quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Capítulo 11 - O reencontro

            Já completara um ano de atuação como voluntária, em 2003, quando percebi que dar aula de dança era muito bom, me fazia um bem indescritível, mas ainda faltava algo. Então, saí à procura do que desconfiava estar faltando. Matriculei-me na modalidade “Dança Moderna”, no Sesc de Santos, com a diretora e coreógrafa Sandra Cabral. Minha intuição estava certa. Eu queria mais do que dar aulas, queria preencher o vazio que ainda era presente com a sensação de dançar novamente na condição de aluna. E, finalmente, o meu reencontro com a dança aconteceu.
            Encarei essa fase como um grande desafio, pois passei a conciliar o meu tempo entre o trabalho, as aulas voluntárias que eu continuava dando paralelamente e a dança moderna. Além da questão do tempo apertado e do desgaste físico, a dança moderna é um estilo bem diferente do que estava habituada, mas acabou se tornando um desafio instigante. Eu queria aprender, trocar, atualizar.
            Na medida em que eu frequentava as aulas, ia superando as dificuldades e descobrindo-me nessa nova linguagem, nesse novo processo, nessa nova experiência. A primeira apresentação sob a direção de Sandra Cabral não demorou a chegar e, quando dei por mim, já estava na coxia preparando-me para entrar em cena novamente, no Teatro Municipal de Santos.
            Mesmo com todos os medos e inseguranças, estar no palco era algo como estar em casa e, naquele momento, senti que demorara demais para voltar ao lar que confortava o meu coração.
            Neste reencontro com a dança, encontrei também o apoio da minha mãe. Era um apoio discreto, mas perceptível. E isso já era surpreendente. Ela comparecia às apresentações e no momento do abraço eu conseguia identificar em sua expressão o orgulho que ela sentia de mim. Isso já me bastava. Ela não precisava dizer. Eu sentia.
Em paralelo às aulas de dança moderna, eu continuava o processo de desenvolvimento com as crianças, mas já não atuava com elas. Passei a apenas coreografar e dirigir o grupo.
            O ano de 2003 foi, sem dúvida, um ano bastante intenso no que diz respeito à dança. Não poderia ser melhor. Quando não estava no palco, executando dança moderna, estava dando aulas ou coreografando jazz .
            No ano seguinte, as atividades, assim como o ritmo delas, continuaram acelerados e eu ia sentindo em proporções cada vez maiores os reflexos físicos desse fluxo intenso de atividades.
Apresentei-me novamente com o grupo de dança moderna. Desta vez, no Sesc/Santos. Um novo número. Alegre, arrojado, irreverente e divertido. Não recordo-me de ter vivido nenhum momento tão descontraído, leve e livre no palco. A partir daí, percebi que o meu reencontro com a dança foi de vital importância para que eu percebesse que dançar, para mim, deve ser algo que sempre me faça bem, que me permita flutuar. Deve ser um processo prazeroso e não penoso. Deve me trazer alegria e não dor. Deve me fazer sentir satisfação e não frustração.
O grupo de dança moderna do qual eu passei a fazer parte era super heterogêneo. As bailarinas tinham idade entre 16 e 50 anos. O que nos comprova que sonho, na maior parte das vezes, não tem prazo de validade para se concretizar. O comprometimento era idêntico ao do grupo da minha adolescência. Na verdade, tudo conseguia ser igual e ao mesmo tempo absolutamente diferente. As diferenças mais acentuadas estavam no estilo de dança e no objetivo do grupo.
No grupo da adolescência, cada uma de nós disputava a evolução técnica primeiramente consigo e, num segundo momento, com as demais bailarinas. A concorrência existia. Claro, que não se tratava de algo desleal. Ao contrário, era saudável, mas estávamos sempre disputando algo. Hora, pela vaga no grupo, hora pela permanência no grupo, hora pela melhor colocação nos testes, hora pela melhor posição no palco, hora pelo primeiro lugar nas competições. Naquela época, o principal objetivo era o resultado, tanto individual como coletivo.
Sete anos mais tarde, no grupo de dança moderna, me encontrei num cenário bastante distinto do que esperava encontrar. Era outro universo, outro clima. No começo não identifiquei direito a diferença. Apenas sentia que não era a mesma coisa. Com o tempo, fui notando que as pessoas daquele grupo não dançavam pela vaga, pela colocação ou pelo resultado. Elas dançavam apenas pelo prazer de dançar. Claro que a técnica era exigida. O processo era desenvolvido com a mesma qualidade, seriedade e disciplina. Para isso, muitas aulas, ensaios e, sobretudo, paixão, mas sem excessos.
É importante destacar que seja na área da dança ou em qualquer outra área que se queira colocar em pauta, sempre são exigidos sacrifícios, renúncias, determinação, dedicação, empenho, superação e disputa. E tudo isso muitas vezes se faz necessário. Dizem se tratar da lei da sobrevivência. Considero válida e não critico. Estou apenas lembrando que tudo é uma questão de objetivo. Depende do que se tem, do que se quer e aonde se quer chegar. No caso da dança, existem pessoas que objetivam o lado profissional, que exige todos os esforços e um pouco mais, já outras querem apenas desfrutar do prazer que a dança lhes traz. Ambas, cada qual a seu modo, se entregam a isso, são felizes e se realizam. E o meu novo objetivo, nesse novo contexto, era apenas dançar para me realizar.

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