quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Capítulo 2 - Como a dança entrou em minha vida

            Pode parecer estranho, mas penso que a dança entrou em minha vida quando ainda estava no ventre de minha mãe ou até antes disso. Quem sabe? Esse pensamento dá margem à ideia de que ela ou alguém da minha família também tem a dança como paixão e vocação e que, portanto, digo isso por acreditar numa possível influência, mas não é o caso. É bem verdade que ela também não colocava música clássica durante a gestação para que eu escutasse e nem tampouco desejou que eu fosse bailarina um dia. Ainda assim, sinto e tenho a forte impressão de que antes mesmo de nascer esse amor já estava instalado em meu coração e marcado em minha alma, pois até aonde a minha memória me permite recordar, o meu desejo de dançar já estava lá, forte, intenso e persistente, dentro de mim.
Persistente porque foram inúmeras as dificuldades com as quais  deparei-me até conseguir ingressar no mundo da dança e, principalmente, manter-me nele. A maior delas, sem sombra de dúvida, era a falta de dinheiro. Grande novidade! Certamente, não fui a primeira nem a última a viver e conviver com essa realidade.
Sem entrar muito em detalhes e somente para contextualizar, meus pais se separaram no meu sétimo ano de vida. A decisão partiu de minha mãe após 14 anos de casamento e o meu pai não aceitou com muita naturalidade a decisão dela. Então, munida apenas de coragem e determinação, ela saiu de casa com três filhas (sou a caçula), abrindo mão da pensão alimentícia e de quase todo o resto.
Muita gente não entende direito o motivo que levou minha mãe a abrir mão da pensão, uma vez que é uma das únicas, senão a única lei que ainda funciona de verdade neste país. As razões que a levaram a tomar essa decisão são bem simples: primeiro, porque ele não encarou a separação numa boa e levantar questões de direitos e deveres não facilitaria em nada no processo de separação; segundo, porque, naquela ocasião, meu pai mal conseguiria dar conta de si próprio, que dirá, de pagar a pensão de três filhas.
A razão da separação? Reservo-me o direito de preservar meus pais, sobretudo, minha mãe, dizendo apenas que ela decidiu pagar o preço necessário, naquela circunstância, para nos dar uma boa educação e formação, baseadas no exemplo do trabalho, dignidade, força, amor e união. E esse preço, ela pagou praticamente sozinha.
Não é nada fácil expor essa parte da minha vida, até porque não é só minha, mas também da minha família. Foram tempos difíceis aqueles. Com a responsabilidade de criar e educar três filhas, sozinha, minha mãe começou do zero em uma época em que a separação e principalmente as mulheres separadas ainda eram vistas com maus olhos pela sociedade.
Moramos um tempo na casa dos meus avós maternos. Um tempo bem curto, inclusive. Com a ajuda da família, mudamos para um apartamento antigo, pequeno, escuro e alugado.
Minhas irmãs começaram a trabalhar no início da adolescência para ajudarem nas despesas da casa, pois a renda do trabalho de minha mãe não era suficiente. Dessa forma, minhas irmãs trabalhavam de dia e estudavam à noite e minha mãe, que trabalhava no comércio, trabalhava o dia inteiro, todos os dias, inclusive aos sábados, e dependendo da época do ano até aos domingos.
Eu, fora do horário escolar, ficava em casa sozinha. Assim, assumi responsabilidades e preocupações que uma criança normalmente não tem. Tornei-me adolescente quando na verdade ainda era uma criança. E foi assim sempre. Na adolescência, já era praticamente adulta e, agora, que sou adulta, sinceramente não gostaria de voltar a ser criança.
Tudo o que vivi foi válido e guardo as doces lembranças. As amargas também. Hoje, adulta, quero apenas viver em meu tempo e, finalmente, ser adulta enquanto adulta. E que venham as próximas fases, se vierem.
Voltando ao passado...enquanto minha mãe e minhas irmãs trabalhavam, eu, na minha ingenuidade de menina, porque no fundo era apenas uma menina, ficava a sonhar que me tornaria uma bailarina. Sonhava de olhos bem abertos e ouvidos bem atentos à música. Esses sonhos duravam bem pouco tempo. A realidade sempre batia forte à porta, fazendo-me despertar e adiar mais um pouco a realização desse sonho.
Além da questão financeira que, sem dúvida, era o fator condicionante para que não pudesse concretizar o meu maior desejo, minha mãe também não levava a sério a minha vontade e vocação. Sempre achou que era apenas um capricho de criança e que cedo ou tarde ia passar. Ela dizia, repetidas vezes, que dança não era coisa para nós, ou melhor, para mim. Dizia também que não dá futuro, enfim.
O tempo foi passando e continuei alimentando, em silêncio, o sonho e o desejo de dançar. Afinal, para sonhar não era preciso pagar quantia alguma e nem pedir autorização.
Aos 15 anos de idade, recebi a minha primeira proposta de emprego. Que orgulho! O salário era bem pequeno, mas como trabalharia apenas meio período, dando aula de datilografia e digitação, aceitei.
No dia em que recebi o primeiro salário, não tive dúvida. Sem falar nada a ninguém, nem mesmo à minha mãe, fui até uma academia de dança e fiz a minha matrícula para fazer aulas de jazz. Naquela data,  tomei a decisão de finalmente tornar realidade o meu sonho, até então, inatingível. Sou capaz de lembrar-me como se fosse hoje. Aquele foi um dos dias mais felizes de minha vida.
Para os padrões do mundo da dança, comecei tarde, bem tarde, mas comecei.
     

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