quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Capítulo 4 - O sonho tornado realidade


            Terça-feira, 9 de julho de 1993. Este foi o tão sonhado e esperado dia: o primeiro dia de aula. Os dias que antecederam esta data foram intermináveis. Eu parecia uma criança de cinco anos que pergunta a todo instante aos pais quantos dias faltam para um determinado dia. A única diferença é que eu não perguntava a ninguém, contava os dias comigo mesma. Era angustiante, pois o bendito dia parecia nunca se aproximar.
            Hoje, até consigo entender um pouco o meu comportamento da época. Levei tanto tempo para concretizar o meu sonho que, mesmo de posse dos recibos da matrícula e mensalidade, custava-me acreditar que já não havia “NÃO” que pudesse me segurar.
            Os dias passaram e era chegada a hora. A minha hora. E, ao contrário do que temia, ela não me foi tirada. O tempo entre o momento da matrícula e o primeiro dia de aula foi o período em que mantive em segredo absoluto o fato de que iria fazer aulas de dança.
Omiti essa informação, que era sinônimo de realização, por vários motivos. Primeiro, porque enquanto não vivesse a experiência de verdade, não acreditaria. Segundo, porque tinha receio de como a minha mãe reagiria à notícia e o que eu menos precisava naquele momento de pura satisfação e elevada autoestima era ouvir críticas ou levar um banho de água fria. Não queria esconder, mas foi a única forma que encontrei de evitar conflitos e, principalmente, de colocar em risco a oportunidade de realizar o meu ideal e, ao mesmo tempo, mostrar para minha mãe que não se tratava de um simples capricho. Era bem mais que isso.
Ao contrário de calar-me, queria compartilhar. Queria gritar para que o mundo inteiro pudesse ouvir que eu quis, sonhei, acreditei, busquei e consegui. Quando desejamos algo com muita intensidade e esse desejo pauta a nossa vida, não importa o tempo que levamos para conquistar. O importante é insistir. Consegui porque sabia onde estava e, sobretudo, onde queria chegar. No íntimo, sentia que era só uma questão de paciência, de esperar um pouco até que pudesse buscar. Foi exatamente o que fiz. 
O dia em que tudo se tornaria real foi repleto de ansiedade, medo e insegurança. Essa afirmação beira à loucura, eu sei, mas senti medo sim e a insegurança rondou-me o tempo todo. Não era medo de realizar o que tanto esperava, não isso, era o medo do famoso desconhecido, do fracasso, da remota, mas possível decepção. Não sabia o que me esperava e não estava certa de que o mundo da dança que fantasiara por tanto tempo existia na prática, mas não era o momento mais adequado para ter dúvidas de nada, era hora de encarar o “novo”, que por sensação e intuição era “velho” conhecido.
No vestiário, durante os minutos que antecederam a minha primeira aula de jazz, observava todas as meninas conversando intimamente. Elas apresentaram-se e até foram simpáticas, mas a minha impressão foi a de que eu havia chegado atrasada e, principalmente, de que era uma estranha no ninho. E realmente era. Lembro-me nitidamente das mãos contorcidas e do estalar frenético dos dedos. Era o nervoso dominando-me por inteiro. Hoje, tenho certeza de que todas elas notaram e até se divertiram com isso, embora na época eu tenha jurado a mim mesma que elas nem haviam percebido.
Ainda no vestiário, de repente, elas levantaram-se e dirigiram-se à porta de saída. De imediato, olhei para o relógio e os ponteiros marcavam exatamente 18 horas. Horário da aula. Respirei fundo, soltei o ar violentamente e segui a turma pensando: seja o que Deus quiser!
Ao entrar na sala, meus olhos percorreram rapidamente todo o ambiente encantados principalmente com os espelhos e as barras, elementos que nunca tive na sala da minha casa, lugar que eu transformava em academia de dança a partir da minha fértil imaginação. Quando dei por mim, meus olhos estavam marejados de lágrimas e a emoção quase extravasou.
Não levou muito tempo para que o encantamento se transformasse em constrangimento. Quando olhei para o chão, não porque quisesse olhar para ele, mas por uma certa timidez inicial, percebi que era a única aluna que usava no lugar das sapatilhas, meias. É que, como mencionei anteriormente, o meu salário não era um salário, era praticamente uma ajuda de custo, e além da matrícula e da mensalidade que já havia pagado, também passei a contribuir em casa com um valor simbólico e, portanto, não havia sobrado dinheiro suficiente para comprar as sapatilhas. A professora, Luciana Herédia,  percebeu o meu mal-estar e logo tratou de quebrar o gelo. Foi um verdadeiro alívio e não demorou praticamente nada até que eu me desligasse daquele detalhe tão pouco significativo diante do sonho que  estava vivendo, na prática.
A primeira aula, assim como as que se seguiram, vieram confirmar tudo o que eu já sabia: realmente nasci amando dançar, sem nunca ter dançado tecnicamente falando. Depois da aula, fui direto para a escola, que como já falei ficava em frente à academia, e o assunto não era outro senão a minha primeira aula de dança. As minhas amigas da época (Priscila, Andréa, Fabiana, Bianca, Renata e Duda), algumas são minhas amigas até os dias de hoje, se alegraram com a minha felicidade e não demonstravam cansaço algum enquanto ouviam, durante horas, o relato detalhado da minha nova experiência. Isso que eu chamo de amizade!   
O momento mais esperado depois da aula em si, é claro, foi o da minha chegada em casa. Digo isso, pois já havia planejado contar tudo a minha família a partir da primeira aula. Fiz isso. Aproveitei para falar quando minha mãe e minhas irmãs estivessem reunidas na sala, assim, só precisaria contar uma única vez. A surpresa foi geral. Num primeiro momento, nenhuma delas acreditou, mas quando mostrei os recibos da mensalidade e matrícula e as roupas que eu havia usado na aula elas perceberam que estava dizendo a verdade. O contentamento das minhas irmãs foi imediato. Minha mãe não foi contrária, mas também não manifestou grande entusiasmo.
A partir daquele dia iniciou-se um processo gradativo de convencimento natural, junto a minha mãe, de que eu tinha uma opinião formada e sabia há tempos o que queria.
O ritmo das aulas era intenso e até isso era ótimo. É certo que nem sempre conseguia acompanhar a turma de pronto, uma vez que as demais alunas estavam adiantadas em relação a mim, mas essas dificuldades me motivavam ainda mais e, ao longo das aulas e somente na prática, pude perceber o quanto realmente havia aprendido a dançar com os olhos e, principalmente, o quanto isso contribuiu no processo de aprendizado técnico.
O mais engraçado de tudo era que, mesmo depois de começar as aulas, ainda flagrava-me no pátio da escola, no intervalo das aulas, olhando para os bailarinos do grupo mais avançado, quase profissional, que faziam aula à noite. Era a mesma academia, a mesma sala de aula e os mesmos bailarinos de antes, mas haviam duas diferenças: eu já sabia quem eram aqueles bailarinos e sabia também como era estar lá.
Tudo estava mudado, ou melhor, quase tudo. A única coisa que permanecera inalterada era o fato de que mesmo aprendendo a dançar com o corpo, eu não deixara de dançar com os olhos.

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