quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Capítulo 10 - Do Jornalismo à Dança


            Deixei a dança no final de 1995. Ingressei na faculdade no início de 1997 e me formei no final do ano 2000. O período de estágio na siderúrgica realmente foi curto, mas graças ao meu grau de dedicação e profissionalismo consegui destacar-me mesmo neste breve espaço de tempo e continuei na empresa, nem como estagiária, nem como funcionária, mas com contrato temporário de trabalho, pois na ocasião não havia vaga. 
            Em abril de 2001, a vaga foi criada e fui efetivada no quadro da Comunicação Social da empresa. Foi com uma alegria sem tamanho que recebi a notícia. Finalmente, começara a colher os frutos das minhas escolhas e atitudes.
            No ano seguinte, o setor de Responsabilidade Social da empresa abriu inscrições para os funcionários que quisessem prestar serviços voluntários à comunidade, dentro ou fora dos projetos sociais da empresa. Aquela  informação, publicada no boletim institucional da empresa, fez com que eu vislumbrasse a possibilidade de atuar profissionalmente na minha área de formação: Jornalismo; prestar serviços à comunidade; e voltar a ter contato com o que me fazia sentir viva: a dança. Tudo isso ao mesmo tempo.
            Foi entre aquelas palavras e linhas impressas que eu enxerguei a chance de retomar o que havia sido interrompido. E foi também sem pensar direito, num verdadeiro impulso, que preenchi a ficha de inscrição, assinalando as opções “dança” e “aulas de reforço”, e enviei aos cuidados da pessoa indicada. A ansiedade já estava controlada quando recebi um e-mail interno, convocando-me para uma entrevista vocacional.
            Só tomei consciência do que havia feito e, principalmente, do desdobramento da minha iniciativa quando meus olhos leram até a última palavra do e-mail e o meu cérebro assimilou toda a mensagem contida naquele texto. Precisei ler umas três vezes para acreditar no que estava diante dos meus olhos. A sensação era de estar vivendo um sonho. O sonho de poder voltar a dançar e, com isso, sentir novamente a pulsação acelerada, o coração aos pulos, a adrenalina circular pelo sangue, o suor escorrer pelo corpo como se fosse a minha própria alma saindo pelos poros, de alma literalmente lavada.     
            No dia, horário e local marcados, lá estava eu. A entrevista, na verdade, não passou de um papo informal sobre habilidades, gostos, preferências, didática, expectativas, objetivos e metas. Ao final da conversa, a coordenadora pedagógica olhou bem nos meus olhos e disse, em outras palavras, o seguinte: “esquece as aulas de reforço, o  seu negócio é a dança”. 
            Saí de lá conversando comigo mesma, o que costumo fazer sempre e muitas vezes até em voz alta. Só então percebi o tamanho e o peso da responsabilidade que havia assumido. Imediatamente, a insegurança bateu à porta da consciência. Nada além do que o reencontro com a realidade. Eu sabia dançar, mas nunca havia ensinado ninguém a fazê-lo, que dirá crianças. Não bastasse isso, havia outro detalhe, não dançava há anos. A flexibilidade adquirida na época certamente já havia se extinguido e a técnica provavelmente também não seria a mesma. Era tarde para reconhecer isso. Era hora de planejar e realizar.
            Comecei a minha preparação com aulas de alongamento, na academia que fica dentro da usina siderúrgica. Depois, pedi ao gerente da academia um horário livre da sala de ginástica, após o expediente, para que eu pudesse praticar um pouco e, diante da justificativa, ele autorizou de imediato.
No começo, foi frustrante perceber o estrago que o tempo causa na gente e, sobretudo, no corpo da gente. Mesmo com o passar dos anos, o meu peso continuava praticamente o mesmo e eu sempre fui magra, mas só admiti que estar magra não significa estar em forma quando me deparei com as dificuldades para recuperar um pouco da agilidade de antes. Com algumas semanas de prática, exercícios, alongamento e insistência, os tendões do corpo começaram ceder um pouco.  
O próximo passo era definir a quantidade de vagas e a faixa etária das crianças para as quais eu daria aulas. Missão difícil. Por se tratar de uma experiência absolutamente nova para mim, experimentalmente, limitei em 20 vagas, com crianças entre 7 e 12 anos. Depois, conversando com a coordenadora pedagógica, consideramos melhor dividir em duas turmas de 20, sendo uma de 7 a 10 anos e a outra de 11 a 14 anos. Inicialmente, as aulas aconteceriam duas vezes por semana, das 18 às 19h30, e das 19h30 às 21 horas, em uma escola municipal de Cubatão.
Dias antes de iniciar as aulas práticas, estive na escola para conversar com a diretora sobre como iria trabalhar e também relacionar as necessidades técnicas para a realização das aulas. A visita foi importante para detectar que as condições técnicas que teria à disposição se limitariam a uma sala de aula pequena, sem espelho, sem barra, com cadeiras e mesas que deveriam ser retiradas e recolocadas a cada início e término de aula e um aparelho de som portátil. Os desafios iam se apresentando a cada etapa do processo.
Na manhã do dia em que dei a primeira aula, saí de casa com os acessórios de dança nas costas. Enquanto colocava as sapatilhas aposentadas, o colant, a calça bailarina e uma toalha na mochila, me senti como a adolescente do passado, confesso. Mas o tempo é implacável. Ele passara com urgência e eu já não era mais aquela adolescente sonhadora e, naquele momento, mais do que em qualquer outro, era a hora de despertar para essa realidade.
Em frente à escola, minutos antes do horário das aulas, parei por um instante e roubei todo o ar que meus pulmões puderam comportar. O universo que encontraria ao cruzar o portão de entrada me era desconhecido e essa sensação causou-me certo pavor. Sem ter como ou para onde fugir, segui em frente e entrei.
Em questão de minutos deixei de ser a profissional jornalista que acabara de entrar na escola, para tornar-me a professora de dança. Apresentei-me na direção da escola e, na sequência, fui encaminhada para a sala onde as aulas aconteceriam. As 20 crianças da primeira turma já me esperavam com os olhinhos brilhando de tanta ansiedade. Elas não me conheciam e tampouco eu a elas.
Como já disse, a turma era composta por 20 crianças. Todas meninas. Elas olhavam-me num misto de timidez e curiosidade. Para quebrar o gelo inicial, conversei, falei um pouco de mim, expliquei de onde vinha e porque estava ali. Fiz também algumas perguntas para conhecer um pouco sobre elas.
Depois de certo tempo de diálogo, senti que já podia iniciar a aula com alguns movimentos simples de alongamento e coordenação motora. Pelas fichas de inscrição, eu já havia identificado que nenhuma delas tivera contato com o jazz ou balé, mas não imaginava que não faziam ideia do que se tratava.
A constatação veio com a pergunta de uma delas, que deu abertura para outra e outras mais. A primeira delas foi: a senhora vai dar aula de lambaeróbica? Surpresa com a pergunta inesperada,  respondi que não, que seriam aulas de jazz e balé. E, então, veio a segunda pergunta: o que é jazz? E assim por diante. Tais questionamentos me entristeceram um pouco, pois ficou claro que a procura pelas inscrições foi grande porque elas esperavam por aulas de lambaeróbica. Portanto, fiquei com o triste papel de frustrá-las.
No começo, precisei usar algumas estratégias para garantir o interesse pelas aulas. Para isso, busquei alternativas para atender a vontade delas e também não sair do cronograma e propostas das aulas. Então, nas primeiras aulas, propus uma música de lambaeróbica para encerrar a aula, com a condição de que elas é que me ensinariam a coreografia. Aí pronto. Bastou isso para eu ganhar popularidade entre elas.
Com a turma das adolescentes não foi diferente. Tive que adotar praticamente o mesmo método, mas com outra linguagem. As adolescentes eram sempre mais resistentes a tudo.
O que mais me surpreendeu é que com essa “combinação” eu ganhei espaço para trabalhar de forma atrativa os conceitos teóricos e práticos sobre o balé e o jazz e elas aderiram ao processo de conhecimento naturalmente e sem restrições.
Com o passar de algumas aulas, eu já não precisava colocar a música de lambaeróbica e elas também não pediam. Ao contrário, elas não queriam que a aula terminasse. Sempre pediam mais um pouco e isso acontecia com ambas as turmas.  
As aulas seguiam num ritmo muito bom, quando surgiu a primeira oportunidade de apresentação das turmas, mas o tempo entre o convite e a apresentação não seria suficiente para montar duas coreografias e confeccionar dois figurinos. Então, apenas uma das turmas participaria neste primeiro momento. A turma das mais novas.
O convite partiu da direção da escola. Elas apresentariam um número de dança durante a Festa do Folclore, realizada anualmente na escola, sempre no mês de agosto. O tema daquele ano era “Lendas e Mitos do Folclore Brasileiro”.
Antes de iniciar o processo de criação, escolha de música e montagem, pesquisei sobre o tema, levantei as possibilidades e defini que trabalharíamos com a lenda do Boto Rosa. Essa foi a primeira coreografia que desenvolvi e, por esta razão, tem um espaço especial reservado em minha memória e coração.
As coreografias que se seguiram, foram nove ao todo, passaram pelo mesmo ritual. Nem todas obedeciam a um tema pré-estabelecido, mas independente disso, a fase de criação era sempre iniciada por pesquisa, seleção de músicas e somente a partir dessas concepções iniciais eu começava a coreografar.
O primeiro convite para elas se apresentarem na empresa, dentro de um evento de Responsabilidade Social, surgiu a partir do resultado da apresentação na Festa do Folclore. Fiquei aliviada e contente com o convite, pois era um sinal de que o trabalho que estava desenvolvendo estava atendendo as expectativas. O convite era também mais uma oportunidade para elas se apresentarem.
Não perdi tempo, pois não havia muito tempo. Estávamos no final de agosto e o evento seria realizado no final de outubro. Tudo o que eu tinha eram dois meses, duas coreografias para montar e ensaiar, sendo uma para cada turma, dois figurinos para conceber e confeccionar e uma boa dose de fé e determinação. Ainda bem, pois eu iria precisar mesmo, afinal, tratava-se de uma missão praticamente impossível, em se tratando de alunas iniciantes.
Assim que confirmei a nossa participação, comuniquei as turmas e iniciei a montagem dos números que elas apresentariam na empresa. A ideia já estava concebida na minha cabeça e as músicas já estavam escolhidas e isso contribuiu para que tudo fluísse mais rapidamente.
O próximo desafio a superar não tardou a surgir. A ideia de dançarem na siderúrgica fez com que elas se sentissem inseguras. Dançar na escola não causava nelas nenhum estranhamento. Lá, era o universo delas. Dançar na empresa era outra história. Uma história que elas não conheciam e que, portanto, causava medo. Para diminuir um pouco a insegurança natural, resolvi que dançaria com elas. Quando elas perceberam isso, fizeram uma festa. Hoje, passada a experiência,  posso dizer que com essa decisão eu decretei a minha insanidade.  
Montar, sozinha, duas coreografias para iniciantes, em apenas dois meses, e ainda participar delas é uma verdadeira loucura, mas só notei isso quando vivi essa experiência na prática.
Eu montava parte por parte, passava inúmeras vezes para elas sem a música, depois com a música, ensaiava um pouco e depois só assistia, para poder corrigir e limpar os movimentos. Foi difícil conciliar a necessidade de acompanhar a performance e evolução das turmas e, consequentemente, das coreografias e ao mesmo tempo precisar ensaiar com elas.
Para concluir o desafio a que me submeti, precisei aumentar o número de aulas por semana e incluir ensaios aos sábados também. Não sei ao certo como minha mente e o meu corpo conseguiram suportar a carga pesada de preocupações e exercícios físicos.
Cá para nós, o corpo não segurou muito a onda. Estávamos a algumas semanas da apresentação e as coreografias já estavam prontas. O ritmo de ensaios era intenso. Por repetir inúmeras vezes os movimentos das duas coreografias como forma de demonstração para elas, afim de corrigir a execução, e por participar das duas coreografias e ter de ensaiá-las também, meu pé esquerdo começou a doer. De certo, a dor era originária de algum mau jeito não percebido enquanto o corpo estava quente. O simples tocar do pé no chão causava-me dor. Então, veio a preocupação.
Os dias passavam, mas a dor permanecia. Passei a massagear o pé com pomadas e cremes apropriados, mas nada surtia resultado. Já não ensaiava nenhuma das coreografias há uma semana em virtude da dor, quando minhas alunas entregaram-me várias cartinhas repletas de desenhos e letras coloridas, desejando a minha melhora. Os ensaios frequentes haviam nos aproximado muito nos últimos meses. Eu já conhecia a história de cada uma delas. E meu carinho e afeto por elas e o delas por mim ia crescendo cada vez mais, involuntariamente.
Um dia, às vésperas da apresentação, entrei na sala de aula e elas já tinham retirado todas as mesas e cadeiras e estavam me aguardando prontinhas para o ensaio. A primeira pergunta que fizeram foi se o meu pé havia melhorado e apenas com um aceno de cabeça, informei que não. Dei as costas para elas por um momento e quando percebi já estava dentro de um círculo formado por elas, de mãos dadas. Foi só quando iniciaram uma oração que percebi que tratava-se de uma espécie de corrente de proteção. Ao final da oração, elas disseram que combinaram de rezar naquela noite para pedir que o meu pé melhorasse. Essa é uma das lembranças mais bonitas e inocentes que guardo dessa época de voluntariado.
Por incrível que possa parecer, a força da fé daquelas pequenas grandes meninas tornou possível o pedido. No dia seguinte, amanheci sem dor e pronta para os ensaios.
O vínculo emocional entre nós, sem dúvida, já estava estabelecido. Era irreversível. Durante as aulas, eu conseguia identificar nos olhos e comportamento de cada uma delas se havia algo errado. Com o tempo, fui percebendo que as minhas aulas ultrapassavam a esfera da dança como arte e forma de expressão. Além de dança, passei a reforçar conceitos de cidadania, fomentar o espírito de união e equipe, despertá-las para o valor da amizade, do respeito, explicava também, de forma contundente, a importância da disciplina em tudo o que nos propomos a fazer, inclusive na dança.
Embora gostasse demais daquelas crianças, aprendi a ser firme e muitas vezes até rude com elas. Hoje, posso dizer com convicção que foi à base de muito carinho, atenção, assim como, uma boa dose de gritos e broncas que elas aprenderam uma série de lições que levarão para a vida toda.
A apresentação na empresa foi algo indescritível. Difícil demais conter a emoção enquanto dividia o palco com as minhas próprias alunas. Na época em que eu dançava, era um sonho pensar em dançar com a professora e coreógrafa e eu saí da academia sem realizar esse sonho. Talvez, inconscientemente, eu tenha proporcionado às minhas alunas a sensação que não pude sentir.
Escrever sobre tudo isso me traz a forte impressão de que foi aberta a porta das recordações e que, ao ultrapassar essa porta, me foi concedido o direito a uma viagem no tempo. Uma viagem que possibilitou-me reencontrar e redescobrir as minhas mais remotas lembranças. Lembranças que trouxeram de volta as cores, os sons, as formas e até o sabor de todas as experiências vividas: da expectativa à concretização; da concretização ao sacrifício; do sacrifício à realização; da realização à magia e encantamento; da ilusão à realidade. E da  realidade sobrou apenas a dor.   
Durante um longo e penoso período pensei que a dor não passaria, mas o tempo foi colocando as coisas no lugar. Os nossos sentimentos se transformam a cada momento. Na verdade, a dor realmente não passou. Ela apenas foi se transformando e dando lugar a uma série de outros sentimentos que ganharam espaço na minha vida.
Analisando a trajetória descrita até este ponto, concluo, de forma simples e objetiva, que um dia precisei abrir mão da dança para trabalhar, estudar e me tornar jornalista, mas por ironia do destino também chegou o dia em que a minha profissão, o jornalismo, colocou-me novamente em contato com a dança.  

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