No decorrer dos ensaios, antes da primeira apresentação - já relatada no capítulo anterior - a minha professora convidou-me para participar da audição (1), que seria realizada também no final daquele ano - em 18 de dezembro de 1993. De tão surpresa, não conseguia entender direito o que estava acontecendo. Provavelmente, essa confusão ficou bastante nítida em minha expressão, pois ela resolveu explicar-me tudo. Agora, vou tentar deixar um pouco de lado a emoção de relembrar essa parte em especial, para ver se consigo retransmitir a você, leitor, o que ela me esclareceu, na época.
Os grupos de dança da academia Retoque Dança & Cia eram divididos da seguinte forma: Jazz I (nível iniciante) – do qual eu fazia parte; Jazz II (nível intermediário) - do qual teoricamente eu faria parte na sequência, caso me saísse bem no Jazz I; Jazz II (nível intermediário); Jazz III (nível avançado); Amador I (grupo de competição – nível iniciante); Amador II (grupo de competição – nível avançado – quase profissional).
Assim, todo final de ano a academia realizava audições para selecionar novos bailarinos para os grupos Amador I e Amador II. As vagas para ambos os grupos eram super disputadas, entre bailarinos da própria academia e também por uma quantidade esmagadora de bailarinos de toda região.
O mais comum era que bailarinos do Jazz III (nível avançado) participassem dessa audição, afinal, os pré-requisitos técnicos para conseguir passar eram bastante rigorosos. Diante dessa informação, fiquei extasiada por ser selecionada para participar com tão pouco tempo de aula. Eu estava apenas no Jazz I, inclusive, na condição de “a mais novata”, e não tinha nem sequer pensado na possibilidade de pular do Jazz I para o Amador I.
Para se ter uma ideia, nem todas as integrantes da minha turma foram selecionadas, aliás, entre mais de 30, nem dez foram escolhidas. Só isso já representava uma vitória, pois a seleção dessa minoria na qual eu estava incluída, foi feita com base no aproveitamento durante as aulas, no potencial de superação, no destaque e evolução adquiridos no decorrer dos ensaios para a apresentação de fim de ano, ou seja, na dedicação e no empenho demonstrados ao longo de todo o período.
Confesso que fiquei bastante chateada por algumas amigas que estavam no mesmo nível que eu não terem sido selecionadas, mas não posso negar que isso não diminuiu a minha alegria em estar entre as destacadas. Não porque isso significasse ser melhor ou pior que alguém. Nada disso. Significava apenas que era capaz de conseguir chegar onde queria. Assim como eu, todos aqueles que decidem buscar o que verdadeiramente desejam, cedo ou tarde, conquistam o seu lugar. É apenas uma questão de persistência, insistência e, sobretudo, fé. Fé em uma força que é maior e que tudo vê e, principalmente, fé em si mesmo.
Claro, que junto com a feliz notícia sobre a minha participação na audição, veio também o peso da responsabilidade e, mais uma vez, dei de cara com o medo. Como de costume, não me deixei abalar por ele. Fiz melhor. O encarei de frente e com toda força e vontade de superá-lo, pois o que estava em jogo era a realização do meu sonho.
A partir de então, eu e as demais selecionadas, passamos a fazer, além das nossas aulas do Jazz I e ensaiar para a apresentação de final de ano, as aulas do grupo Amador I. Tratavam-se de aulas preparatórias para a audição. Essas aulas aconteciam à noite – horário em que deveria estar na escola – mas como foi por um curto período, abdiquei das disciplinas escolares. O clima dessas aulas preparatórias era sempre bastante apreensivo, pois na verdade todos estavam no mesmo barco.
O pessoal do Amador I também participava da audição para concorrer a uma vaga no Amador II ou para justificar a permanência no Amador I, pois para continuar no grupo não era permitida a queda de aproveitamento, nem tampouco a ausência de evolução. O mesmo acontecia com o Amador II.
O desgaste físico e psicológico naqueles dias e semanas foi algo indescritível. Os nervos ficaram literalmente à flor da pele. Os momentos de descontração também existiam, é claro, mas no fundo estávamos todos concentrados nos mesmos objetivos. Os que já integravam o Amador I e o Amador II nos davam muito apoio, várias dicas e toques. O incentivo deles foi essencial para que nos mantivéssemos firmes até o dia da verdade.
No período da manhã e início da tarde, eu trabalhava. Do trabalho, ia direto para casa, arrumava tudo, passava as lições perdidas nas aulas da escola a limpo e estudava um pouco. No final da tarde, seguia para academia e só saía de lá depois das 21 horas. De lá, ainda corria para a escola assistir as últimas aulas. Chegava em casa exausta, cheia de hematomas e dores, mas feliz. Aos sábados, do início da manhã até o final de tarde, mais ensaios e aulas. A rotina passou a ser assim durante várias semanas.
A busca pela superação e muitas vezes, ou na maioria delas, a tentativa de pelo menos acompanhar o ritmo do Amador I, ainda que sem tanta técnica, nos deixou bastante ocupadas para sequer pensarmos em sentir ansiedade. Ao mesmo tempo que queríamos que chegasse logo o dia da apresentação, desejávamos também que não chegasse tão cedo o dia da audição, mas o atendimento aos dois pedidos era impossível, uma vez que as duas datas eram próximas uma da outra.
E o dia da temida audição chegou, não teve jeito. Eu nem consegui dormir naquela noite. Acordava de cinco em cinco minutos achando que já era manhã. Fiquei virando na cama feito bife na frigideira. Quando finalmente amanheceu, pulei da cama e tratei de me aprontar. Nunca levantei tão cedo e tão bem disposta em toda a minha vida. Cheguei na academia com bastante antecedência, para não correr risco nenhum de perder aquela que, certamente, era a minha grande oportunidade.
Ao chegar lá, percebi que todos haviam compartilhado do mesmo pensamento que eu. A academia ainda estava fechada e a escadaria do prédio estava repleta de estranhos e também de amigos. Procuramos não falar sobre a audição, mas isso não durou mais que dez minutos. Logo, a diretora da Retoque, Gláucia Lacerda Serra, chegou junto com a sua mãe, a querida dona Vilma, que ficava na secretaria, e todos entraram na sala de espera, que servira também como sala de aquecimento.
Cada candidato tinha um número e a chamada para a sala de audição era realizada pela numeração e não por nome. A espera parecia não ter fim. E quanto mais o tempo passava era pior. O nervosismo e a ansiedade aumentavam a cada turma que saía daquela sala. Algumas pessoas saíam com a expressão de segurança, outras saíam com cara de desânimo, tinha também as que saíam com um ponto de interrogação no semblante. E eu continuava ali, na ante-sala do medo, sem saber qual seria o meu destino.
Ao descrever tudo isso, sinto como se revivesse tudo de novo. Meu coração palpita, minhas mãos tremem e os meus olhos ficam cheios d´água. Como alguns sentimentos podem retornar com tanta força como se nunca tivessem passado? Nunca pensei que ao relembrar tudo isso, com tamanha riqueza de detalhes, fosse capaz de provocar o resgate de tantas emoções. Somente agora estou percebendo isso.
O número 34 foi anunciado em voz alta. Era o meu número. Não dava mais tempo de fugir. Na sequência, os números das minhas colegas de luta também foram anunciados. Neste momento, a nossa professora, Herédia, aproximou-se de nós, formou um círculo de mãos dadas e disse palavras confortantes - palavras que tiraram boa parte do peso que estávamos sentindo nos ombros.
Foi uma conversa breve e objetiva, mas foi justamente o que precisávamos ouvir naquela hora. Disse que acreditava no nosso potencial, que não havíamos sido escolhidas à toa, que não importava o resultado, pois nós já éramos vencedoras e guerreiras só por termos chegado até ali e por termos demonstrado coragem de encarar o desafio de competir, em condição de igualdade, com pessoas da própria academia e também de fora com nível mais avançado que o nosso. Ela finalizou essa conversa apertando as nossas mãos e dizendo: merda!. Nos dirigimos à sala do teste e ela ficou ali, com o coração ainda mais apertado que o nosso, certamente.
O teste começou na barra. A temida barra, eu diria. O meu nervoso era tanto, que não se contentou em se apresentar apenas através da minha expressão de pavor, mas também nas mãos e braços que tremiam como vara verde. As pernas também não ficaram atrás. Eu parecia uma tonta com as pernas unidas e os pés calçados com sapatilhas novas, em primeira posição, com o braço oposto ao do apoiado na barra aberto lateralmente e tudo isso tremendo ao mesmo tempo. Isso mesmo! Em verdadeira sincronia.
Depois dos exercícios e sequências de barra (balé), partimos para os elementos da diagonal: saltos, giros e piruetas de todos os tipos, entre tantos outros movimentos com nomes técnicos que não cabem menção.
Por último, e não menos importante, a sequência de centro. A composição coreográfica foi passada no momento do teste. Tá certo que, durante as aulas que antecederam à audição, fizemos movimentos muito similares aos que compunham a sequência, mas ali, diante de todos os jurados, nada era simples. Absolutamente nada. A sensação de estar sendo avaliada até na respiração era assombrosa.
Com o término, veio a sensação de leveza. Como se uns dez quilos tivessem saído das minhas costas e a minha via respiratória tivesse sido desobstruída, pois eu já conseguia respirar. Ao voltar para a sala de espera, todos perguntaram como tinha sido e acho que a minha expressão era o reflexo exato da junção de todas aquelas pessoas que mencionei antes. Provavelmente reunia desespero, desânimo, decepção e interrogação. O único sentimento que eu não tive naquele momento foi segurança, afinal, sempre fui crítica demais.
A informação que tivemos antes de sairmos da academia foi a de que o resultado seria enviado por correspondência, já que a partir daquele dia estaríamos de férias. Perguntei a previsão de quando sairia e a resposta foi: aguarde.
Fui para casa aliviada e preocupada também. Não conseguia lembrar de nada do que havia feito durante o teste. Era como se tivesse tido um branco. Só quando já estava refeita é que comecei a recordar de tudo.
Passou Natal, Ano Novo e nada do resultado da audição chegar. Não suportava mais esperar. Ao mesmo tempo em que o meu lado razão sussurrava em meu ouvido que eu não tinha passado, o meu lado sonhador também tomava partido da situação e trazia-me de volta aquele fio de esperança. O fio da possibilidade. Foram dias de verdadeira angústia.
O meu aniversário estava prestes a chegar e eu queria o resultado de aprovação como presente. Se me fosse concedido o direito de escolher um único presente de aniversário, seria este.
Pode parecer mentira, mas não é. Todas as manhãs e tardes, dia após dia, daquelas férias que não tinham fim eu descia para checar as correspondências. Até que, no dia 6 de janeiro de 1994, abri a caixa de correspondências e lá estava o envelope timbrado da Retoque Dança & Cia. Quando o avistei, paralisei por um instante. Meu coração veio à boca. Numa reunião de esforços, consegui esticar o braço e pegar o envelope como se estivesse pelando de tão quente. Subi com ele colado junto ao peito, numa tentativa inútil de acalmar o coração. Entrei no meu apartamento com a respiração ofegante e fui direto para o banheiro – único lugar em que eu poderia ler de porta fechada, sem levantar suspeita.
Fiquei alguns segundos diante do envelope colocado no chão, sem nem tocá-lo. Queria abrir, mas tinha medo do que poderia dizer o conteúdo dele. Esperei tanto a sua chegada e, quando estava ao meu alcance, faltava-me coragem para abri-lo. Contei até três, de olhos bem fechados, e o abri de uma vez só. Retirei a folha que continha o resultado escrito à mão. Comecei a chorar antes mesmo de identificar qual era o resultado. E a carta/resultado dizia:
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Resultado da Audição - Retoque Dança & Cia
Realizada em 18/12/93, às 09h30
Pontuação máxima
Barra - Total: 60 pontos
Giros - Total - 150 pontos
Saltos - Total - 150 pontos
Sequência - Total - 30 pontos
Total - 390 pontos
Amador I - de 6,50 a 7,49 (média)
Amador II - de 7,50 a 10,00 (média)
Nome: Patricia Limeres Pires
Pontuação obtida:
Barra - Total - 35,5 pontos
Giros - Total - 87,7 pontos
Saltos - Total - 88,3 pontos
Sequência - Total - 18,4 pontos
Pontuação total: 229,9 pontos
Média: 5,89
De acordo com o total obtido, você está convidada para fazer aula no horário do grupo Amador I durante 3 meses. Ao final deste período, haverá outro teste para nova avaliação e admissão de novos bailarinos. Há um grande interesse na sua participação nas aulas iniciais, pois dessa forma, você poderá preparar-se melhor e obter a pontuação necessária.
Não desista! Esta é uma outra oportunidade dada a você. Gostaria de contar a sua participação, pois o número de bailarinos do grupo Amador I ainda não está completo.
Dia 18/01/94 todos os bailarinos deverão comparecer à Academia Retoque Dança & Cia para a reunião de esclarecimentos dos horários de aula e outros assuntos de seu interesse.
Glaucia Lacerda Serra
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Até hoje não sei de onde tirei forças para chegar ao final deste texto. Ao terminar a leitura, chorava não mais de medo, chorava de decepção, de frustração. Ninguém gosta de ser reprovado e eu não sou diferente. No fundo, sempre soube, desde o momento do convite para participar, que não estava tecnicamente preparada para passar.
Procurei trabalhar o meu psicológico para esta verdade, mas ao mesmo tempo, acreditei que era possível. Sempre tive isso comigo. Essa coisa de só me entregar de verdade ao que acredito. E foi acreditanto em mim que me dediquei tanto, que me esforcei sem medo das consequências. No final, como recompensa por ter apostado no meu potencial, recebi a maior decepção.
O me fez sofrer ainda mais não foi o fato de não ter passado por pouco, mas por saber que esse pouco representa todo o nervosismo não controlado, proviniente do medo e da insegurança. Naquela ocasião, eu não conseguia enxergar e perceber que não havia passado, única e exclusivamente, porque não estava preparada. Só conseguia me punir e fiz isso com muita eficiência. Culpava-me pelo meu fracasso, que, na verdade, não representava fracasso algum.
As férias terminaram e chegava a hora de encarar todos da academia. A secretária, as alunas que não participaram, as que participaram e provavelmente tinham passado, as que não passaram, se é que havia alguém, além de mim, que não havia passado, a minha professora, a diretora, que seria a minha nova professora, caso eu tivesse a competência de ser aprovada, e por aí vai.
Na data indicada na carta, fiz questão de chegar bem em cima da hora, pois não queria falar nem ouvir nada sobre o assunto nos bastidores. Não queria voltar a chorar e mostrar, assim, a minha fraqueza. Durante a reunião, a diretora explicou às novas integrantes do Grupo Amador I como seria dali para frente. Informou que elas passaram, mas que fariam as aulas do Jazz III, em paralelo, para aperfeiçoarem alguns movimentos ainda executados com imperfeições.
Explicou, mais brevemente, aos integrantes do Grupo Amador I, que passaram para o Amador II, como seria a nova fase e, obviamente, chegou a parte mais triste da reunião. Falar dos que não atingiram a média mínima para ingressar nos grupos pretendentes.
O assunto era delicado e ela foi extremamente gentil, falou conosco com muito cuidado. Agradeceu por termos participado da audição, mesmo tendo consciência de que a disputa seria acirrada. Nos parabenizou pela determinação e também pela dedicação. Depois de dizer tudo isso, ela abriu um espaço para a nossa professora dizer algumas palavras e ela repetiu o que havia dito minutos antes de entrarmos na sala no dia da audição, dizendo que ela estava satisfeita com os resultados e orgulhosa. Reforçou também que o resultado era o menos importante para ela e que deveria ser para nós também, pois o importante mesmo era nos permitir tentar, ousar e acreditar.
Até aquele momento, mantive-me firme e forte, segurando as lágrimas que teimavam em querer escorrer pela face, mas não consegui suportar mais e deixei a emoção falar. Eu não podia mais sufocar o que estava sentindo. Aí, foi uma choradeira só. A minha colega Vanessa, que também não tinha passado, também caiu no choro e quem havia passado também.
Após a sessão consolo, a diretora da academia continuou a reunião de onde havia parado, confirmando o convite para participarmos das aulas do Amador I, por um período de experiência de três meses, paralelamente, às aulas do Jazz III, do qual faríamos parte a partir daquele dia – o que já era um grande avanço, pois a ordem natural seria passarmos para o Jazz II. Resumindo: independente do Jazz III, que já era certo, tínhamos três meses para evoluir e tentar novamente o ingresso no Amador I.
Terminado o convite, ela fez questão de deixar claro que a oportunidade estava sendo dada pelo resultado aproximado à média mínima e, para não gerar falsas expectativas, reforçou também que se não passássemos no novo teste, que seria realizado dentro de três meses, ficaríamos apenas no Jazz III.
Creio que nem preciso dizer que aceitei prontamente. Naquele dia, recebi parte do meu presente de aniversário. Atrasado, mas recebi. A outra metade viria dali a três meses. Eu decidira que não mediria esforços para alcançar o meu objetivo: passar no teste para o Amador I.
No dia seguinte à reunião, começou a bateria de aulas do Jazz III e Amador I. Começou também a contagem regressiva em direção à minha meta. Eu passava a tarde inteira na academia e de lá ia direto para a escola. Foram os três meses mais puxados, mas a força de vontade e a determinação não davam espaço para o cansaço ou desânimo.
O período de experiência passou num piscar de olhos. Quando notei, restavam poucos dias para o novo teste. Desta vez, eu estava bem mais segura da minha condição técnica. A evolução já era visível, mas isso não significava nada. O que valeria mesmo seria o meu desempenho no dia do teste.
Na data da audição, lá estava eu, tão ou mais nervosa do que no teste anterior, afinal, era a segunda e última chance. A única coisa que tinha certeza era que nada do que havia aprendido, adquirido ou aperfeiçoado naqueles meses de inteira dedicação me seria tirado, independente do resultado.
Procurei concentrar-me o máximo possível. Tentei esquecer que estava sendo avaliada por jurados que nem sabiam quem era eu, muito menos como me portava nas aulas em termos de aproveitamento e potencial. No quesito tranquilidade eu não obtive muito êxito, mas consegui fazer o teste com segurança, mas não sem nervosismo e tensão.
Desta vez, o resultado sairia em uma semana e não seguiria por correio, como da primeira vez. Seria informado na academia mesmo. Passei a semana inteira sem saber se queria ou não que chegasse o dia do resultado final, mas independente da minha vontade ele chegou.
O resultado da repescagem foi dado somente após a aula e foi, sem dúvida, o momento mais traumático da minha vida. Nunca doeu tanto receber um “NÃO” seguido de outro “NÃO”.
A outra metade do meu presente de aniversário ficou pendente. O que, de certa forma, consolou-me foi o fato de que havia obtido um resultado melhor e, portanto, mais próximo da média mínima, mas essa também era a razão da minha maior frustração. Como doía saber que chegara tão perto e ter de admitir que mesmo assim ainda faltava algo. A Vanessa também não passou e sofreu tanto quanto eu.
Naquele dia nada me animou. Voltei para casa arrasada. Sem força. Sem coragem de encarar a minha família. Com medo de ouvir da minha mãe algo como “eu te avisei que isso não era para você”.
Abri a porta de casa com a cara inchada de tanto chorar, mas as lágrimas não davam trégua e insistiam em continuar rolando. A minha dor saía de dentro do peito por meio de soluços. Foi difícil lidar com a perda, com a derrota, com o fracasso – sentimentos meus. Minha mãe e minhas irmãs ficaram sensibilizadas com o meu sofrimento e decidiram respeitar a minha dor até determinado momento, depois procuraram dar menos importância ao fato do que ele realmente tinha, só para eu sentir-me melhor. Nada adiantava. Eu não tinha vontade de fazer mais nada. Perdi até o apetite. Só chorava.
Como a tristeza não cessava, minha mãe tratou logo de apelar para as frases feitas, que causavam em mim um impacto devastador como: “Você só pensa em dançar. A vida não é feita só de dança, muito pelo contrário. Na vida, a realidade é bem diferente”. E não era bem assim. Não pensava apenas em dançar. Eu estudava, trabalhava e, mesmo dividindo o tempo entre os estudos, o trabalho e a dança, nunca reprovei na escola e ela nunca precisou cobrar-me ou alertar-me quanto a isso. Sempre soube das minhas responsabilidades.
Hoje, percebo que foi o jeito que ela encontrou para tentar proteger-me da dor e fazer com que eu levantasse a cabeça, mas naquela ocasião não conseguia encarar dessa forma. Era difícil entender o comportamento dela, pois do mesmo jeito que ela sabia respeitar a minha dor, em determinados momentos, ela também sabia aumentar ainda mais o meu sofrimento. Não era todo dia que ela esboçava ares de reprovação, mas de tempos em tempos ela sempre soltava alguma manifestação. Muitas vezes as críticas nem eram verbais, mas eu já sabia ler a mensagem no olhar, na expressão e nos gestos dela.
Passei vários dias mergulhada no desânimo. Até que, de repente, olhei-me no espelho e decidi parar de ter pena de mim. Não era uma coitada que não passou no teste, mas sim, uma batalhadora que, com muito sacrifício, conseguiu chegar até o limite do possível.
Não foi fácil ver meu sonho escapando por entre os meus dedos. Mas quem havia dito que tudo acabava ali?
1. Audição: Demonstração do grau de adiantamento dos alunos de uma classe. Uma espécie de teste.