quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Capítulo 5 - Sentindo na pele os limites do corpo


            “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Essa frase, do cantor e compositor Caetano Veloso, passou a fazer muito mais sentido a partir do momento em que as aulas de dança começaram a exigir mais de mim, enquanto bailarina de jazz que decidira ser.
            No começo, tinha apenas duas aulas por semana. O que, cá pra nós, era insuficiente para a minha sede de aprender e de compensar todo o tempo perdido, quer dizer, esperado, pois não acredito em tempo perdido.
Passados alguns meses, a professora começou a montar a coreografia de fim de ano e junto com a montagem vieram os ensaios aos sábados e também após as aulas normais. 
            A cada aula, deparava-me com um novo desafio. À medida que eu ia aprendendo movimentos novos, já precisava executá-los com o máximo de técnica e perfeição, pois continuava atrasada em relação ao grupo. Era preciso recuperar a desvantagem, sempre. É importante registrar que, naquela fase, recebi a ajuda de várias integrantes do grupo. Elas davam-me toques, chamavam-me a atenção para detalhes que eu não conseguia notar e, quando sentia dificuldade, repetiam comigo a sequência de passos inúmeras vezes, o que comprova que assim como tem gente que não gosta de ajudar, também tem muita gente que se disponibiliza para a troca.
O mais curioso era que, embora eu fosse mais velha que as demais alunas em termos de idade, acabei adotada por elas, já que a novata da turma era eu.
            Outra dificuldade que precisei encarar foi justamente o fato de ter ingressado na dança com uma idade relativamente avançada. Eu percebi e assumi isso apenas depois que comecei a fazer aulas de verdade. Aos 15 anos, cheguei na aula de jazz sem nunca ter feito alongamento, a não ser nas fracas aulas de Educação Física da escola, que ocorriam apenas uma vez por semana. Por esta razão, a minha flexibilidade era um tanto quanto limitada.
Todo o alongamento adquirido ao longo do tempo foi na base da dor e do sacrifício. Isso mesmo! Eu sentia muita dor, mas junto com tudo o que aprendi no que se refere a movimentos aprendi também em técnicas, inclusive, para diminuir a dor. Tá certo que a velha técnica da respiração não funcionava muito comigo, mas ajudava um pouco.
Nunca fui rasgada (1), mas isso nunca apagou o meu brilho no palco e nem tampouco comprometeu a minha condição técnica. No  começo, cobrava-me muito. Forçava um pouco além do que devia no alongamento, considerando que eu não tinha flexibilidade porque não me esforçava o suficiente. Com o passar do tempo, fui aprendendo a lidar e superar determinadas limitações minhas.
Há quem diga que não, mas na minha percepção o corpo humano tem os seus limites, sim. Os limites do meu corpo, por exemplo, eram impostos por ele próprio e foi necessário respeitar esse limite.
A aceitação dos meus limites não diminuiu o meu prazer de dançar, ao contrário, incentivou-me a buscar outras possibilidades. O corpo tem limites, mas as possibilidades de trabalhar com o corpo são infinitas. Com isso, passei a identificar e potencializar outros elementos, além da flexibilidade, com os quais eu pudesse destacar-me. Posso apontar “expressão” e “força” como alguns dos elementos que resolvi desenvolver. 
Quem pensa que dançar é fácil pode começar a mudar os seus conceitos. Dançar é muito mais do que repetir uma série de movimentos sincronizados, no ritmo pré-estabelecido pela música, ou não, dependendo do estilo e da proposta do trabalho. Dançar é sinônimo de sacrifício, dores musculares, dedicação, superação de limites, disciplina, concentração e, sobretudo, entrega.
Para se ter ideia, o tempo na dança é diferente do nosso tempo no dia a dia. Por exemplo, cinco minutos, em geral, não representam nada. Passam num piscar de olhos. Já na dança, cinco minutos representam um bocado de tempo. Nesse curto espaço de tempo somam-se inúmeros movimentos, que formam uma pequena composição coreográfica. Para dançar cinco minutos, num ritmo relativamente acelerado, já é complicado. Imagine, então, aguentar uma hora no palco, mantendo postura, expressão, equilíbrio e, acima de tudo, administrando a relação entre força e leveza. Haja concentração, técnica e condicionamento físico pra isso!
A reunião de todos esses elementos é adquirida à base de muito treinamento, aulas e ensaios exaustivos. E o corpo? Ah! O corpo responde a essa overdose de movimentação com calos, bolhas, hematomas, dores musculares, entre outros.  
Mas assim como nem tudo são flores, nem tudo são espinhos também. Toda essa loucura de ensaios, aulas, repetições é, ao mesmo tempo, cansativa e motivadora. Cansativa porque, em resumo, cansa mesmo, e motivadora porque a evolução é acompanhada passo a passo, literalmente. Os ensaios têm um objetivo final e, quando esse final é atingido, existe um resultado efetivo e concreto a ser apresentado para o público. Na realidade, essa loucura toda é muito mais que motivadora, é gostosa, divertida e prazerosa.
Recordo-me, com muita nitidez, de todo o processo preparatório pelo qual a minha turma passou para a nossa primeira apresentação. Foram meses de dedicação, comprometimento e envolvimento. E quando digo isso, estou querendo dizer que passávamos sábados inteiros ensaiando. Essa convivência foi nos aproximando cada vez mais e a partir dessa aproximação, passamos a compartilhar lanches, dificuldades, limitações, dores, problemas familiares e, claro, os risos também. Era uma grande farra, acompanhada de uma grande carga de  responsabilidade.
A fase de experimentar o figurino também era muito divertida. Afinal, nem sempre gostávamos da cor ou do modelo. Aí, pronto, isso já era motivo de piada na certa. Em respeito à coreógrafa, as gracinhas ficavam só entre nós, mas a chance de tirar um sarro não perdíamos de jeito nenhum. 
O melhor de tudo, na minha percepção, é o momento da apresentação – coloco no tempo presente porque foi, é e sempre será o melhor momento. Vou falar, em especial, sobre a primeira apresentação, não porque tenha sido a melhor, e com certeza não foi, mas porque foi a que consolidou a concretização do meu sonho. E posso dizer, sem medo de estar enganada, que talvez eu não volte a sentir emoção similar a que senti quando pisei pela primeira vez no palco. Ainda consigo fechar os olhos, me remeter àquele lugar e reviver o que senti naquela noite.
Na verdade, a emoção começou durante o dia, pois fizemos marcação da coreografia no palco na parte da manhã. A sensação de estar atuando no palco de um teatro vazio era bastante estranha e assustadora, mas não mais do que imaginar aquele mesmo teatro repleto de pessoas esperando pela nossa aparição.
Independente de o teatro estar cheio ou vazio, era inacreditável estar pisando num palco de verdade e não fictício, como antes. Tudo era muito maior, os passos precisavam ser mais largos do que nos ensaios. Além disso, no palco, o nosso espelho era sensorial. Tudo tinha outra dimensão, outro olhar, outra perspectiva. Tudo era absolutamente mágico, encantador e, ao mesmo tempo, assombroso.   
Outra grande emoção foi entrar no camarim. Não fiz outra coisa antes de constatar se realmente existiam aquelas lâmpadas ao redor dos espelhos - aquilo sempre me pareceu ficção - mas não é. Pode parecer bobagem, mas fiz questão de tirar uma foto em frente ao espelho todo iluminado, para registrar aquele momento tão especial – o momento em que eu me sentia a estrela.
Se eu pudesse descrever aquele dia, o faria dizendo que foi um dia repleto de sensações, impressões e descobertas. Descobri, por exemplo, que no camarim não apenas tomamos banho, nos vestimos e nos maquiamos. No camarim, também preparamos o corpo e a mente para entrarmos em cena. Existe um momento reservado para o aquecimento do corpo e outro momento para a concentração coletiva.
A concentração individual ficava a cargo de cada um. Uns a praticavam no próprio camarim, outros preferiam ficar no corredor ou na coxia (2) e havia até quem conseguisse estabelecer a concentração nos segundos que antecediam o início da música, já posicionado no palco. Sempre considerei essa habilidade algo incrível, pois o meu nível elevado de ansiedade e tensão antes de entrar no palco não me possibilitava fazer isso, ao contrário, exigia um preparo bastante antecipado.
Já na primeira apresentação, encontrei a minha técnica particular para atingir um nível considerável de concentração. Descobri esse método sem querer, mas deu tão certo que acabei adotando-o em todas as apresentações que se seguiram e sempre funcionou. Aconteceu assim: faltavam apenas alguns minutos para a minha “estreia” e eu estava tão nervosa que tive a impressão de que já não lembrava a coreografia direito. Então, isolei-me um pouco do grupo, fiquei diante de uma parede e fechei os olhos. Mentalizei a música e fui passando a coreografia mentalmente. Quando terminei, estava bem mais segura. 
Pronta eu já estava, mas isso não impediu que o frio na barriga se instalasse, nem que as mãos parassem de suar e tremer. Era um turbilhão de sensações. A boca ficou seca e, no momento de pisar no palco, senti uma falsa vontade de fazer “xixi”. Tudo psicológico. Todas essas reações foram e são apavorantes. Elas sempre aconteciam comigo, sempre.
Durante muito tempo pensei que eram frutos da minha insegurança, do meu medo de errar, mas muito mais tarde descobri, num curso de Comunicação Verbal, que na realidade, todas essas manifestações são oriundas do respeito que temos com o público. Claro que isso é óbvio, mas só reconheci como óbvio quando eu já estava fora daquele contexto.
De volta à primeira apresentação...era chegada a hora de entrar no palco, mas antes, o grupo, composto por mais de 30 bailarinas, formou um grande círculo com as mãos dadas, para fazer uma oração em voz alta. Terminada a prece, todas em uníssono, gritaram: merda!(3).
Quando finalmente me posicionei no palco ainda escuro, senti como se o tempo houvesse me concedido um tempo antes de tudo começar. Parecia que nada mais existia. Fechei os olhos, senti a energia do palco na sola dos pés, mas não me contentei. Com a mão direita, toquei rapidamente o chão. Depois de sentir aquela mesma vibração na palma das mãos e na ponta dos dedos, contrai a mão sobre o peito afim de que ele pudesse absorver tudo aquilo e agradeci a Deus por aquele momento.
Na sequência, ouvi o ruído das cortinas se abrindo e imediatamente o silêncio total da plateia se fez notar. As luzes foram acesas e a música começou. Era chegada a minha hora de sonhar. Sim, porque tudo aquilo mais parecia um sonho – um sonho bom e perfeito.
Naquela, que foi a minha primeira de muitas apresentações, tive a convicção de que não era necessário ser a melhor bailarina, o ideal era ser a melhor bailarina que eu pudesse ser. A realização estava em dançar com o coração, com a alma.
Confesso que muitas vezes, imbuída deste sentimento, cheguei ao egoísmo de dançar para o meu próprio contentamento. Não que eu não quisesse dançar para o público - não era isso - não que eu não respeitasse mais o público - de forma alguma.  O que fiz, na realidade, foi apenas desconectar o fio da preocupação com os outros e dançar apenas em nome da minha realização. Isso, por si só, já era um sinal de respeito com o público, pois o fato de concentrar-me na minha própria realização, já significava extrair de mim o melhor que eu poderia oferecer.
O desfecho de todo aquele sonho real ocorreu quando a música terminou e os aplausos se fizeram ouvir como música. A imagem mais marcante e que jamais, enquanto estiver lúcida, esquecerei foi a de quando localizei a minha mãe na plateia, junto com outros familiares, sorrindo e aplaudindo. Essa foi a melhor recompensa - a recompensa da aceitação.
Até aquele exato momento eu não sabia se ela iria ou não, pois como disse anteriormente, minha mãe trabalhava no comércio e era época de Natal – período em que o comércio fica aberto até tarde, inclusive aos sábados e domingos – e até a data da apresentação ela ainda não sabia se seria liberada pela sua chefia para me assistir. Por conta de tudo isso, quando a avistei no teatro, a presença dela ganhou ainda mais peso e importância, pois a sua presença significava que ela havia feito de tudo para poder estar lá.
Com tudo isso e por tudo isso, afirmo que o misto de dor e delícia está muito presente em tudo aquilo que resolvemos ser e fazer. No meu caso, mesmo com os ensaios puxados, a pressão pela superação, a busca incessante e eterna da perfeição, o desgaste físico e até psicológico, era exatamente aquilo que eu queria para a minha vida. Fazer o que se ama é compensador por si só. Pode parecer louco, mas trata-se de sacrifício, que não é sacrifício. De dor, que não é dor. De cansaço, que não é cansaço. Trata-se de paixão.     


1.Rasgada –Ttermo utilizado por nós, na época, para dizer que alguém tinha muita flexilibidade.
2. Coxia – São espécies de corredores separados por cortinas nas laterais do palco, nos quais os bailarinos, atores e artistas em geral ficam quando saem de cena ou quando aguardam o momento de entrar ou retornar ao palco.
2. Merda -  É o termo que se usa no mundo da dança para desejar SORTE.

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