quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Capítulo 13 - Mãe, quando erra, é querendo acertar

           Quando ainda era adolescente ouvi pela primeira vez a frase “mãe, quando erra, é querendo acertar” e não concordei. Até reconhecia que o erro poderia ocorrer como resultado da tentativa de acerto, mas não conseguia limitar a ideia à figura da mãe. Afinal, geralmente as pessoas não erram querendo ou esperando errar, sejam elas mães ou não.
            Encarava esse jargão como algo que inventaram para endeusar a figura materna mesmo quando errada. Com uma opinião já formada de que todos somos seres humanos imperfeitos e passíveis de erros, não conseguia extrair a imagem da “mãe” desse contexto. A partir dessa linha de raciocínio, cheguei à conclusão, na época, de que mãe erra, sim, e muito, não importa se querendo acertar, ou não.   
            Sempre que as minhas atitudes deixavam transparecer esse meu pensamento, era comum ouvir da minha própria mãe ou de outras que eu só entenderia o significado dessa frase quando me tornasse mãe. E ao ouvir essas coisas eu pensava comigo: lá vem essa história de novo.
           Houve um tempo em que até pensei em criar um arquivo com frases clichês de mães para compartilhar entre amigos, pois todas dizem mais ou menos as mesmas coisas. Pensava que poderia servir, inclusive, como uma espécie de manual de como interpretar as frases prontas das mães.  Ideia de “aborrescente”.
            A razão para que eu pensasse dessa forma e com tanta contundência era embasada na minha experiência da relação de mãe e filha. Ironicamente, essa forma radical de ver e sentir as coisas eu herdei dela, da minha mãe.
Era muito difícil entender a postura da minha mãe em vários aspectos. Claro, eu era a filha e tinha a minha visão parcial dos acontecimentos. Não conseguia compreender ou aceitar a sua indiferença e ausência no que se refere aos meus sonhos e metas e essa falta de entendimento causava-me uma dor estranha e até assustadora, às vezes.
Tudo isso acontecia porque lá em casa as questões nunca eram discutidas, o “não” era sempre “não” e ponto. Não existia uma razão ou explicação. Era apenas NÃO. No começo eu não entendia as negativas porque era criança, depois, embora já tivesse alcançado a fase em que já conseguia entender as impossibilidades, sentia falta de diálogo ou até de um “quem sabe”. Afinal, o não eu já tinha. Eu queria buscar o sim ou, no mínimo, um talvez. Até mais do que isso, confesso. Esperava encontrar apoio e alicerce para os meus sonhos, ainda que fossem distantes e improváveis. Mas a nossa realidade era sempre muito real, concreta. Não existia o lúdico, o mágico ou a fantasia.        
No meu íntimo conseguia manter viva a crença de que tudo é possível e não sei se posso denominar isso como algo mágico. Mas a falta de magia coletiva na família, tornou-me uma pessoa adulta realista demais. Não considero que isso seja bom, nem ruim. Pois só de sonhos e magia não se vive, mas sem isso também não existimos. Em contrapartida, também sei que essa dose cavalar de realidade fez-me sempre lutar pelo que desejo e, sobretudo, sobreviver aos fracassos, pois em algumas ocasiões alcancei meus objetivos, já em outras, não. Faz parte da vida.  
É inevitável traçar paralelos entre o momento presente e o passado. É somente assim que percebemos se evoluímos no sentido de amadurecimento e compreensão ou se ficamos estagnados no tempo em que nossas visões limitadas eram justificadas pela pouca idade.  
Diante de todo o cenário descrito, minha mãe tinha o meu respeito por imposição e em decorrência do meu medo, mas respeitá-la não significava concordar com ela e com suas regras. Com isso, fui desenvolvendo, involuntariamente, uma relação de amor e ódio com  minha mãe.
Amor, porque acima de tudo e de todas as coisas ela é minha mãe e meu pai também. Eu sabia da sua luta, do seu sacrifício por nós, das renúncias em nosso nome. Uma mãe guerreira, batalhadora, trabalhadora, honesta, digna e protetora. Ódio (no sentido mais leve que a palavra pode ter), porque embora ela tivesse o peso da responsabilidade de ser mãe e pai, embora existissem dificuldades e eram muitas, eu, como filha, não podia aceitar que ela, como mãe, pudesse esquecer que éramos crianças e que, assim como ela só tinha a nós três, nós também só tínhamos a ela. E era nela que esperávamos encontrar o consolo, o colo, o desabafo, o apoio, a força, a coragem e a fé, em nós e na providência divina.
O tempo foi passando e a vida me ensinando. Não precisei ser mãe para perceber determinadas coisas. Entre elas, o significado da expressão “mãe, quando erra, é querendo acertar”. Veja bem, não mudei de opinião, mas consegui compreender a expressão indo além do que as palavras dizem exatamente.
Mãe é algo que podemos considerar como sagrado, pois carrega um ser durante meses dentro de si e o traz à luz. Gera vidas. Aqui, falo da mãe que dá luz a um ou mais filhos, mas não posso deixar de falar sobre as mães adotivas e das mães que criam os filhos alheios. Nestes casos, não são mães verdadeiras, de sangue, mas têm o instinto materno desenvolvido o suficiente a ponto de assumir como seu um filho que é de outra pessoa, assim como existem também as mães verdadeiras que não possuem nem um fio desse instinto.    
Mãe é também algo bem relativo. E é por isso que dizem que mãe é quem cria. E, às vezes, quem cria é o pai. E olha, que por experiência própria, posso dizer que para uma mãe desempenhar o papel de mãe e pai, como é o caso da minha, já é difícil. Imagine, um pai fazer o papal de pai e mãe. Realmente difícil imaginar, mas existem muitos casos.
Pois é, a minha intenção não é falar sobre quem é ou não a “mãe”. Na verdade, quero apenas esclarecer que neste livro a expressão “mãe, quando erra, é querendo acertar”, estou me referindo à pessoa que desempenha em nossas vidas a figura da mãe. 
Assim, mãe é aquela que tem pelos seus filhos um amor incondicional. Um amor que transcende ao que podemos chamar de possível. Um amor que se resume por intraduzível. Portanto, não há no mundo uma pessoa que nos queira melhor do que nossa mãe. E é exatamente nesse sentido que podemos dizer que realmente só erra tentando acertar. Às vezes, inclusive, erra atendendo aos nossos caprichos, mas isso normalmente nós fazemos questão de não lembrar.
Hoje, apenas hoje, consigo tirar o véu que me cobria a vista e sinto o quanto fui injusta com a minha mãe. O “não” dela em relação à dança devia lhe doer mais do que a mim, pois não era um “não” infundado, não era um “não” por implicância ou maldade. Era o NÃO da impossibilidade.
Ela não errou em limitar a viabilidade do meu sonho com o “não”. Ela errou apenas em não conseguir conversar comigo abertamente sobre isso. Errou não apenas comigo, mas também com ela em não conseguir assumir e admitir que ela não tinha condições financeiras para me proporcionar o que eu queria.
A forma que ela encontrou para se defender foi dizer e acreditar que não era importante, que era uma bobagem passageira. Ela só não sabia que o que eu mais precisava e queria ouvir dela era algo como “eu gostaria muito de poder arcar com os custos da dança, mas está fora do meu alcance”.  Ainda seria um “não”, mas me causaria menos mal. Não teria alimentado por tanto tempo uma mágoa por algo mal esclarecido. Se eu tivesse o não com o apoio dela, seria tão diferente. Tão mais leve. 
Nessa minha história, o erro da minha mãe foi tentar me fazer acreditar que o meu sonho não tinha importância nenhuma. Mas no fundo ela queria apenas me proteger do “não” que ela presumia que viria, cedo ou tarde. 
Baseada em tudo o que relatei sobre a minha trajetória, que envolveu os meus sonhos, conquistas, fracassos, dores, alegrias, realizações, assim como meus medos, determinação, pensamentos, sentimentos e impressões, quero completar com algo que considero muito importante. Finalmente, encontrei algo que realmente penso ser importante dizer. Trata-se de um humilde conselho para os pais e também para os filhos:
Aos pais: estejam atentos, abertos e preparados para os sonhos, habilidades e vocações de seus filhos. Não ignorem. Não menosprezem. Dêm a atenção de que precisam. O apoio da família é fundamental. Não se assustem com isso. Nem sempre os sonhos relacionados às habilidades resultam em profissionalização.
Muitas vezes é realmente passageiro, mas permitam que seus filhos ao menos conheçam para, então, fazerem suas escolhas. Outras vezes, não é passageiro, é vocação mesmo. Mas isso também não significa que irão viver disso. De repente, só querem desenvolver por prazer, realização. Permitam  aos seus filhos que descubram isso sozinhos. E há também os casos em que a vocação, habilidade ou apenas o gosto falam mais alto e os faça buscar a profissionalização. Neste caso, conversem, opinem, mostrem as possibilidades, posicionem-se. E se realmente eles decidirem seguir nesse propósito, apoiem. Muitos podem obter êxito, outros  não. É o risco que qualquer profissão oferece.
Aos filhos: procurem respeitar e compreender seus pais e suas atitudes. Não com conformismo. Busquem as razões verdadeiras dos “nãos” que receberem, principalmente, os relacionados ao que é importante para vocês. Quando tudo parecer confuso e sem explicação coerente, tentem estabelecer um diálogo com seus pais, ainda que pareça impossível. Não se revoltem com os “não” que possam surgir no caminho. Muitas vezes eles os protegerão e o tempo lhes mostrará isso. E, por último, não duvidem de que “mãe, quando erra, é querendo acertar”.

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