitasse, seria por conta e risco. Diante do impasse, resolvi não pensar muito e agarrei a chance com unhas e dentes.
A escolha, “imposta” pela vida, de deixar a dança para trabalhar abriu-me o caminho para chegar às portas da faculdade. Talvez, se tivesse continuado a dançar não teria vislumbrado outras possibilidades para a minha vida a longo prazo.
Hoje, tenho plena convicção de que todas as nossas escolhas, desde as mais simples até as mais complexas, definem o caminho que vamos percorrer. A decisão de aposentar as sapatilhas me formou jornalista.
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