Embora tenha começado as aulas consideravelmente tarde, aprendera a dançar por meio dos olhos desde a infância. Já que não podia frequentar escolas de dança, assistia aos filmes e apresentações pela TV, observando cada detalhe, cada movimento, gesto e expressão. Claro que vários movimentos passavam sem que eu pudesse registrar, mas conseguia reproduzir, ao meu modo, praticamente toda a sequência coreográfica e agregava as minhas criações nas partes que não conseguia lembrar. Era divertido!
Além de registrar as coreografias só de olhar, eu também as ensaiava, pois sempre que recebíamos visitas em casa, afastava o sofá, colocava uma música e dançava inúmeras vezes. Aquele espaço improvisado era o meu palco. O cenário era composto pelos móveis da sala e o público era formado pelas minhas irmãs, minha mãe e a visita. Era mágico!
Nessa época, eu já ouvia as frequentes críticas da minha mãe. Ela não me impedia, mas fazia questão de manifestar a opinião de que a minha vontade de dançar era por pura influência das minhas primas, que dançavam desde pequeninas.
Na realidade, ela não entendia ou não queria entender que era algo mais forte do que eu. No fundo, sempre desconfiei que ela usava essa desculpa porque sabia que não teria condições de pagar minhas aulas de dança. Então, era mais fácil acreditar que eu só queria dançar porque elas dançavam e que, com o tempo, a vontade passaria. Mas não passou.
Diante da impossibilidade de materializar o que era só sonho, eu acompanhava cada apresentação das minhas primas. Nos finais de semana, assistia aos seus ensaios e realmente me projetava na imagem delas. Elas representavam a referência do que eu queria ser. Emocionava-me ao vê-las dançando e sempre pensava: um dia ainda viverei essa experiência.
O que a minha mãe não sabia era que não me inspirava apenas nas minhas primas. Elas não eram as únicas bailarinas do mundo. Tá certo que elas faziam de um tudo. Era Ginástica Rítmica Desportiva (GRD), sapateado, ginástica e estilo livre. Mas, além delas, havia outra vitrine para saciar a minha vontade de dançar, já que me contentava com tão pouco.
Por incrível que possa parecer, o pátio da escola pública onde estudava ficava de frente para uma academia de dança - aquela mesma academia na qual me matriculei mais tarde – e nos intervalos das aulas, passava praticamente o tempo todo a contemplar as bailarinas, seus movimentos, giros e saltos. Era como se, naqueles breves momentos, o mundo inteiro mudasse de preto e branco para colorido ou vice-versa.
Não posso dizer que era tão simples assim. Contentava-me com esse pouco porque não havia outro jeito. Afinal, aquela era a minha realidade de vida. Mas aceitar as coisas como eram, não significava que não questionasse algumas situações como, por exemplo, por que as minhas primas, com quem eu convivia com tanta proximidade, podiam fazer o que gostavam e ter boa parte do que desejavam e eu e minhas irmãs não? Embora não sentisse revolta ou inveja delas, no sentido negativo que essa palavra e sentimento denotam, era difícil entender o que as diferenciavam de mim. Sinceramente, encaro essa dificuldade de entendimento e até mesmo os questionamentos da época como algo natural, pois eu era apenas uma criança.
E assim foi. Ao longo de toda a minha infância e início de adolescência, enquanto naquele mundo distante as bailarinas dançavam com os pés, eu, no meu mundo real, dançava com os olhos.
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