quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Prefácio

Sim...a si mesmo

A “famosa quem” chamada Patricia Limeres, como ela mesma diz, decidiu escrever um resumo de sua história de vida até esta edição, não para ser publicado. Era apenas uma reflexão sobre fases de sua vida, mas ela decidiu não ser egoísta e usou de uma de suas virtudes – a fraternidade – para compartilhar suas experiências com outros. Afinal, sempre tem algo que alguém aprende com a vivência de outras pessoas.
Mesmo sem ter sido sua intenção, ela quis mostrar que, de fato, não é preciso ser um best seller para expor memórias e sentimentos, dores e prazeres, para encantar com a força da simplicidade e ajudar outros a compreender e enfrentar desafios.
O fato de Patricia contar as voltas que deu na vida, ou que a vida deu nela, como diz, ganha uma autenticidade excepcional não só porque não seria publicado, mas porque traz a linguagem da alma, temperada com as conexões da razão e do bom senso.

É um livro que ensina sobre a vida, que pode (e deve) ser lido por pessoas de qualquer idade, mas que provavelmente ganhe um peso maior se for absorvido pelos mais jovens, sobretudo, os adolescentes e os que vêm um pouquinho depois dessa fase, tão, tão, tão fantástica no aspecto da transformação do ser.
Embora pareça separar a arte do jornalismo, em alguns momentos do texto, ela acaba por mostrar que ambas caminham juntas e, de certa forma, tudo pode ser arte, principalmente a vida, que nos é dada para moldarmos a nós mesmos como desejarmos, juntando a esse querer o sentir, buscando equilibrar razão, emoção, intuição...
Sua história de vida demonstra uma força desde quando era pequena, o que a torna um exemplo, mesmo quando ela pensa que pulou fases. Que nada! Ela é que pensa isso. Sua alma de guerreira guardou para agora a fase da criança que nunca deixa de ter brilho nos olhos e esperança na postura e atitudes, mesmo quando ela dá uma de pessimista, como se quisesse provocar a si mesma para dar mais voltas por cima. Como se dissesse não, só para motivar a busca do sim e lutar.
E ela disse tanto sim construtivo que, além de plantar uma árvore e escrever um livro, como no provérbio árabe, teve filhos sem engravidar, já que, como voluntária de projetos sociais, plantou sementes de sonhos de vida em crianças que tinham poucas oportunidades para perceber horizontes.

No movimento da dança do corpo e das letras, sua magia acabou provando que na vida não existe sucesso ou fracasso, mas situações que nos agradam e outras que não nos agradam, porque não atendem às nossas expectativas ou desejos. Uma coisa, porém, é certa: sendo gostoso ou não se sentir, tudo ensina, como ensina Patricia, que soube ter coragem de dizer sim a si mesma e que, agora, abre seu coração, para que você não se acomode no não.



Luiz Carlos Bezerra
Jornalista e professor universitário

Agradecimentos


            Nem sei direito por onde começar, ou melhor, por quem começar. Foram tantas, são tantas as pessoas que, direta ou indiretamente, contribuíram para que este livro fosse primeiramente escrito e, depois,  publicado. Além disso, existem os que participaram de parte ou do todo contido nessas páginas e que, portanto, acompanharam e colaboraram para a construção da minha história e da pessoa que sou hoje.
É muito difícil agradecer nominalmente, pois sempre corremos o risco de deixar de mencionar alguém imprescindível e, desde já, quero desculpar-me se eu cometer essa falha.
Não sei se dedico o meu primeiro agradecimento a Deus ou à minha mãe. Afinal, antes de mais nada foi Deus quem permitiu que eu viesse ao mundo e, sobretudo, pelo ventre de uma mulher tão digna e guerreira como a minha mãe. Levando isso em conta, eu deveria agradecer primeiramente a Ele, mas Lhe peço a devida licença para fazer diferente. Quero agradecer primeiro à minha mãe, pois ela é a maior responsável por tudo o que fui, pelo o que me tornei e será também a responsável pelo o que virei a ser. Mãe, receba o meu eterno agradecimento e, sobretudo, o meu sincero reconhecimento por tudo o que fez por mim e pelas minhas irmãs. Você foi e é a melhor mãe e pai (pãe) que poderia ser.
Quero agradecer às minhas irmãs, tão amadas, não só pelos apoios moral, psicológico e material. Agradeço pelo simples fato de serem minhas irmãs de sangue, de coração e de alma. Somos fãs umas das outras e o nosso amor e união nos dá forças para suavizar a vida nos momentos difíceis.
Não posso deixar de estender meus agradecimentos às minhas tias Nena e Vera, ao meu tio Miguel, aos meus primos(as) Rita, Rosane, Tito e Maria Rita por terem depositado em mim a confiança da qual eu necessitava para seguir com os meus estudos. Dedico a vocês o meu título de jornalista, o meu certificado e a minha experiência acadêmica e profissional.
Agradeço a Sra. Jurema, que hoje já não está entre nós, pela oportunidade de trabalho que me foi dada por ela numa época tão difícil da minha vida e, principalmente, pela possibilidade de estender o prazo de vigência da minha maior realização.
Agradeço também aos meus amigos(as), que sempre me incentivaram. Agradeço especialmente à Mirella – a primeira pessoa que teve acesso aos esboços dos textos deste livro. À medida em que eu ia escrevendo, lhe mandava capítulo por capítulo, por e-mail, para que ela me desse a sua opinião. Sempre acreditei na sensibilidade e intuição dela e não teria pessoa melhor para me falar sobre impressões e sensações a respeito do que escrevi e que me era tão pessoal.  Obrigada Mi, por ter aceitado, de pronto, ler e comentar, pela paciência, pelo cuidado e delicadeza ao me transmitir algumas críticas construtivas em relação ao conteúdo.
E, por fim, quero agradecer ao Luiz Carlos Bezerra, meu ex-chefe, que deu-me a primeira oportunidade como profissional de Comunicação e que sempre acreditou no meu potencial. Obrigada por ter lido o livro antes de sua publicação e por ter escrito um comentário tão delicado sobre a minha história.

Dedicatória


Dedico este “filho” às minhas primeiras professoras de dança, Luciana Herédia, Carolina Sales e Natali Camolez. Dedico também e, principalmente, à Gláucia Lacerda Serra, que foi muito mais do que professora e coreógrafa, foi o exemplo e o espelho que escolhi para seguir. Gláucia, fui, sou e continuarei sempre sua fã.
À Sandra Cabral também dedico parte desse conteúdo, por ter me apresentado uma nova linguagem corporal e por ter me dado a oportunidade de vivenciá-la com prazer.
A dedicatória especial desse relato sobre a minha história vai para as minhas eternas alunas. Espero que cada uma delas tenha oportunidade de folhear essas páginas um dia, para terem dimensão da importância da passagem delas pela minha vida.

Capítulo 1 - Famosa "quem"?

            Por que ou para que ler um livro autobiográfico sobre a experiência de uma “famosa quem”*? Se essa pergunta passou pela sua cabeça, não se preocupe. Passou primeiro pela minha.
A ideia de escrever um livro não é recente, confesso. Mas ser a personagem central não estava nos meus planos. Aliás, relatar em primeira pessoa uma parte da minha própria história estava totalmente fora de cogitação. Sempre considerei a minha vida comum demais para isso.
A intenção de escrever um dia era certa, mas o tema ainda era indefinido. Até que a minha própria vida foi se revelando uma ótima história para ser contada e compartilhada. Uma história de altos e baixos. Uma história de sucesso e fracasso; de persistência e desistência; de perdas e ganhos; de sonho e realidade; e, sobretudo, de SIM e de NÃO.
O despertar dessa ideia foi ganhando corpo e pronto. De repente e sem querer eu estava diante da temática do meu livro. Mas antes de decidir expor fragmentos da minha vida eu me questionei muito sobre a real utilidade e importância que a história de uma pessoa comum e desconhecida poderia ter para os leitores ou até que ponto a minha experiência poderia contribuir, interferir ou transformar a história desses mesmos leitores. 
Depois de tentar responder a todas essas questões cheguei a algumas conclusões. Uma delas e, talvez a mais curiosa, é que não faço a menor ideia do impacto que o conteúdo de “Diante do Não, Disse Sim” poderá causar nas pessoas que, por uma razão ou por outra, decidirem lê-lo até o fim. Isso vai depender de cada leitor e do momento pelo qual está passando.
 “Diante do Não, Disse Sim” nada mais é do que o reflexo fiel do que vivi, do que sou e, principalmente, para onde as escolhas que fiz ao longo da minha vida me levaram e o que elas me possibilitaram ser. O livro em si é fruto de uma necessidade primeira, pessoal e talvez até egoísta, de registrar as voltas que a vida deu em minha vida.
Em princípio, não tinha a pretensão de torná-lo um produto de prateleira. Pensei que pudesse, no máximo, ocupar uma gaveta. Mais precisamente uma das minhas gavetas. Portanto, trata-se apenas da tentativa de manter sempre viva e fresca a memória do meu tempo, em qualquer tempo e, sobretudo, compartilhar a minha história e o valor intangível dos sonhos e ideais com os meus amigos, familiares e até mesmo comigo.
Como não tinha a pretensão de publicá-lo, fiquei muito à vontade para escrever com liberdade, simplicidade e transparência. A partir desse contexto, foi fácil ou, quase fácil, selecionar partes da minha vida e transformá-las em capítulos, sem nenhuma pretensão literária.
A temática principal das páginas que se seguem é a relação forte, intensa e presente da dança e da arte em minha vida. Por mais que a vida me conduzisse para caminhos opostos à área cultural, em determinados momentos, algo sempre me trazia de volta. Como se um fio invisível e condutor estivesse preso a mim e puxasse-me à medida em que distanciava-me demais de minha real vocação ou quem sabe destino.   
As inúmeras páginas que, inicialmente, tinham o propósito único de ocupar o fundo da minha gaveta possuem um conteúdo com potencial para atingir não apenas pessoas ligadas ao mundo da dança e da arte. Ao contrário, nelas eu traço paralelos do cotidiano de qualquer pessoa, propondo uma reflexão bem mais ampla à cerca das escolhas que competem a nós mesmos, todos os dias, e que podem mudar totalmente o rumo das coisas.
E, agora, enquanto escrevo, percebo que acabo de me contradizer no que diz respeito à afirmação feita no início do capítulo, quando confessei não ter menor idéia da importância e do impacto que ele pode causar nas pessoas que o lerem. Sinceramente não me incomoda a ideia de ter entrado em contradição e fiz questão de mantê-la no livro porque é preciso admitir que a contradição existe, faz parte do nosso dia a  dia e, por vezes, se faz necessária.
Somos uma somatória das experiências adquiridas ao longo de nossas vidas e, por essa razão, passamos parte da nossa existência convivendo e superando conflitos internos e administrando os externos. Tudo isso, porque somos regidos por um sistema que nos impõe que cada pergunta tenha duas possíveis respostas: a certa e a errada. Em contrapartida, esse mesmo sistema também nos diz que o ideal é buscarmos o caminho do meio: o equilíbrio. Está aí, mais uma contradição e tanto!
Em síntese, afirmo que, na realidade, o conteúdo desse livro é importante, sim. É importante para mim. Afinal, trata-se de parte da minha vida registrada em papel, mas certamente ele também terá a sua importância e valor para os que se identificarem, de alguma forma, com essa minha vida que é única, mas com enredo não exclusivo. Aos que resolverem ler além das palavras, garanto uma leitura, no mínimo, interessante. Sim, porque o livro tem esse poder. Ele permite que ultrapassemos as fronteiras do concreto.
Aos leitores que, mesmo com essas sinceras declarações, optarem por dar continuidade à leitura, na esperança de encontrar respostas, agradeço o voto de confiança e faço um pedido: se as encontrarem compartilhem comigo, através do e-mail plimeres@gmail.com. Irei responder pessoalmente todas as mensagens que receber.
A partir de agora, convido você para ingressar nos próximos capítulos, nos quais irei abordar a influência que essas contradições e conflitos têm sobre as escolhas humanas, tomando o meu exemplo como referencial. Espero que você tire o melhor proveito possível do turbilhão de momentos, ideias, sensações, impressões e sentimentos contidos neles.
Te encontro nas próximas páginas?
  
* Famosa “quem” - Termo que uso freqüentemente quando quero me referir a pessoas que ninguém sabe quem são. Há também os casos em que uso essa expressão para falar de pessoas que pensam que são importantes, quando na verdade não são. Nesse caso específico eu questiono: “Ele (a) é o famoso (a) quem mesmo”?

Capítulo 2 - Como a dança entrou em minha vida

            Pode parecer estranho, mas penso que a dança entrou em minha vida quando ainda estava no ventre de minha mãe ou até antes disso. Quem sabe? Esse pensamento dá margem à ideia de que ela ou alguém da minha família também tem a dança como paixão e vocação e que, portanto, digo isso por acreditar numa possível influência, mas não é o caso. É bem verdade que ela também não colocava música clássica durante a gestação para que eu escutasse e nem tampouco desejou que eu fosse bailarina um dia. Ainda assim, sinto e tenho a forte impressão de que antes mesmo de nascer esse amor já estava instalado em meu coração e marcado em minha alma, pois até aonde a minha memória me permite recordar, o meu desejo de dançar já estava lá, forte, intenso e persistente, dentro de mim.
Persistente porque foram inúmeras as dificuldades com as quais  deparei-me até conseguir ingressar no mundo da dança e, principalmente, manter-me nele. A maior delas, sem sombra de dúvida, era a falta de dinheiro. Grande novidade! Certamente, não fui a primeira nem a última a viver e conviver com essa realidade.
Sem entrar muito em detalhes e somente para contextualizar, meus pais se separaram no meu sétimo ano de vida. A decisão partiu de minha mãe após 14 anos de casamento e o meu pai não aceitou com muita naturalidade a decisão dela. Então, munida apenas de coragem e determinação, ela saiu de casa com três filhas (sou a caçula), abrindo mão da pensão alimentícia e de quase todo o resto.
Muita gente não entende direito o motivo que levou minha mãe a abrir mão da pensão, uma vez que é uma das únicas, senão a única lei que ainda funciona de verdade neste país. As razões que a levaram a tomar essa decisão são bem simples: primeiro, porque ele não encarou a separação numa boa e levantar questões de direitos e deveres não facilitaria em nada no processo de separação; segundo, porque, naquela ocasião, meu pai mal conseguiria dar conta de si próprio, que dirá, de pagar a pensão de três filhas.
A razão da separação? Reservo-me o direito de preservar meus pais, sobretudo, minha mãe, dizendo apenas que ela decidiu pagar o preço necessário, naquela circunstância, para nos dar uma boa educação e formação, baseadas no exemplo do trabalho, dignidade, força, amor e união. E esse preço, ela pagou praticamente sozinha.
Não é nada fácil expor essa parte da minha vida, até porque não é só minha, mas também da minha família. Foram tempos difíceis aqueles. Com a responsabilidade de criar e educar três filhas, sozinha, minha mãe começou do zero em uma época em que a separação e principalmente as mulheres separadas ainda eram vistas com maus olhos pela sociedade.
Moramos um tempo na casa dos meus avós maternos. Um tempo bem curto, inclusive. Com a ajuda da família, mudamos para um apartamento antigo, pequeno, escuro e alugado.
Minhas irmãs começaram a trabalhar no início da adolescência para ajudarem nas despesas da casa, pois a renda do trabalho de minha mãe não era suficiente. Dessa forma, minhas irmãs trabalhavam de dia e estudavam à noite e minha mãe, que trabalhava no comércio, trabalhava o dia inteiro, todos os dias, inclusive aos sábados, e dependendo da época do ano até aos domingos.
Eu, fora do horário escolar, ficava em casa sozinha. Assim, assumi responsabilidades e preocupações que uma criança normalmente não tem. Tornei-me adolescente quando na verdade ainda era uma criança. E foi assim sempre. Na adolescência, já era praticamente adulta e, agora, que sou adulta, sinceramente não gostaria de voltar a ser criança.
Tudo o que vivi foi válido e guardo as doces lembranças. As amargas também. Hoje, adulta, quero apenas viver em meu tempo e, finalmente, ser adulta enquanto adulta. E que venham as próximas fases, se vierem.
Voltando ao passado...enquanto minha mãe e minhas irmãs trabalhavam, eu, na minha ingenuidade de menina, porque no fundo era apenas uma menina, ficava a sonhar que me tornaria uma bailarina. Sonhava de olhos bem abertos e ouvidos bem atentos à música. Esses sonhos duravam bem pouco tempo. A realidade sempre batia forte à porta, fazendo-me despertar e adiar mais um pouco a realização desse sonho.
Além da questão financeira que, sem dúvida, era o fator condicionante para que não pudesse concretizar o meu maior desejo, minha mãe também não levava a sério a minha vontade e vocação. Sempre achou que era apenas um capricho de criança e que cedo ou tarde ia passar. Ela dizia, repetidas vezes, que dança não era coisa para nós, ou melhor, para mim. Dizia também que não dá futuro, enfim.
O tempo foi passando e continuei alimentando, em silêncio, o sonho e o desejo de dançar. Afinal, para sonhar não era preciso pagar quantia alguma e nem pedir autorização.
Aos 15 anos de idade, recebi a minha primeira proposta de emprego. Que orgulho! O salário era bem pequeno, mas como trabalharia apenas meio período, dando aula de datilografia e digitação, aceitei.
No dia em que recebi o primeiro salário, não tive dúvida. Sem falar nada a ninguém, nem mesmo à minha mãe, fui até uma academia de dança e fiz a minha matrícula para fazer aulas de jazz. Naquela data,  tomei a decisão de finalmente tornar realidade o meu sonho, até então, inatingível. Sou capaz de lembrar-me como se fosse hoje. Aquele foi um dos dias mais felizes de minha vida.
Para os padrões do mundo da dança, comecei tarde, bem tarde, mas comecei.
     

Capítulo 3 - Dançando com os olhos

 
Embora tenha começado as aulas consideravelmente tarde, aprendera a dançar por meio dos olhos desde a infância. Já que não podia frequentar escolas de dança, assistia aos filmes e apresentações pela TV, observando cada detalhe, cada movimento, gesto e expressão. Claro que vários movimentos passavam sem que eu pudesse registrar, mas conseguia reproduzir, ao meu modo, praticamente toda a sequência coreográfica e agregava as minhas criações nas partes que não conseguia lembrar. Era divertido!
Além de registrar as coreografias só de olhar, eu também as ensaiava, pois sempre que recebíamos visitas em casa, afastava o sofá, colocava uma música e dançava inúmeras vezes. Aquele espaço improvisado era o meu palco. O cenário era composto pelos móveis da sala e o público era formado pelas minhas irmãs, minha mãe e a visita. Era mágico!
Nessa época, eu já ouvia as frequentes críticas da minha mãe. Ela não me impedia, mas fazia questão de manifestar a opinião de que a minha vontade de dançar era por pura influência das minhas primas, que dançavam desde pequeninas.
Na realidade, ela não entendia ou não queria entender que era algo mais forte do que eu. No fundo, sempre desconfiei que ela usava essa desculpa porque sabia que não teria condições de pagar minhas aulas de dança. Então, era mais fácil acreditar que eu só queria dançar porque elas dançavam e que, com o tempo, a vontade passaria. Mas não passou.
Diante da impossibilidade de materializar o que era só sonho,  eu acompanhava cada apresentação das minhas primas. Nos finais de semana, assistia aos seus ensaios e realmente me projetava na imagem delas. Elas representavam a referência do que eu queria ser. Emocionava-me ao vê-las dançando e sempre pensava: um dia ainda viverei essa experiência. 
O que a minha mãe não sabia era que não me inspirava apenas nas minhas primas. Elas não eram as únicas bailarinas do mundo. Tá certo que elas faziam de um tudo. Era Ginástica Rítmica Desportiva (GRD), sapateado, ginástica e estilo livre. Mas, além delas, havia outra vitrine para saciar a minha vontade de dançar, já que me contentava com tão pouco.
Por incrível que possa parecer, o pátio da escola pública onde estudava ficava de frente para uma academia de dança - aquela mesma academia na qual me matriculei mais tarde – e nos intervalos das aulas, passava praticamente o tempo todo a contemplar as bailarinas, seus movimentos, giros e saltos. Era como se, naqueles breves momentos, o mundo inteiro mudasse de preto e branco para colorido ou vice-versa.
            Não posso dizer que era tão simples assim. Contentava-me com esse pouco porque não havia outro jeito. Afinal, aquela era a minha realidade de vida. Mas aceitar as coisas como eram, não significava que não questionasse algumas situações como, por exemplo, por que as minhas primas, com quem eu convivia com tanta proximidade, podiam fazer o que gostavam e ter boa parte do que desejavam e eu e minhas irmãs não? Embora não sentisse revolta ou inveja delas, no sentido negativo que essa palavra e sentimento denotam, era difícil entender o que as diferenciavam de mim. Sinceramente, encaro essa dificuldade de entendimento e até mesmo os questionamentos da época como algo natural, pois eu era apenas uma criança.
E assim foi. Ao longo de toda a minha infância e início de adolescência, enquanto naquele mundo distante as bailarinas dançavam com os pés, eu, no meu mundo real, dançava com os olhos.

Capítulo 4 - O sonho tornado realidade


            Terça-feira, 9 de julho de 1993. Este foi o tão sonhado e esperado dia: o primeiro dia de aula. Os dias que antecederam esta data foram intermináveis. Eu parecia uma criança de cinco anos que pergunta a todo instante aos pais quantos dias faltam para um determinado dia. A única diferença é que eu não perguntava a ninguém, contava os dias comigo mesma. Era angustiante, pois o bendito dia parecia nunca se aproximar.
            Hoje, até consigo entender um pouco o meu comportamento da época. Levei tanto tempo para concretizar o meu sonho que, mesmo de posse dos recibos da matrícula e mensalidade, custava-me acreditar que já não havia “NÃO” que pudesse me segurar.
            Os dias passaram e era chegada a hora. A minha hora. E, ao contrário do que temia, ela não me foi tirada. O tempo entre o momento da matrícula e o primeiro dia de aula foi o período em que mantive em segredo absoluto o fato de que iria fazer aulas de dança.
Omiti essa informação, que era sinônimo de realização, por vários motivos. Primeiro, porque enquanto não vivesse a experiência de verdade, não acreditaria. Segundo, porque tinha receio de como a minha mãe reagiria à notícia e o que eu menos precisava naquele momento de pura satisfação e elevada autoestima era ouvir críticas ou levar um banho de água fria. Não queria esconder, mas foi a única forma que encontrei de evitar conflitos e, principalmente, de colocar em risco a oportunidade de realizar o meu ideal e, ao mesmo tempo, mostrar para minha mãe que não se tratava de um simples capricho. Era bem mais que isso.
Ao contrário de calar-me, queria compartilhar. Queria gritar para que o mundo inteiro pudesse ouvir que eu quis, sonhei, acreditei, busquei e consegui. Quando desejamos algo com muita intensidade e esse desejo pauta a nossa vida, não importa o tempo que levamos para conquistar. O importante é insistir. Consegui porque sabia onde estava e, sobretudo, onde queria chegar. No íntimo, sentia que era só uma questão de paciência, de esperar um pouco até que pudesse buscar. Foi exatamente o que fiz. 
O dia em que tudo se tornaria real foi repleto de ansiedade, medo e insegurança. Essa afirmação beira à loucura, eu sei, mas senti medo sim e a insegurança rondou-me o tempo todo. Não era medo de realizar o que tanto esperava, não isso, era o medo do famoso desconhecido, do fracasso, da remota, mas possível decepção. Não sabia o que me esperava e não estava certa de que o mundo da dança que fantasiara por tanto tempo existia na prática, mas não era o momento mais adequado para ter dúvidas de nada, era hora de encarar o “novo”, que por sensação e intuição era “velho” conhecido.
No vestiário, durante os minutos que antecederam a minha primeira aula de jazz, observava todas as meninas conversando intimamente. Elas apresentaram-se e até foram simpáticas, mas a minha impressão foi a de que eu havia chegado atrasada e, principalmente, de que era uma estranha no ninho. E realmente era. Lembro-me nitidamente das mãos contorcidas e do estalar frenético dos dedos. Era o nervoso dominando-me por inteiro. Hoje, tenho certeza de que todas elas notaram e até se divertiram com isso, embora na época eu tenha jurado a mim mesma que elas nem haviam percebido.
Ainda no vestiário, de repente, elas levantaram-se e dirigiram-se à porta de saída. De imediato, olhei para o relógio e os ponteiros marcavam exatamente 18 horas. Horário da aula. Respirei fundo, soltei o ar violentamente e segui a turma pensando: seja o que Deus quiser!
Ao entrar na sala, meus olhos percorreram rapidamente todo o ambiente encantados principalmente com os espelhos e as barras, elementos que nunca tive na sala da minha casa, lugar que eu transformava em academia de dança a partir da minha fértil imaginação. Quando dei por mim, meus olhos estavam marejados de lágrimas e a emoção quase extravasou.
Não levou muito tempo para que o encantamento se transformasse em constrangimento. Quando olhei para o chão, não porque quisesse olhar para ele, mas por uma certa timidez inicial, percebi que era a única aluna que usava no lugar das sapatilhas, meias. É que, como mencionei anteriormente, o meu salário não era um salário, era praticamente uma ajuda de custo, e além da matrícula e da mensalidade que já havia pagado, também passei a contribuir em casa com um valor simbólico e, portanto, não havia sobrado dinheiro suficiente para comprar as sapatilhas. A professora, Luciana Herédia,  percebeu o meu mal-estar e logo tratou de quebrar o gelo. Foi um verdadeiro alívio e não demorou praticamente nada até que eu me desligasse daquele detalhe tão pouco significativo diante do sonho que  estava vivendo, na prática.
A primeira aula, assim como as que se seguiram, vieram confirmar tudo o que eu já sabia: realmente nasci amando dançar, sem nunca ter dançado tecnicamente falando. Depois da aula, fui direto para a escola, que como já falei ficava em frente à academia, e o assunto não era outro senão a minha primeira aula de dança. As minhas amigas da época (Priscila, Andréa, Fabiana, Bianca, Renata e Duda), algumas são minhas amigas até os dias de hoje, se alegraram com a minha felicidade e não demonstravam cansaço algum enquanto ouviam, durante horas, o relato detalhado da minha nova experiência. Isso que eu chamo de amizade!   
O momento mais esperado depois da aula em si, é claro, foi o da minha chegada em casa. Digo isso, pois já havia planejado contar tudo a minha família a partir da primeira aula. Fiz isso. Aproveitei para falar quando minha mãe e minhas irmãs estivessem reunidas na sala, assim, só precisaria contar uma única vez. A surpresa foi geral. Num primeiro momento, nenhuma delas acreditou, mas quando mostrei os recibos da mensalidade e matrícula e as roupas que eu havia usado na aula elas perceberam que estava dizendo a verdade. O contentamento das minhas irmãs foi imediato. Minha mãe não foi contrária, mas também não manifestou grande entusiasmo.
A partir daquele dia iniciou-se um processo gradativo de convencimento natural, junto a minha mãe, de que eu tinha uma opinião formada e sabia há tempos o que queria.
O ritmo das aulas era intenso e até isso era ótimo. É certo que nem sempre conseguia acompanhar a turma de pronto, uma vez que as demais alunas estavam adiantadas em relação a mim, mas essas dificuldades me motivavam ainda mais e, ao longo das aulas e somente na prática, pude perceber o quanto realmente havia aprendido a dançar com os olhos e, principalmente, o quanto isso contribuiu no processo de aprendizado técnico.
O mais engraçado de tudo era que, mesmo depois de começar as aulas, ainda flagrava-me no pátio da escola, no intervalo das aulas, olhando para os bailarinos do grupo mais avançado, quase profissional, que faziam aula à noite. Era a mesma academia, a mesma sala de aula e os mesmos bailarinos de antes, mas haviam duas diferenças: eu já sabia quem eram aqueles bailarinos e sabia também como era estar lá.
Tudo estava mudado, ou melhor, quase tudo. A única coisa que permanecera inalterada era o fato de que mesmo aprendendo a dançar com o corpo, eu não deixara de dançar com os olhos.

Capítulo 5 - Sentindo na pele os limites do corpo


            “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Essa frase, do cantor e compositor Caetano Veloso, passou a fazer muito mais sentido a partir do momento em que as aulas de dança começaram a exigir mais de mim, enquanto bailarina de jazz que decidira ser.
            No começo, tinha apenas duas aulas por semana. O que, cá pra nós, era insuficiente para a minha sede de aprender e de compensar todo o tempo perdido, quer dizer, esperado, pois não acredito em tempo perdido.
Passados alguns meses, a professora começou a montar a coreografia de fim de ano e junto com a montagem vieram os ensaios aos sábados e também após as aulas normais. 
            A cada aula, deparava-me com um novo desafio. À medida que eu ia aprendendo movimentos novos, já precisava executá-los com o máximo de técnica e perfeição, pois continuava atrasada em relação ao grupo. Era preciso recuperar a desvantagem, sempre. É importante registrar que, naquela fase, recebi a ajuda de várias integrantes do grupo. Elas davam-me toques, chamavam-me a atenção para detalhes que eu não conseguia notar e, quando sentia dificuldade, repetiam comigo a sequência de passos inúmeras vezes, o que comprova que assim como tem gente que não gosta de ajudar, também tem muita gente que se disponibiliza para a troca.
O mais curioso era que, embora eu fosse mais velha que as demais alunas em termos de idade, acabei adotada por elas, já que a novata da turma era eu.
            Outra dificuldade que precisei encarar foi justamente o fato de ter ingressado na dança com uma idade relativamente avançada. Eu percebi e assumi isso apenas depois que comecei a fazer aulas de verdade. Aos 15 anos, cheguei na aula de jazz sem nunca ter feito alongamento, a não ser nas fracas aulas de Educação Física da escola, que ocorriam apenas uma vez por semana. Por esta razão, a minha flexibilidade era um tanto quanto limitada.
Todo o alongamento adquirido ao longo do tempo foi na base da dor e do sacrifício. Isso mesmo! Eu sentia muita dor, mas junto com tudo o que aprendi no que se refere a movimentos aprendi também em técnicas, inclusive, para diminuir a dor. Tá certo que a velha técnica da respiração não funcionava muito comigo, mas ajudava um pouco.
Nunca fui rasgada (1), mas isso nunca apagou o meu brilho no palco e nem tampouco comprometeu a minha condição técnica. No  começo, cobrava-me muito. Forçava um pouco além do que devia no alongamento, considerando que eu não tinha flexibilidade porque não me esforçava o suficiente. Com o passar do tempo, fui aprendendo a lidar e superar determinadas limitações minhas.
Há quem diga que não, mas na minha percepção o corpo humano tem os seus limites, sim. Os limites do meu corpo, por exemplo, eram impostos por ele próprio e foi necessário respeitar esse limite.
A aceitação dos meus limites não diminuiu o meu prazer de dançar, ao contrário, incentivou-me a buscar outras possibilidades. O corpo tem limites, mas as possibilidades de trabalhar com o corpo são infinitas. Com isso, passei a identificar e potencializar outros elementos, além da flexibilidade, com os quais eu pudesse destacar-me. Posso apontar “expressão” e “força” como alguns dos elementos que resolvi desenvolver. 
Quem pensa que dançar é fácil pode começar a mudar os seus conceitos. Dançar é muito mais do que repetir uma série de movimentos sincronizados, no ritmo pré-estabelecido pela música, ou não, dependendo do estilo e da proposta do trabalho. Dançar é sinônimo de sacrifício, dores musculares, dedicação, superação de limites, disciplina, concentração e, sobretudo, entrega.
Para se ter ideia, o tempo na dança é diferente do nosso tempo no dia a dia. Por exemplo, cinco minutos, em geral, não representam nada. Passam num piscar de olhos. Já na dança, cinco minutos representam um bocado de tempo. Nesse curto espaço de tempo somam-se inúmeros movimentos, que formam uma pequena composição coreográfica. Para dançar cinco minutos, num ritmo relativamente acelerado, já é complicado. Imagine, então, aguentar uma hora no palco, mantendo postura, expressão, equilíbrio e, acima de tudo, administrando a relação entre força e leveza. Haja concentração, técnica e condicionamento físico pra isso!
A reunião de todos esses elementos é adquirida à base de muito treinamento, aulas e ensaios exaustivos. E o corpo? Ah! O corpo responde a essa overdose de movimentação com calos, bolhas, hematomas, dores musculares, entre outros.  
Mas assim como nem tudo são flores, nem tudo são espinhos também. Toda essa loucura de ensaios, aulas, repetições é, ao mesmo tempo, cansativa e motivadora. Cansativa porque, em resumo, cansa mesmo, e motivadora porque a evolução é acompanhada passo a passo, literalmente. Os ensaios têm um objetivo final e, quando esse final é atingido, existe um resultado efetivo e concreto a ser apresentado para o público. Na realidade, essa loucura toda é muito mais que motivadora, é gostosa, divertida e prazerosa.
Recordo-me, com muita nitidez, de todo o processo preparatório pelo qual a minha turma passou para a nossa primeira apresentação. Foram meses de dedicação, comprometimento e envolvimento. E quando digo isso, estou querendo dizer que passávamos sábados inteiros ensaiando. Essa convivência foi nos aproximando cada vez mais e a partir dessa aproximação, passamos a compartilhar lanches, dificuldades, limitações, dores, problemas familiares e, claro, os risos também. Era uma grande farra, acompanhada de uma grande carga de  responsabilidade.
A fase de experimentar o figurino também era muito divertida. Afinal, nem sempre gostávamos da cor ou do modelo. Aí, pronto, isso já era motivo de piada na certa. Em respeito à coreógrafa, as gracinhas ficavam só entre nós, mas a chance de tirar um sarro não perdíamos de jeito nenhum. 
O melhor de tudo, na minha percepção, é o momento da apresentação – coloco no tempo presente porque foi, é e sempre será o melhor momento. Vou falar, em especial, sobre a primeira apresentação, não porque tenha sido a melhor, e com certeza não foi, mas porque foi a que consolidou a concretização do meu sonho. E posso dizer, sem medo de estar enganada, que talvez eu não volte a sentir emoção similar a que senti quando pisei pela primeira vez no palco. Ainda consigo fechar os olhos, me remeter àquele lugar e reviver o que senti naquela noite.
Na verdade, a emoção começou durante o dia, pois fizemos marcação da coreografia no palco na parte da manhã. A sensação de estar atuando no palco de um teatro vazio era bastante estranha e assustadora, mas não mais do que imaginar aquele mesmo teatro repleto de pessoas esperando pela nossa aparição.
Independente de o teatro estar cheio ou vazio, era inacreditável estar pisando num palco de verdade e não fictício, como antes. Tudo era muito maior, os passos precisavam ser mais largos do que nos ensaios. Além disso, no palco, o nosso espelho era sensorial. Tudo tinha outra dimensão, outro olhar, outra perspectiva. Tudo era absolutamente mágico, encantador e, ao mesmo tempo, assombroso.   
Outra grande emoção foi entrar no camarim. Não fiz outra coisa antes de constatar se realmente existiam aquelas lâmpadas ao redor dos espelhos - aquilo sempre me pareceu ficção - mas não é. Pode parecer bobagem, mas fiz questão de tirar uma foto em frente ao espelho todo iluminado, para registrar aquele momento tão especial – o momento em que eu me sentia a estrela.
Se eu pudesse descrever aquele dia, o faria dizendo que foi um dia repleto de sensações, impressões e descobertas. Descobri, por exemplo, que no camarim não apenas tomamos banho, nos vestimos e nos maquiamos. No camarim, também preparamos o corpo e a mente para entrarmos em cena. Existe um momento reservado para o aquecimento do corpo e outro momento para a concentração coletiva.
A concentração individual ficava a cargo de cada um. Uns a praticavam no próprio camarim, outros preferiam ficar no corredor ou na coxia (2) e havia até quem conseguisse estabelecer a concentração nos segundos que antecediam o início da música, já posicionado no palco. Sempre considerei essa habilidade algo incrível, pois o meu nível elevado de ansiedade e tensão antes de entrar no palco não me possibilitava fazer isso, ao contrário, exigia um preparo bastante antecipado.
Já na primeira apresentação, encontrei a minha técnica particular para atingir um nível considerável de concentração. Descobri esse método sem querer, mas deu tão certo que acabei adotando-o em todas as apresentações que se seguiram e sempre funcionou. Aconteceu assim: faltavam apenas alguns minutos para a minha “estreia” e eu estava tão nervosa que tive a impressão de que já não lembrava a coreografia direito. Então, isolei-me um pouco do grupo, fiquei diante de uma parede e fechei os olhos. Mentalizei a música e fui passando a coreografia mentalmente. Quando terminei, estava bem mais segura. 
Pronta eu já estava, mas isso não impediu que o frio na barriga se instalasse, nem que as mãos parassem de suar e tremer. Era um turbilhão de sensações. A boca ficou seca e, no momento de pisar no palco, senti uma falsa vontade de fazer “xixi”. Tudo psicológico. Todas essas reações foram e são apavorantes. Elas sempre aconteciam comigo, sempre.
Durante muito tempo pensei que eram frutos da minha insegurança, do meu medo de errar, mas muito mais tarde descobri, num curso de Comunicação Verbal, que na realidade, todas essas manifestações são oriundas do respeito que temos com o público. Claro que isso é óbvio, mas só reconheci como óbvio quando eu já estava fora daquele contexto.
De volta à primeira apresentação...era chegada a hora de entrar no palco, mas antes, o grupo, composto por mais de 30 bailarinas, formou um grande círculo com as mãos dadas, para fazer uma oração em voz alta. Terminada a prece, todas em uníssono, gritaram: merda!(3).
Quando finalmente me posicionei no palco ainda escuro, senti como se o tempo houvesse me concedido um tempo antes de tudo começar. Parecia que nada mais existia. Fechei os olhos, senti a energia do palco na sola dos pés, mas não me contentei. Com a mão direita, toquei rapidamente o chão. Depois de sentir aquela mesma vibração na palma das mãos e na ponta dos dedos, contrai a mão sobre o peito afim de que ele pudesse absorver tudo aquilo e agradeci a Deus por aquele momento.
Na sequência, ouvi o ruído das cortinas se abrindo e imediatamente o silêncio total da plateia se fez notar. As luzes foram acesas e a música começou. Era chegada a minha hora de sonhar. Sim, porque tudo aquilo mais parecia um sonho – um sonho bom e perfeito.
Naquela, que foi a minha primeira de muitas apresentações, tive a convicção de que não era necessário ser a melhor bailarina, o ideal era ser a melhor bailarina que eu pudesse ser. A realização estava em dançar com o coração, com a alma.
Confesso que muitas vezes, imbuída deste sentimento, cheguei ao egoísmo de dançar para o meu próprio contentamento. Não que eu não quisesse dançar para o público - não era isso - não que eu não respeitasse mais o público - de forma alguma.  O que fiz, na realidade, foi apenas desconectar o fio da preocupação com os outros e dançar apenas em nome da minha realização. Isso, por si só, já era um sinal de respeito com o público, pois o fato de concentrar-me na minha própria realização, já significava extrair de mim o melhor que eu poderia oferecer.
O desfecho de todo aquele sonho real ocorreu quando a música terminou e os aplausos se fizeram ouvir como música. A imagem mais marcante e que jamais, enquanto estiver lúcida, esquecerei foi a de quando localizei a minha mãe na plateia, junto com outros familiares, sorrindo e aplaudindo. Essa foi a melhor recompensa - a recompensa da aceitação.
Até aquele exato momento eu não sabia se ela iria ou não, pois como disse anteriormente, minha mãe trabalhava no comércio e era época de Natal – período em que o comércio fica aberto até tarde, inclusive aos sábados e domingos – e até a data da apresentação ela ainda não sabia se seria liberada pela sua chefia para me assistir. Por conta de tudo isso, quando a avistei no teatro, a presença dela ganhou ainda mais peso e importância, pois a sua presença significava que ela havia feito de tudo para poder estar lá.
Com tudo isso e por tudo isso, afirmo que o misto de dor e delícia está muito presente em tudo aquilo que resolvemos ser e fazer. No meu caso, mesmo com os ensaios puxados, a pressão pela superação, a busca incessante e eterna da perfeição, o desgaste físico e até psicológico, era exatamente aquilo que eu queria para a minha vida. Fazer o que se ama é compensador por si só. Pode parecer louco, mas trata-se de sacrifício, que não é sacrifício. De dor, que não é dor. De cansaço, que não é cansaço. Trata-se de paixão.     


1.Rasgada –Ttermo utilizado por nós, na época, para dizer que alguém tinha muita flexilibidade.
2. Coxia – São espécies de corredores separados por cortinas nas laterais do palco, nos quais os bailarinos, atores e artistas em geral ficam quando saem de cena ou quando aguardam o momento de entrar ou retornar ao palco.
2. Merda -  É o termo que se usa no mundo da dança para desejar SORTE.

Capítulo 6 - Saber esperar é preciso


            No decorrer dos ensaios, antes da primeira apresentação - já relatada no capítulo anterior - a minha professora convidou-me para participar da audição (1), que seria realizada também no final daquele ano - em 18 de dezembro de 1993. De tão surpresa, não conseguia entender direito o que estava acontecendo. Provavelmente, essa confusão ficou bastante nítida em minha expressão, pois ela resolveu explicar-me tudo. Agora, vou tentar deixar um pouco de lado a emoção de relembrar essa parte em especial, para ver se consigo retransmitir a você, leitor, o que ela me esclareceu, na época.
            Os grupos de dança da academia Retoque Dança & Cia eram divididos da seguinte forma: Jazz I (nível iniciante) – do qual eu fazia parte; Jazz II (nível intermediário) - do qual teoricamente eu faria parte na sequência, caso me saísse bem no Jazz I; Jazz II (nível intermediário); Jazz III (nível avançado); Amador I (grupo de competição – nível iniciante); Amador II (grupo de competição – nível avançado – quase profissional).
            Assim, todo final de ano a academia realizava audições para selecionar novos bailarinos para os grupos Amador I e Amador II. As vagas para ambos os grupos eram super disputadas, entre bailarinos da própria academia e também por uma quantidade esmagadora de bailarinos de toda região.
            O mais comum era que bailarinos do Jazz III (nível avançado) participassem dessa audição, afinal, os pré-requisitos técnicos para conseguir passar eram bastante rigorosos. Diante dessa informação,  fiquei extasiada por ser selecionada para participar com tão pouco tempo de aula. Eu estava apenas no Jazz I, inclusive, na condição de “a mais novata”, e não tinha nem sequer pensado na possibilidade de pular do Jazz I para o Amador I.
Para se ter uma ideia, nem todas as integrantes da minha turma foram selecionadas, aliás, entre mais de 30, nem dez foram escolhidas. Só isso já representava uma vitória, pois a seleção dessa minoria na qual eu estava incluída, foi feita com base no aproveitamento durante as aulas, no potencial de superação, no destaque e evolução adquiridos no decorrer dos ensaios para a apresentação de fim de ano, ou seja, na dedicação e no empenho demonstrados ao longo de todo o período.
            Confesso que fiquei bastante chateada por algumas amigas que estavam no mesmo nível que eu não terem sido selecionadas, mas não posso negar que isso não diminuiu a minha alegria em estar entre as destacadas. Não porque isso significasse ser melhor ou pior que alguém. Nada disso. Significava apenas que era capaz de conseguir chegar onde queria. Assim como eu, todos aqueles que decidem buscar o que verdadeiramente desejam, cedo ou tarde, conquistam o seu lugar. É apenas uma questão de persistência, insistência e, sobretudo, fé. Fé em uma força que é maior e que tudo vê e, principalmente, fé em si mesmo.
            Claro, que junto com a feliz notícia sobre a minha participação na audição, veio também o peso da responsabilidade e, mais uma vez, dei de cara com o medo. Como de costume, não me deixei abalar por ele. Fiz melhor. O encarei de frente e com toda força e vontade de superá-lo, pois o que estava em jogo era a realização do meu sonho. 
            A partir de então, eu e as demais selecionadas, passamos a fazer, além das nossas aulas do Jazz I e ensaiar para a apresentação de final de ano, as aulas do grupo Amador I. Tratavam-se de aulas preparatórias para a audição. Essas aulas aconteciam à noite – horário em que deveria estar na escola – mas como foi por um curto período,  abdiquei das disciplinas escolares. O clima dessas aulas preparatórias era sempre bastante apreensivo, pois na verdade todos estavam no mesmo barco.
O pessoal do Amador I também participava da audição para concorrer a uma vaga no Amador II ou para justificar a permanência no Amador I, pois para continuar no grupo não era permitida a queda de aproveitamento, nem tampouco a ausência de evolução. O mesmo acontecia com o Amador II.
            O desgaste físico e psicológico naqueles dias e semanas foi algo indescritível. Os nervos ficaram literalmente à flor da pele. Os momentos de descontração também existiam, é claro, mas no fundo estávamos todos concentrados nos mesmos objetivos. Os que já integravam o Amador I e o Amador II nos davam muito apoio, várias dicas e toques. O incentivo deles foi essencial para que nos mantivéssemos firmes até o dia da verdade. 
            No período da manhã e início da tarde, eu trabalhava. Do trabalho, ia direto para casa, arrumava tudo, passava as lições perdidas nas aulas da escola a limpo e estudava um pouco. No final da tarde, seguia para academia e só saía de lá depois das 21 horas. De lá, ainda corria para a escola assistir as últimas aulas. Chegava em casa exausta, cheia de hematomas e dores, mas feliz.  Aos sábados, do início da manhã até o final de tarde, mais ensaios e aulas. A rotina passou a ser assim durante várias semanas.
            A busca pela superação e muitas vezes, ou na maioria delas, a tentativa de pelo menos acompanhar o ritmo do Amador I, ainda que sem tanta técnica, nos deixou bastante ocupadas para sequer pensarmos em sentir ansiedade. Ao mesmo tempo que queríamos que chegasse logo o dia da apresentação, desejávamos também que não chegasse tão cedo o dia da audição, mas o atendimento aos dois pedidos era impossível, uma vez que as duas datas eram próximas uma da outra.
            E o dia da temida audição chegou, não teve jeito. Eu nem consegui dormir naquela noite. Acordava de cinco em cinco minutos achando que já era manhã. Fiquei virando na cama feito bife na frigideira. Quando finalmente amanheceu, pulei da cama e tratei de me aprontar. Nunca levantei tão cedo e tão bem disposta em toda a minha vida. Cheguei na academia com bastante antecedência, para não correr risco nenhum de perder aquela que, certamente, era a minha grande oportunidade.
            Ao chegar lá, percebi que todos haviam compartilhado do mesmo pensamento que eu. A academia ainda estava fechada e a escadaria do prédio estava repleta de estranhos e também de amigos. Procuramos não falar sobre a audição, mas isso não durou mais que dez minutos. Logo, a diretora da Retoque, Gláucia Lacerda Serra, chegou junto com a sua mãe, a querida dona Vilma, que ficava na secretaria, e todos entraram na sala de espera, que servira também como sala de aquecimento.
            Cada candidato tinha um número e a chamada para a sala de audição era realizada pela numeração e não por nome. A espera parecia não ter fim. E quanto mais o tempo passava era pior. O nervosismo e a ansiedade aumentavam a cada turma que saía daquela sala. Algumas pessoas saíam com a expressão de segurança, outras saíam com cara de desânimo, tinha também as que saíam com um ponto de interrogação no semblante. E eu continuava ali, na ante-sala do medo, sem saber qual seria o meu destino.
            Ao descrever tudo isso, sinto como se revivesse tudo de novo. Meu coração palpita, minhas mãos tremem e os meus olhos ficam cheios d´água. Como alguns sentimentos podem retornar com tanta força como se nunca tivessem passado? Nunca pensei que ao relembrar tudo isso, com tamanha riqueza de detalhes, fosse capaz de provocar o resgate de tantas emoções. Somente agora estou percebendo isso.
            O número 34 foi anunciado em voz alta. Era o meu número. Não dava mais tempo de fugir. Na sequência, os números das minhas colegas de luta também foram anunciados. Neste momento, a nossa professora, Herédia, aproximou-se de nós, formou um círculo de mãos dadas e disse palavras confortantes - palavras que tiraram boa parte do peso que estávamos sentindo nos ombros.
Foi uma conversa breve e objetiva, mas foi justamente o que precisávamos ouvir naquela hora. Disse que acreditava no nosso potencial, que não havíamos sido escolhidas à toa, que não importava o resultado, pois nós já éramos vencedoras e guerreiras só por termos chegado até ali e por termos demonstrado coragem de encarar o desafio de competir, em condição de igualdade, com pessoas da própria academia e também de fora com nível mais avançado que o nosso. Ela finalizou essa conversa apertando as nossas mãos e dizendo: merda!. Nos dirigimos à sala do teste e ela ficou ali, com o coração ainda mais apertado que o nosso, certamente.
            O teste começou na barra. A temida barra, eu diria. O meu nervoso era tanto, que não se contentou em se apresentar apenas através da minha expressão de pavor, mas também nas mãos e braços que tremiam como vara verde. As pernas também não ficaram atrás. Eu parecia uma tonta com as pernas unidas e os pés calçados com sapatilhas novas, em primeira posição, com o braço oposto ao do apoiado na barra aberto lateralmente e tudo isso tremendo ao mesmo tempo. Isso mesmo! Em verdadeira sincronia.
            Depois dos exercícios e sequências de barra (balé), partimos para os elementos da diagonal: saltos, giros e piruetas de todos os tipos, entre tantos outros movimentos com nomes técnicos que não cabem menção.
            Por último, e não menos importante, a sequência de centro. A composição coreográfica foi passada no momento do teste. Tá certo que, durante as aulas que antecederam à audição, fizemos movimentos muito similares aos que compunham a sequência, mas ali, diante de todos os jurados, nada era simples. Absolutamente nada. A sensação de estar sendo avaliada até na respiração era assombrosa.
            Com o término, veio a sensação de leveza. Como se uns dez quilos tivessem saído das minhas costas e a minha via respiratória tivesse sido desobstruída, pois eu já conseguia respirar. Ao voltar para a sala de espera, todos perguntaram como tinha sido e acho que a minha expressão era o reflexo exato da junção de todas aquelas pessoas que mencionei antes. Provavelmente reunia desespero, desânimo, decepção e interrogação. O único sentimento que eu não tive naquele momento foi segurança, afinal, sempre fui crítica demais.
            A informação que tivemos antes de sairmos da academia foi a de que o resultado seria enviado por correspondência, já que a partir daquele dia estaríamos de férias. Perguntei a previsão de quando sairia e a resposta foi: aguarde.
            Fui para casa aliviada e preocupada também. Não conseguia lembrar de nada do que havia feito durante o teste. Era como se tivesse tido um branco. Só quando já estava refeita é que comecei a recordar de tudo.
            Passou Natal, Ano Novo e nada do resultado da audição chegar. Não suportava mais esperar. Ao mesmo tempo em que o meu lado razão sussurrava em meu ouvido que eu não tinha passado, o meu lado sonhador também tomava partido da situação e trazia-me de volta aquele fio de esperança. O fio da possibilidade. Foram dias de verdadeira angústia.
O meu aniversário estava prestes a chegar e eu queria o resultado de aprovação como presente. Se me fosse concedido o direito de escolher um único presente de aniversário, seria este.
            Pode parecer mentira, mas não é. Todas as manhãs e tardes, dia após dia, daquelas férias que não tinham fim eu descia para checar as correspondências. Até que, no dia 6 de janeiro de 1994, abri a caixa de correspondências e lá estava o envelope timbrado da Retoque Dança & Cia. Quando o avistei, paralisei por um instante. Meu coração veio à boca. Numa reunião de esforços, consegui esticar o braço e pegar o envelope como se estivesse pelando de tão quente. Subi com ele colado junto ao peito, numa tentativa inútil de acalmar o coração. Entrei no meu apartamento com a respiração ofegante e fui direto para o banheiro – único lugar em que eu poderia ler de porta fechada, sem levantar suspeita.

            Fiquei alguns segundos diante do envelope colocado no chão, sem nem tocá-lo. Queria abrir, mas tinha medo do que poderia dizer o conteúdo dele. Esperei tanto a sua chegada e, quando estava ao meu alcance, faltava-me coragem para abri-lo.  Contei até três, de olhos bem fechados, e o abri de uma vez só. Retirei a folha que continha o resultado escrito à mão. Comecei a chorar antes mesmo de identificar qual era o resultado. E a carta/resultado dizia:

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Resultado da Audição - Retoque Dança & Cia
Realizada em 18/12/93, às 09h30

Pontuação máxima

Barra -        Total:     60 pontos
Giros -        Total - 150 pontos
Saltos -       Total - 150 pontos
Sequência - Total -   30 pontos
                   Total - 390 pontos


Amador I -   de 6,50 a 7,49 (média)
Amador II - de 7,50 a 10,00 (média)

Nome: Patricia Limeres Pires
Pontuação obtida:
Barra -        Total - 35,5 pontos
Giros -        Total - 87,7 pontos
Saltos -       Total - 88,3 pontos
Sequência - Total - 18,4 pontos

Pontuação total: 229,9 pontos

Média: 5,89

De acordo com o total obtido, você está convidada para fazer aula no horário do grupo Amador I durante 3 meses. Ao final deste período, haverá outro teste para nova avaliação e admissão de novos bailarinos. Há um grande interesse na sua participação nas aulas iniciais, pois dessa forma, você poderá preparar-se melhor e obter a pontuação necessária.
Não desista! Esta é uma outra oportunidade dada a você. Gostaria de contar a sua participação, pois o número de bailarinos do grupo Amador I ainda não está completo.
Dia 18/01/94 todos os bailarinos deverão comparecer à Academia Retoque Dança & Cia para a reunião de esclarecimentos dos horários de aula e outros assuntos de seu interesse.

Glaucia Lacerda Serra

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              Até hoje não sei de onde tirei forças para chegar ao final deste texto. Ao terminar a leitura, chorava não mais de medo, chorava de decepção, de frustração. Ninguém gosta de ser reprovado e eu não sou diferente. No fundo, sempre soube, desde o momento do convite para participar, que não estava  tecnicamente preparada para passar.
              Procurei trabalhar o meu psicológico para esta verdade, mas ao mesmo tempo, acreditei que era possível. Sempre tive isso comigo. Essa coisa de só me entregar de verdade ao que acredito. E foi acreditanto em mim que me dediquei tanto, que me esforcei sem medo das consequências. No final, como recompensa por ter apostado no meu potencial, recebi a maior decepção.
               O me fez sofrer ainda mais não foi o fato de não ter passado por pouco, mas por saber que esse pouco representa todo o nervosismo não controlado, proviniente do medo e da insegurança. Naquela ocasião, eu não conseguia enxergar e perceber que não havia passado, única e exclusivamente, porque não estava preparada. Só conseguia me punir e fiz isso com muita eficiência. Culpava-me pelo meu fracasso, que, na verdade, não representava fracasso algum.




As férias terminaram e chegava a hora de encarar todos da academia. A secretária, as alunas que não participaram, as que participaram e provavelmente tinham passado, as que não passaram, se é que havia alguém, além de mim, que não havia passado, a minha professora, a diretora, que seria a minha nova professora, caso eu tivesse a competência de ser aprovada, e por aí vai.
            Na data indicada na carta, fiz questão de chegar bem em cima da hora, pois não queria falar nem ouvir nada sobre o assunto nos bastidores. Não queria voltar a chorar e mostrar, assim, a minha fraqueza.    Durante a reunião, a diretora explicou às novas integrantes do Grupo Amador I como seria dali para frente. Informou que elas passaram, mas que fariam as aulas do Jazz III, em paralelo, para aperfeiçoarem alguns movimentos ainda executados com imperfeições.
            Explicou, mais brevemente, aos integrantes do Grupo Amador I, que passaram para o Amador II, como seria a nova fase e, obviamente, chegou a parte mais triste da reunião. Falar dos que não atingiram a média mínima para ingressar nos grupos pretendentes.
            O assunto era delicado e ela foi extremamente gentil, falou conosco com muito cuidado. Agradeceu por termos participado da audição, mesmo tendo consciência de que a disputa seria acirrada. Nos parabenizou pela determinação e também pela dedicação. Depois de dizer tudo isso, ela abriu um espaço para a nossa professora dizer algumas palavras e ela repetiu o que havia dito minutos antes de entrarmos na sala no dia da audição, dizendo que ela estava satisfeita com os resultados e orgulhosa. Reforçou também que o resultado era o menos importante para ela e que deveria ser para nós também, pois o importante mesmo era nos permitir tentar, ousar e acreditar. 
            Até aquele momento, mantive-me firme e forte, segurando as lágrimas que teimavam em querer escorrer pela face, mas não consegui suportar mais e deixei a emoção falar. Eu não podia mais sufocar o que estava sentindo. Aí, foi uma choradeira só. A minha colega Vanessa, que também não tinha passado, também caiu no choro e quem havia passado também.
            Após a sessão consolo, a diretora da academia continuou a reunião de onde havia parado, confirmando o convite para participarmos das aulas do Amador I, por um período de experiência de três meses, paralelamente, às aulas do Jazz III, do qual faríamos parte a partir daquele dia – o que já era um grande avanço, pois a ordem natural seria passarmos para o Jazz II. Resumindo: independente do Jazz III, que já era certo, tínhamos três meses para evoluir e tentar novamente o ingresso no Amador I.
Terminado o convite, ela fez questão de deixar claro que a oportunidade estava sendo dada pelo resultado aproximado à média mínima e, para não gerar falsas expectativas, reforçou também que se não passássemos no novo teste, que seria realizado dentro de três meses, ficaríamos apenas no Jazz III.
            Creio que nem preciso dizer que aceitei prontamente. Naquele dia, recebi parte do meu presente de aniversário. Atrasado, mas recebi. A outra metade viria dali a três meses. Eu decidira que não mediria esforços para alcançar o meu objetivo: passar no teste para o Amador I.
            No dia seguinte à reunião, começou a bateria de aulas do Jazz III e Amador I. Começou também a contagem regressiva em direção à minha meta. Eu passava a tarde inteira na academia e de lá ia direto para a escola. Foram os três meses mais puxados, mas a força de vontade e a determinação não davam espaço para o cansaço ou desânimo.
            O período de experiência passou num piscar de olhos. Quando notei, restavam poucos dias para o novo teste.  Desta vez, eu estava bem mais segura da minha condição técnica. A evolução já era visível, mas isso não significava nada. O que valeria mesmo seria o meu desempenho no dia do teste.
            Na data da audição, lá estava eu, tão ou mais nervosa do que no teste anterior, afinal, era a segunda e última chance. A única coisa que tinha certeza era que nada do que havia aprendido, adquirido ou aperfeiçoado naqueles meses de inteira dedicação me seria tirado, independente do resultado.
            Procurei concentrar-me o máximo possível. Tentei esquecer que estava sendo avaliada por jurados que nem sabiam quem era eu, muito menos como me portava nas aulas em termos de aproveitamento e potencial. No quesito tranquilidade eu não obtive muito êxito, mas consegui fazer o teste com segurança, mas não sem nervosismo e tensão.
            Desta vez, o resultado sairia em uma semana e não seguiria por correio, como da primeira vez. Seria informado na academia mesmo. Passei a semana inteira sem saber se queria ou não que chegasse o dia do resultado final, mas independente da minha vontade ele chegou.
            O resultado da repescagem foi dado somente após a aula e foi, sem dúvida, o momento mais traumático da minha vida. Nunca doeu tanto receber um “NÃO” seguido de outro “NÃO”.
A outra metade do meu presente de aniversário ficou pendente. O que, de certa forma, consolou-me foi o fato de que havia obtido um resultado melhor e, portanto, mais próximo da média mínima, mas essa também era a razão da minha maior frustração. Como doía saber que chegara tão perto e ter de admitir que mesmo assim ainda faltava algo. A Vanessa também não passou e sofreu tanto quanto eu.
            Naquele dia nada me animou. Voltei para casa arrasada. Sem força. Sem coragem de encarar a minha família. Com medo de ouvir da minha mãe algo como “eu te avisei que isso não era para você”.
            Abri a porta de casa com a cara inchada de tanto chorar, mas as lágrimas não davam trégua e insistiam em continuar rolando. A minha dor saía de dentro do peito por meio de soluços. Foi difícil lidar com a perda, com a derrota, com o fracasso – sentimentos meus. Minha mãe e minhas irmãs ficaram sensibilizadas com o meu sofrimento e decidiram respeitar a minha dor até determinado momento, depois procuraram dar menos importância ao fato do que ele realmente tinha, só para eu sentir-me melhor. Nada adiantava. Eu não tinha vontade de fazer mais nada. Perdi até o apetite. Só chorava.
            Como a tristeza não cessava, minha mãe tratou logo de apelar para as frases feitas, que causavam em mim um impacto devastador como: “Você só pensa em dançar. A vida não é feita só de dança, muito pelo contrário. Na vida, a realidade é bem diferente”. E não era bem assim. Não pensava apenas em dançar. Eu estudava, trabalhava e, mesmo dividindo o tempo entre os estudos, o trabalho e a dança, nunca reprovei na escola e ela nunca precisou cobrar-me ou alertar-me quanto a isso. Sempre soube das minhas responsabilidades.       
Hoje, percebo que foi o jeito que ela encontrou para tentar proteger-me da dor e fazer com que eu levantasse a cabeça, mas naquela ocasião não conseguia encarar dessa forma. Era difícil entender o comportamento dela, pois do mesmo jeito que ela sabia respeitar a minha dor, em determinados momentos, ela também sabia aumentar ainda mais o meu sofrimento. Não era todo dia que ela esboçava ares de reprovação, mas de tempos em tempos ela sempre soltava alguma manifestação. Muitas vezes as críticas nem eram verbais, mas eu já sabia ler a mensagem no olhar, na expressão e nos gestos dela.
Passei vários dias mergulhada no desânimo. Até que, de repente, olhei-me no espelho e decidi parar de ter pena de mim. Não era uma coitada que não passou no teste, mas sim, uma batalhadora que, com muito sacrifício, conseguiu chegar até o limite do possível.
Não foi fácil ver meu sonho escapando por entre os meus dedos. Mas quem havia dito que tudo acabava ali?

1. Audição: Demonstração do grau de adiantamento dos alunos de uma classe. Uma espécie de teste.

Capítulo 7 - Aceitar o NÃO, lutando pelo SIM

            Como diriam os artistas, o show não pode parar. E, diga-se de passagem, não pode mesmo. E a vida segue, apesar das pedras e tropeços do caminho. Comigo não foi diferente. Me senti cair do alto, sem nem ao menos ter chegado ao fim da escalada. Se doeu? Doeu muito e por dentro. Se sofri? Sofri e não sei mensurar o quanto. Contudo, percebi que a dor e o sofrimento têm um limite e esse limite é estabelecido por nós mesmos. A decisão de neutralizar o sofrimento é nossa e está apenas e tão somente em nossas mãos.
É claro que não estou falando de dor física, estou me referindo às dores mais íntimas e profundas. Àquelas que provocam feridas, cujo processo de cicatrização é difícil, demorado e sofrido. Depois de tudo, as marcas ficam, mas só quem se machucou pode vê-las.
Após obter o resultado da segunda audição, vivi um sofrimento gerado pela frustração de não atingir uma meta e, principalmente, por ter consciência de que trabalhara duro para conquistá-la e, no entanto, meu desempenho ainda assim ficara à margem do necessário.
Sofrer por um sonho não realizado é natural. O que não é natural é transformar a falta de preparo, disfarçada de incapacidade, em penitência. É certo que não passar no teste me machucou, mas é certo também que eu potencializei o machucado, permitindo que ele provocasse uma dor ainda maior. É difícil reconhecer, mas a verdade é que eu dei mais importância ao machucado do que à dor propriamente dita.
Para perceber tudo isso, levei um tempo razoável. Antes,  precisei chorar todas as lágrimas, sofrer todo o sofrimento, esgotar todas as formas de punição psicológica e destruir toda e qualquer autoestima que ainda pudesse existir. Tudo isso tomava uma proporção ainda maior, quando dava-me conta de que estava sozinha com os meus sentimentos, afinal, somente eu sabia o significado daquele teste. Dessa forma, a minha dor não era compartilhada. Em minha casa, quando o assunto era dança, eu nem era levada a sério. Assim, tomei a decisão de sofrer sozinha e em silêncio, mais uma vez. Parecia menos doloroso, embora estranho.
O tempo foi passando e o coração foi se acalmando. Não havia outro jeito, a não ser, seguir em frente. Aliás, nada parou. A rotina das pessoas permanecera exatamente como antes. Então, juntei os pedaços, levantei-me e retomei as rédeas da minha vida. Pensei em desistir algumas vezes, confesso. Inclusive, a caminho da primeira aula após a notícia bombástica que me destruíra por dentro, ainda não sabia ao certo se continuaria, ou não.
Tive a resposta para tal questionamento assim que ultrapassei a porta da sala de aula. Ali, eu sentia-me em casa, segura, feliz e realizada. Não era justo abrir mão de tudo o que conquistara até aquele momento só porque a vida me reservara mais um NÃO. Quantas outras negativas não vieram antes? E com quantas delas foi construída a minha fortaleza?
Naquele instante, um filme passou pela minha memória, em alta velocidade, com a seleção das imagens que conduziram-me até ali. Esperara 15 anos para sentir o gosto doce da realização e certamente não seria o tempo que eu ainda precisaria esperar para conseguir pisar o próximo degrau, o fator que me faria desistir de tudo o que já havia galgado.
O mais curioso é que na mesma sala onde eu fui avaliada por duas vezes – lugar onde senti o maior índice de medo, nervosismo, insegurança e dúvida – foi também onde recebi a mais importante resposta, obtive a mais importante certeza e tomei a mais importante decisão. A decisão de continuar com a certeza de que estaria pronta para a próxima etapa no momento certo. A repetição de palavras aqui, leitor, é proposital.
Os dias se arrastaram e a Vanessa – colega que também não passou nos testes - não comparecia às aulas. Até o dia em que ela apareceu apenas para comunicar que estava deixando a academia. Tentamos demovê-la da ideia, mas não conseguimos. Ela desistiu.
A sua desistência fez-me refletir sobre os limites de cada ser humano. Certamente ela não desistiu porque não era importante para ela, mas porque ela já havia chegado ao limite das suas forças, ao limite de espera determinado por ela. Comigo também foi um pouco assim. Senti que estava prestes a alcançar o meu limite, mas ainda consegui resgatar as imagens do que eu projetara para o meu futuro e dessas cenas imaginárias consegui extrair o restante da força necessária para continuar.
Só quem vive algo assim sabe o quanto isso tudo machuca, mas também ensina. Ensina que os sonhos têm, sim, um valor intangível e mesmo assim costumamos pagar um preço bastante alto por eles. Ensina também que é preciso estarmos prontos para ouvirmos que não estamos prontos. A aceitação natural da limitação pessoal exige uma maturidade muito mais ligada ao nível de percepção e discernimento, do que propriamente à idade.
A vida seguiu e não tive mais notícias de Vanessa. Não sei que rumo tomou e talvez não venha a descobrir se um dia se arrependeu. O que posso garantir é que eu insisti. Permaneci na academia, fazendo aulas no grupo Jazz III, que depois de um tempo foi extinto, pois era composto por bailarinas que passaram para o Amador I, as que migraram do Jazz II para o Jazz III, pelas alunas do Jazz III que não passaram para o Amador I e por mim, que era do Jazz I e não ingressei no Amador I.  Tratava-se de um número pequeno, sendo que boa parte desse número só estava fazendo aulas para aprimoramento no Amador I. Por essa razão, o grupo Jazz III se juntou ao Jazz II.
O fato de não ter passado nas audições não diminuiu a minha sede de aprendizado e aperfeiçoamento. Eu queria mais. Foi a partir dessa fase que pude constatar que as dificuldades da vida, no caso da minha vida, me auxiliaram a buscar força e determinação nas adversidades da trajetória.
O ano de 1994 foi o que denominei de ano preparatório. E assim foi. As minhas professoras nessa segunda fase, Carolina de Sales e Natali Camolez, decidiram, assim como eu, que aquele ano seria realmente preparatório. Portanto, elas exigiam cada vez mais de mim nas aulas e, em contrapartida, eu não deixava por menos e retribuía a dedicação e a confiança depositadas em mim. Era bom demais saber que já não estava sozinha na busca incessante do que eu mais desejava. Foi puxado, é verdade, mas principalmente produtivo.
Ao longo do ano, fui superando dificuldades e limitações. O período de montagem de coreografia nova chegou, confirmando que o tempo passa mesmo e as dores também, principalmente quando o foco está direcionado para a solução e não para o problema.
Junto com o final do ano, veio também mais uma apresentação. Os ensaios, o cansaço, o desgaste físico. Tudo recomeçava e com todo o gás. Tudo era igual, porém totalmente diferente. Cada apresentação é uma apresentação. Cada movimento é um movimento. E os ensaios que o digam.
Um dia em que o ensaio foi exaustivo, recordo-me bem, no intervalo, fiquei pensando em como tudo pode ter dois lados. A repetição, por exemplo, gera aprimoramento, mas também resulta no retrocesso. Deixe-me explicar melhor...o excesso de repetição faz com que façamos melhor, é evidente, mas também nos torna confiantes do que estamos fazendo. Então, automaticamente passamos a fazer com menos cuidado e precisão e, com isso, praticamente voltamos à estaca zero. Não adianta negar. É isso mesmo que ocorre. E é assim em tudo na vida e em qualquer área de atuação. A repetição, em excesso, nos faz cansar, acomodar e executar de qualquer jeito ou, se soar melhor, com menos perfeição. É certo que existem altos e baixos, mas é assim que funciona, genericamente falando.     
A audição de 1994 foi postergada para o primeiro trimestre de 1995. Aproveitei para concentrar-me na coreografia e nas apresentações de fim de ano sem deixar a ansiedade tomar conta, como permitira no ano anterior.
Chegou o dia da apresentação. Tudo estava sob controle, quer dizer, tudo estaria sob controle não fosse o teatro lotado, a família mais uma vez presente, incluindo minha mãe, coração batendo a mais de mil por hora, frio na barriga e a tremedeira habitual de todas as apresentações. No final, tudo correu bem. Estava terminado e registrado, nas páginas da minha memória e de minha vida, mais um momento de realização plena.  
O ano de 1995 começou e a expectativa de que seria o ano em que o grito de alegria contido na garganta seria emitido em alto e bom som voltou a me rondar. Não que eu pensasse que a audição já estava no papo. Nada disso. O desafio continuava e com as mesmas dificuldades. Apenas as limitações já não eram as mesmas, pelo menos não na mesma escala.
Logo que retomarmos às aulas após as férias de fim de ano, recebi a notificação de que a audição seria realizada em breve. Nos dias subsequentes à informação que tanto esperava, tive um susto. A dona da escola de datilografia e digitação onde eu trabalhava convocou-me para uma reunião para dizer que queria que eu trabalhasse o período integral na escola e o meu salário aumentaria simbolicamente. Isso significava ter de abandonar as aulas de dança. Ouvi tudo o que ela tinha a dizer, mas não dei nenhuma resposta. Pedi um tempo para pensar na proposta.
Fui para a academia naquele dia muito preocupada, nem consegui concentrar-me na aula, nos exercícios, em nada. Eu precisava trabalhar. Isso era fato. E o que me preocupava ainda mais é que, além de precisar do trabalho e, sobretudo, do salário, não teria o apoio da minha mãe, no sentido de incentivar-me a procurar outro emprego de meio expediente. Todos esses pensamentos foram deixando-me apavorada. A única coisa que me vinha à mente era que o destino me tiraria das mãos, mais uma vez, o meu bem mais precioso: o sonho. E faria isso justamente no momento em que sentia-me pronta para vivenciá-lo.     
No caminho da escola até a minha casa, que não era curto, fui caminhando e pensando no discurso que faria para convencer a minha mãe de que não era justo comigo. No fundo, imaginava que não adiantaria nada, mas era preciso tentar. Não podia desistir assim tão fácil depois de tudo o que passara.
Decidida a tentar, abri a porta de casa e fui direto à minha mãe. Com firmeza a chamei para conversar e expliquei tudo. Claro que toda a fortaleza se desmanchou assim que terminei de falar e as lágrimas vieram com toda força.
Ao contrário do que pensei, minha mãe conseguiu entender a minha dor e, para minha surpresa, disse: “Nada disso. Você não vai trabalhar o dia todo, para ganhar essa miséria (e era uma miséria mesmo) e, além de tudo, ter de sair da dança”. Ainda sou capaz de lembrar o tom da voz dela e a expressão do rosto ao dizer isso. E não contente completou, com tom de leoa que protege a cria: “Diga à ela que você não ficará nessas condições e que se do jeito que está não atende às necessidades do negócio dela, que lhe demita. A gente procura outro emprego de meio período para você. Fique tranqüila”.
É com muita emoção que tiro essa lembrança do baú da minha memória. Sei bem o que significou essa declaração de minha mãe, sabendo que ela ficou tão ou mais preocupada do que eu. Afinal de contas, eu era uma adolescente com um certo nível de maturidade, que queria dar continuidade ao sonho adiado na infância e início da juventude. Ela, era a mãe e o pai e carregava consigo todas as angústias e preocupações desses dois títulos. O meu salário era pequeno, mas bem ou mal ajudava nas despesas.
No dia seguinte, fiz tudo conforme ela me orientara e a demissão foi oficializada. Fiquei aliviada por saber que não precisaria abandonar a dança, não de imediato, mas também me senti egoísta. Diante de todas essas sensações, resolvi deixar as coisas acontecerem a seu tempo. De qualquer forma, eu procuraria outro emprego e, na pior das hipóteses, se não encontrasse teria de entender e aceitar o que era prioridade.   
Semanas mais tarde, a minha irmã mais velha, Alessandra, chegou do trabalho com a notícia de que marcara uma entrevista para o dia seguinte com a dona de uma loja de biquinis e roupas de ginástica que estava precisando de vendedora, meio expediente. A esperança voltou à tona.
Na manhã seguinte, fui para a entrevista cheia de fé. E essa mesma fé provou-me que é capaz de mover montanhas. Eu consegui a vaga na loja, para trabalhar das 9 às 15 horas. Assim, não seria necessário sair da dança. Tudo indicava que aquele era o ano da concretização do meu maior objetivo.
O susto, seguido da mudança de emprego, fez-me esforçar ainda mais para a audição. Era preciso tomar consciência de que era chegada a hora e, principalmente, de que eu estava pronta. Renovada de energias e também de esperanças, no dia da audição, caminhei até a sala de avaliação com segurança. Não vou dizer que não senti medo ou que não fiquei nervosa. Estaria enganando você, leitor, e mais ainda a mim. O nervoso nessas situações é natural, mas o preparo tende a superá-lo. Fiz a audição da melhor forma que eu poderia ter feito. Saí da sala com a sensação de missão cumprida.  A partir dali, só restava esperar.
A audição foi realizada no sábado, 25 de março de 1995. Na  segunda-feira, cheguei com tranquilidade na academia, fui para o vestiário, aprontei-me para a aula e fui para a recepção conversar com a vó Vilma (como carinhosamente costumávamos chamá-la). Em meio à conversa fiada, percebi que ela estava estranha. Então, perguntei se ela estava bem. Ao que ela prontamente respondeu: “você já viu o resultado?”. Na mesma hora eu travei. Fiquei sem reação por alguns segundos até que consegui esboçar um n ã o praticamente soletrado. Ela apontou para o lado de fora, dizendo que todas as colocações estavam fixadas na parede do corredor. Fiquei absolutamente sem ar. Não sabia se ia até lá ou se preferia ficar ali mesmo.
O meu futuro na dança já estava definido e fixado em uma parede e me faltava coragem para ir conhecê-lo. A vó Vilma percebeu o meu estado de choque e sugeriu que eu fosse ver logo o resultado. Diante do quadro, coloquei meu dedo indicador no primeiro nome e fui descendo até chegar na letra “p”, de Patrícia, e lá estava o meu nome, a única Patrícia aprovada para o grupo Amador I. Não sei descrever em palavras o que senti naquela hora. Não consegui gritar, nem falar, só consegui colocar as mãos sobre os lábios e dar risada. Fiquei um tempo considerável em transe absoluto.
Depois da aula de dança mais leve que já fizera, passei na escola para dar a notícia às minhas amigas, que tanto torciam por mim e, de lá, corri para minha casa para dividir com a minha família. No caminho, decidi que faria expressão de tristeza e decepção quando entrasse em casa, mas logo em seguida percebi que talvez não conseguisse esboçar tristeza, pois não estava cabendo em mim de tanta felicidade. Então, decidi que contaria logo de cara.
Cheguei em casa praticamente demolindo a porta. Minhas irmãs não estavam, mas eu não poderia esperar mais. Corri até onde minha mãe estava, peguei nas mãos dela e sem parar de balançá-las, gritei: “Mãe, você não vai acreditar. Eu consegui! Eu passei no teste! Eu passei!”. Minha mãe, mais orgulhosa do que contente, com os olhos cheios de lágrimas disfarçadas, olhou-me e disse: eu sabia que você ia passar, filha. Eu não te disse que não precisava se preocupar tanto?”. 
Aquele resultado eu não devia somente a mim. Eu devia à ela também.